Cirurgia

A cirurgia bariátrica diminui o risco de câncer?

Tempo de leitura: 3 min.

Já é notório os benefícios da cirurgia bariátrica em relação a perda de peso e a manutenção desta perda com uma grande contribuição para a melhora da qualidade de vida e diminuição das complicações associadas à obesidade. Além da relação mais direta da obesidade com doenças cardiovasculares e diabetes, o controle do excesso de peso também pode apresentar benefícios relacionados a doenças neoplásicas em diferentes sítios.

O trabalho apresentado tem como objetivo avaliar se o paciente submetido ao tratamento cirúrgico para obesidade possui uma diminuição da incidência de câncer comparada com uma população obesa não operada. Além disso, o objetivo secundário irá analisar se há alguma diferença entre os dois principais tipos de cirurgia bariátrica: gastrectomia vertical (GV) e by-pass gástrico em y-de-roux (BPG).

Leia também: Refluxo e cirurgias bariátricas: qual o melhor procedimento?

Métodos

Estudo retrospectivo, utilizando banco de dados com mais de 15 milhões de pacientes cadastrados. Neste banco de dados foram selecionados os pacientes com obesidade elegíveis para cirurgia bariátrica e agrupados em 3 grupos: submetidos a GV, submetidos a BPG ou não realizaram procedimento cirúrgico sendo este o grupo controle.

Os tipos de câncer incluídos para a análise foram os seguintes: câncer de mama, câncer colorretal, esôfagoadenocarcinoma, câncer de vesícula biliar, câncer gástrico, câncer de fígado, câncer de pulmão, meningioma, mieloma múltiplo, câncer de ovário, câncer pancreático, câncer de próstata, câncer renal, câncer de tireoide e câncer uterino. Alguns já foram previamente listados pelo CDC como sendo relacionados à obesidade, os quais posteriormente serão analisados em separado.

Resultados

Os dados foram obtidos do período de janeiro de 2010 a junho de 2018, e inclui no estudo 2.150.646 pacientes, no entanto após as exclusões necessárias e o tempo de observação mínimo de 5 anos permaneceu para a análise final 572.371 pacientes. Deste total de pacientes foram selecionados 28.908 pacientes com perfis semelhantes a fim de diminuir o viés de seleção e com isto 9.636 pacientes incluídos em cada braço do estudo. A distribuição de gênero e comorbidades foram idênticas em cada grupo do estudo.

No período de 5 anos de observação 1.127 indivíduos desenvolveram câncer, sendo mama, útero e tireoide os sítios mais prevalentes. Os pacientes do grupo controle apresentaram maior risco de desenvolvimento de qualquer tipo de câncer que os indivíduos operados ( 4,61% x 3,47% x 3,62%; p < 0,0005) e câncer relacionado à obesidade (4,82% x 3,48% x 3,52%, p < 0,0005), e não relacionada a obesidade (0,64% x 0,37% x 0,51%, P = 0,003), para GV e BPG respectivamente.  A análise entre os tipos de cirurgia demonstrou que a GV apresentou uma razão de chance de 0,74 (95% IC) para o surgimento de câncer e o BPG razão de chance 0,78 (95% IC). Não houve diferença estatística entre os grupos nos seguintes tipos de câncer: mama, esôfago, vesícula biliar, estômago, meningioma, mieloma múltiplo, pâncreas, próstata, renal e tireoide.

Discussão

Esta análise pareada foi capaz de determinar que a cirurgia bariátrica está relacionada a uma menor incidência de câncer especificamente colorretal, pulmão, ovário e útero. Alguns outros trabalhos chegaram a resultados semelhantes, mas falharam em relação às neoplasias colorretais. Trabalhos anteriores sugerem que o estado de inflamação crônica induzido pela obesidade, assim como o aumento de insulina, fatores que induzem o crescimento celular e hormônios esteroides podem estar diretamente relacionados à indução de neoplasias.

Saiba mais: Cirurgia bariátrica passa a ser classificada como eletiva essencial pelo Ministério da Saúde

O desenho retrospectivo deste estudo é baseado em banco de dados que limitam a força deste estudo, porém os achados incorporam conhecimento e agrega mais um elemento para a indicação do procedimento em pacientes elegíveis.

Para levar para casa

A melhor forma de tratar o câncer é prevenindo. Se ao tratar a obesidade também estamos diminuindo a incidência das neoplasias devemos estimular ainda mais a indicação cirúrgica. Apesar de temida por alguns os procedimentos bariátricos estão cada vez mais seguros e as complicações quando surgem são tratadas de forma mais efetiva.

Referências bibliográficas:

  • Khalid SI, Maasarani S, Wiegmann J, et al. Association of Bariatric Surgery and Risk of Cancer in Patients With Morbid Obesity. Ann Surg. 2022;275(1):1-6. doi:10.1097/SLA.0000000000005035
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Publicado por
Felipe Victer

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