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Corujão da Saúde e o SUS: análise de nossa sociedade e sistema de saúde

Tempo de leitura: 6 minutos.

Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.”, essas são as palavras cunhadas por Ayn Rand, escritora de naturalidade russa e foragida da antiga URSS, celebrada por seu famoso livro, dividido em três volumes – A Revolta de Atlas.

Rand, diferentemente da maioria dos brasileiros, observou elegantemente em sua obra que não apenas a saúde, não apenas a educação, não apenas o sistema político, mas sim toda a sociedade é dependente apenas de um fator para funcionar perfeitamente: liberdade.

O Projeto do atual prefeito de São Paulo, João Dória, para a maioria dos brasileiros e, principalmente, paulistanos, foi um sucesso! Este projeto de saúde, que foi iniciado no dia 10 de janeiro de 2017, tinha o objetivo de zerar a fila para exames de imagem, os quais estavam acumulados em cerca de 485.300.

Dessa maneira, se o paciente estivesse esperando para a realização desses há mais de um mês até seis meses ou menos, este seria incluso no programa; os demais com mais de 6 meses de espera teriam de ser reavaliados para verificar a necessidade do exame. Segundo a prefeitura de São Paulo, o objetivo foi concluído. O que eu não posso falar, entretanto, é que segundo a prefeitura, os gastos, as tabulações, ou qualquer outro aparato de contas públicas foi divulgado. Isso mesmo, existem apenas estimativas e promessas, nada oficializado.

Todo o cerne de nosso bate-papo, caro leitor, é que, com os dados divulgados ou não, a conta já saiu cara demais. Beira-se o absurdo a falta de organização de qualquer estância de governo do Brasil, haja vista a enorme centralização e, por conseguinte, desabilidade em gestão.

Eis que, como todo bom herói há de surgir para nos salvar, emerge João Dória (pelo menos está sendo mais eficaz do que Tiradentes realmente foi), o empresário gestor, responsável por zerar as filas de exames de imagem de parte dos paulistanos, surge em nosso resgate. Grande feito. Infelizmente, nossa conversa nunca é sobre se valeu a pena essa conta ser paga desse jeito, ou se nós não poderíamos negociá-la de maneira mais eficaz.

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O brasileiro, astuto como sempre, insiste nessa mania chata de avistar um problema, pedir ajuda a um super-herói (o governo), e, quando a situação fica pior do que jamais foi, a culpa é da política má implementada, da lei mal cumprida, mas nunca da lei em si. E o pior, o problema normalmente provém de algum erro já cometido pelo Governo. Como assim? É como se alguém ateasse fogo na sua casa com você ao lado, e, candidamente, você pedisse para essa pessoa ligar para os bombeiros: ela discaria 194 e diria que lhe ajudou da melhor maneira possível, mas nada pôde ser feito, porque você sabe como as coisas são.

No Brasil, a liberdade é subestimada. Deixemos que o governo negocie quantos exames serão feitos e como a saúde vai funcionar. Melhor ainda, deixemos que façam um plano geral para ajustar o funcionamento da saúde, prevendo o comportamento de todos os mais de 200 milhões de brasileiros: aí vai dar certo!

E se, por algum motivo abjeto, alguém apontar “certo grau” de corporativismo, aumento de preços de medicamentos fornecidos pelo governo, aparelhos médicos comprados por mais que o dobro do valor, excesso de assinaturas para licitações, esse sim será um pessimista, alienado – está certamente desinformado do que os especialistas falam na televisão, coitado! Mais um que não sabe do que está falando! Deixemos os “intelectuais” decidirem por nós, eles não nos fariam mal; super-heróis não fazem mal a ninguém.

De fato, o projeto do prefeito Dória cumpriu sua meta. De fato, amanhã haverá uma nova meta, porque não há mais dipirona no posto, porque os medicamentos aumentaram de preço… E você está financiando. Milton Friedman afirmou certa vez que existem quatro formas de gastar-se dinheiro: a primeira é você gastando o dinheiro adquirindo algo para si próprio; a segunda, é você gastar seu dinheiro para comprar algo para outrem; a terceira, é você gastar o dinheiro de alguém para adquirir algo para si; a quarta, é você utilizar dinheiro de alguém para comprar algo para alguém. Veja, na Terra de Dom João VI, a quarta opção é a de escolha. E, como sabemos, quem não escolhe por si, não pode reclamar do que não tem.

