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Controle o sangramento! Segundos fazem a diferença

A violência permeia nossa sociedade contemporânea de todas as maneiras, de modo que basta ligar o noticiário para nos depararmos com mais um caso de atentado terrorista, atiradores, ataques suicidas. Além do mais, não são infrequentes os casos de fenômenos naturais produzindo múltiplas vítimas. Neste contexto, toda a ajuda é necessária, pois ainda que disponíveis os recursos médicos, a precocidade no atendimento às vítimas de trauma é crucial, principalmente no controle do sangramento importante – segunda causa de óbito prevenível no doente traumatizado.

Após o massacre ocorrido na escola elementar Sandy Hook em Newtown, Connecticut (EUA), em 2012, o cirurgião do trauma, Dr. McSwain, concordou em se tornar um membro fundador de uma comissão para criação de uma política nacional norte-americana para a pronta resposta a eventos semelhantes. Tal empenho, então, resultou no Consenso de Hartford, a partir do comitê liderado pelo colégio americano de cirurgiões, com o objetivo de traçar estratégias para melhorar a sobrevivência em eventos com múltiplas vítimas com foco principal no controle efetivo da hemorragia. Tal consenso, já em sua 3ª edição, reconhece a magnitude do sangramento descontrolado e clama pelo auxílio de todos, incluindo não apenas os profissionais de saúde como também o público em geral.

O maior princípio adotado no consenso é de que ninguém deve morrer por sangramento descontrolado em eventos com múltiplas vítimas, sendo então criado o acrônimo “THREAT”, que resume o conjunto de respostas necessárias, envolvendo a integração entre público, legislação, serviço pré-hospitalar além de equipe médica:

  • Terminar/ suprimir a ameaça;
  • Hemorragia controlada;
  • Rápida Extricação para local seguro;
  • Avaliação por equipe médica;
  • Transporte para o cuidado definitivo.

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Além do mais se estabelecem três níveis diferentes de respondedores diante de tais eventos:

  • Respondedores imediatos: público em geral, o qual deve atuar de forma ativa por meio de simples medidas de controle de sangramento (mas sem pôr em risco a sua própria segurança em detrimento da vítima).
  • Equipe profissional de primeira resposta: serviço pré-hospitalar com o adequado treinamento e equipamento, devendo ainda realizar a rápida avaliação, tratamento e transporte da vítima.
  • Profissionais do trauma: equipe médica hospitalar que proverá o tratamento definitivo.

Como se pode ver, o Consenso empodera o cidadão comum como elo importante nessa cadeia de sobrevivência, algo semelhante ao que ocorre no programa do Suporte Básico de Vida, implementado pela American Heart Association voltado para o cuidado de vítimas de parada cardiorrespiratória (PCR). Com o intento de garantir tal pronta resposta, sugere-se que todo cidadão possa ter acesso a kits de controle da hemorragia em áreas públicas de grande movimento, a semelhança do desfibrilador externo automático (DEA) para PCR, contendo simples materiais como luvas de procedimento, gaze, tesoura, curativos hemostáticos e até mesmo torniquetes e manuais de instrução rápida. Todavia, não basta apenas a disponibilidade do material, é fundamental a educação da população para a adequada identificação do sangramento grave, desenvolvimento de habilidades técnicas e noções de que há proteção legal para a intervenção proposta.

O Colégio Americano de Cirurgiões tem investido em tal tipo de programa educacional por meio da campanha “Stop the Bleed”, encorajando, inclusive, cirurgiões de diversas especialidades a realizarem o curso B-Con (Bleeding control), inicialmente voltado para respondedores imediatos e equipe pré-hospitalar, permitindo o desenvolvimento de habilidades de reconhecimento e controle ativo de hemorragia, pois mesmo os profissionais, muitas vezes, não sabem como aplicar adequadamente uma bandagem hemostática ou instalar e manejar um torniquete. Além do mais, estes profissionais podem, posteriormente, se tornarem instrutores e potenciais multiplicadores do conhecimento.

Algoritmo adaptado para controle ativo do sangramento, American College of Surgeons.

O sangramento continua sendo um dos principais inimigos no trauma e atitudes passivas não aceitáveis, pois, assim como o cirurgião militar norte-americano, Nicholas Senn, já afirmou, no séc XIX: “O destino do traumatizado esta nas mãos de quem faz o primeiro curativo”.

Logo da campanha.

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