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Uso de estatinas reduz mortalidade em cirurgias não cardíacas?

Em um novo estudo observacional, pesquisadores investigaram se o uso de estatinas no período perioperatório está associado à complicações pós-operatórias reduzidas após cirurgia não cardíaca.

A eficácia das estatinas na redução de complicações perioperatórias cardiovasculares e de outros sistemas de órgãos em pacientes submetidos a cirurgia não cardíaca continua sendo controversa. Este novo estudo de coorte observacional incluiu 96.486 veteranos (96,3% homens, 3,7% mulheres, idade média de 65 anos).

Os participantes foram submetidos a cirurgia não cardíaca eletiva ou emergente (incluindo vascular, geral, neurocirurgia, ortopédica, torácica, urológica e otorrinolaringológica), com um seguimento pós-operatório de 30 dias. Os dados foram coletados entre 2005 e 2010.

No momento da admissão hospitalar, 37,8% dos pacientes tinham uma prescrição ambulatorial ativa para uma estatina, dos quais 80,8% receberam sinvastatina e 59,5% utilizaram dose de intensidade moderada.

Veja também: ‘Existe risco de perda de memória com o uso prolongado de estatinas?’

A exposição à estatina no dia ou no dia após a cirurgia foi observada em 31,5% da coorte. A mortalidade em 30 dias foi significativamente reduzida nos pacientes expostos ao fármaco ([RR] = 0,82; [IC] = 95%, 0,75 – 0,89; P <0,001; [NNT] = 244; [IC] = 95%, 170 – 432).

Dos resultados secundários, observou-se associação significativa com risco reduzido de complicação ([RR] = 0,82; [IC] = 95%, 0,79 – 0,86; P <0,001; [NNT] = 67; [IC] = 95%, 55 – 87); todos foram significativos, exceto o sistema nervoso central e as categorias de trombose, com maior risco de redução ([RR] = 0,73; [IC] = 95%, 0,64 – 0,83) para complicações cardíacas.

Os resultados sugerem que a exposição perioperatória a estatinas foi associada com uma redução significativa na mortalidade por todas as causas e várias complicações cardiovasculares e não cardiovasculares.

E mais: ‘Estatinas: os benefícios são maiores que os riscos?’

Dr. Ronaldo Gismondi, doutor em Medicina e professor de Clínica Médica na Universidade Federal Fluminense, fala mais sobre o assunto e os resultados do estudo:

“A síndrome coronariana aguda (SCA) é uma das complicações clínicas mais comuns após cirurgias não cardíacas, com incidência estimada entre 1 e 20% dos pacientes, dependendo das condições clínicas, comorbidades e tipo de cirurgia. Há várias estratégias em estudo para reduzir o risco de SCA após cirurgias não cardíacas.

As estatinas são uma grande esperança, mas até o momento não há evidências inequívocas de seu benefício. O grande problema é que, ao contrário da SCA “tradicional”, na SCA pós-operatória apenas 50% dos infartos ocorrem por placas ateroscleróticas obstrutivas – a prevalência de IAM tipo 2, por desequilíbrio na oferta x consumo de oxigênio, é bem maior.

O artigo de base para leitura foi um estudo observacional, no qual os pacientes em uso de estatina apresentaram menor mortalidade em 30 dias em comparação com o grupo controle (sem uso estatina). Os subgrupos de maior benefício foram aqueles onde o “burden” de aterosclerose é esperadamente maior, bem como os pacientes de maior risco: uso prévio de altas doses de estatina, cirurgia de alto risco, diabetes e coronariopatas.

Os ‘pontos fracos’ do estudo foram uma população masculina (96%, já que foi em um hospital para veteranos de guerra) e a sinvastatina foi a estatina mais utilizada (e nós sabemos que atorvastatina e rosuvastatina são bem mais potentes). Além disso, a magnitude do benefício sobre a mortalidade não foi muito grande: uma redução de risco relativo de 18% com um número necessário para tratar (NNT) de 1:244.

Talvez se fosse uma estatina melhor, esses resultados seriam mais favoráveis… Já o benefício sobre complicações clínicas foi bem melhor, com NNT 1:67. O estudo também levantou dois pontos interessantes para serem explorados: paciente em dose alta de estatina apresentaram mais lesão renal peri-operatória e aqueles pacientes que suspenderam a estatina tiveram maior incidência de complicações clínicas.

O desenho do estudo – observacional – não nos permite tirar conclusões definitivas sobre o tema. Um outro estudo observacional e uma meta-análise mostraram resultados semelhantes em populações diferentes, o que reforça os resultados encontrados. Contudo, ainda é necessário um grande ensaio clínico randomizado e duplo-cego para dar um nível de evidência IA para estatina na prevenção de SCA em cirurgias não cardíacas”, finaliza Dr. Ronaldo.

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Referências:

  • Association of Perioperative Statin Use With Mortality and Morbidity After Major Noncardiac Surgery
    London M Schwartz G Hur K Henderson W ED K et. al. JAMA Internal Medicine, 2016 vol: 314 (17) pp: 1818-1831. DOI: 10.1001/jamainternmed.2016.8005
  • Berwanger O, Le Manach Y, Suzumura EA et al. Association between pre-operative statin use and major cardiovascular complications among patients undergoing non-cardiac surgery: the VISION study. Eur Heart J. 2016 Jan;37(2):177-85.
  • Antoniou GA, Hajibandeh S, Hajibandeh S et al. Meta-analysis of the effects of statins on perioperative outcomes in vascular and endovascular surgery. J Vasc Surg. 2015 Feb;61(2):519-532.

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