No Brasil, o cidadão em média paga cerca de 47,5% de impostos quando somados renda com o comércio. Ou seja, trabalha-se quase 6 meses para entregar dinheiro para o governo (está com saudade da Idade Média?). Falar em sucesso, nessa testilha é relativo.

Caro leitor, façamos um exercício mental: se você economizasse durante dez anos e conseguisse angariar uma quantia de 1 milhão de dólares. Logo após, chegasse para mim e dissesse: “Rafael, aqui está um milhão de dólares juntados por mim ao longo de dez anos. Esse dinheiro foi suado… muitas noites sem dormir, distância da minha família, mas aqui está! Compre-me um carro! ”. Passados dois meses (porque vai demorar, sim!), eu lhe trago um Pálio. Você, caro senhor escravo, observando o resultado de minha compra combinado com seus esforços dirá, com um sorriso estampado em sua cara: “Nossa, valeu a pena! Isso que é sucesso! ” Pareceu um absurdo? Que bom, você entendeu a mensagem. Talvez, o leitor mais perspicaz notará apenas um erro no meu breve exercício mental: no Brasil, na vida real, você, senhor escravo voluntário, é obrigado a deixar eu comprar o seu carro, caso contrário, vai para a cadeia. Lembra da liberdade que Ayn Rand tanto defendeu? Fez falta, não é?

Leia também: ‘Você sabe como são as formaturas de medicina pelo Brasil?’

Estou quase terminando, caro leitor, tenha paciência. Faça, por favor, mais um exercício mental comigo: imagine agora que exista algum apêndice do Governo que regule todos os processos relativos ao funcionamento de saúde, desde qual remédio é permitido ser vendido e por quem, até como deve ser a área de descanso de um hospital. Para fins meramente ilustrativos, chamaremos essa agência de Agência Nacional de Corporativismo da Saúde (ANCOSA). O objetivo dessa agência? Não permitir que nenhum tipo de exercício profissional, nenhum local, nenhuma droga lhe cause prejuízo. O que pode dar errado? Imagine, agora, o senhor estar doente, precisando de um serviço que apenas o Sistema Estadual Unificado de Cuidados Médicos (SEUCUM) tenha licença da ANCOSA para tratá-lo. Os hospitais privados não podem fazê-lo, eles não podem competir nessa linha mercado… e as drogas? Existem algumas muito boas fora do país, mas nenhuma grande empresa do Brasil pode fabricá-la e, mesmo que essa droga funcione na Europa e nos Estados Unidos, no Brasil, a ANCOSA concluiu uma irregularidade com a droga. Ufa, ainda bem! Imagine se o senhor não tivesse ninguém do governo para protegê-lo? E tem mais: ainda bem que o senhor tem de ser tratado em um local providenciado pelo governo, mesmo que a fila de espera seja pouco mais de 6 meses. Afinal de contas, hospitais privados querem apenas lucrar, não é? Mas e se você não concordar? Não importa, é assim pela lei. E ainda dirão que foi de graça, mesmo com você pagando a conta. Ayn Rand está cada vez fazendo mais sentido? Que bom.

Despeço-me e agradeço-lhe pelo sem tempo, caro senhor escravo voluntário. Realmente, foi muito bom conversarmos sobre o Corujão que “deu certo”, sobre nossa falta de autonomia, sobre nossa falta de liberdade. Espero, sinceramente, que você mostre essa carta para todos os seus amigos e familiares, enquanto você ainda pode escolher fazê-lo. Mais do que isso: espero que quando alguém fale com você sobre a saúde no Brasil, você consiga, com clareza, não reclamar de governante A ou B, não colocar a culpa na gestão deficiente, mas sim saber que não temos saúde porque não temos liberdade.

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Autor:

rafael-zini Corujão da Saúde e o SUS: análise de nossa sociedade e sistema de saúde

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Um comentário

  1. Excelente texto. Expondo mais do mesmo dos problemas sociais brasileiros. Porém nele sinto falta do mesmo que em tantos outros.
    Exposto todos os absurdos fica a pergunta: e oque podemos fazer sobre isso?
    A velha explicação de melhorarmos a qualidade dos votos e dos políticos, está batida, não funciona e se caso funcionasse o real êxito só seria visto em anos.
    Então ainda fica a duvida: o que de fato pode ser feito no momento para que haja melhoria real e mudança de todo esse paradigma?

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