Enfermagem

A espiritualidade e o suicídio: reflexões sobre o cuidado

Tempo de leitura: 4 min.

Indubitavelmente a espiritualidade é um dispositivo de cuidado que pode ser aplicado a alguém ou a si mesmo. Muito comum na relação com o adoecimento, a espiritualidade vigora como uma saída que muitos utilizam para construir um processo de resiliência diante dos conflitos cotidianos. Mas afinal, o que é a espiritualidade? Bom, é necessário compreender o que é religião e diferenciar esta de espiritualidade. Uma das maiores descobertas da humanidade contemporânea foi a compreensão da possibilidade de separar espiritualidade da religião, outrora impossível devido ao estabelecimento das religiões na forma de vida da população. Enquanto a religião está centrada na instituição e seus dogmas, repleta de leis e autoridade sob o comportamento, a espiritualidade tende a ser mais livre e singular, tendo sido mais desenvolvida na fé e na busca de respostas que levam a pessoa a compreender questões existenciais, ligadas ao sagrado, a sua existência frente a outras pessoas, frente a natureza, elevando o autoconhecimento.

Na verdade a espiritualidade mais se confunde com a religiosidade, atributo da religião. Sendo esta possuidora de um sistema de crenças que envolve o sobrenatural, mas que se baliza por códigos morais, valores e rituais. Na espiritualidade, temos a ênfase nas necessidade humanas fornecendo uma filosofia ou perspectiva que norteia nossas escolhas pessoais. 

Atualmente, a espiritualidade concerne um tema fundamental de interesse à saúde mental. O benefício da associação entre espiritualidade e bem-estar está presente na literatura, quando benéfica pode melhorar a relação da pessoa com vários problemas decorrente do sofrimento psíquico. Gostaria de deixar claro aqui que a religiosidade faz parte do processo de existência de cada um e nós profissionais de saúde também temos que respeitar e compreender o processo religioso de cada pessoa que atendemos no serviço de saúde. Vamos a espiritualidade, pois é nessa que hoje nos debruçaremos para falar de um tema tão importante, o suicídio. 

Leia também: Entrevista com especialista: suicídio na pandemia

Espiritualidade e suicídio

A dimensão espiritual é um importante recurso interno que pode contribuir para o cuidado de pessoas que estejam com vulnerabilidade psíquica e que possuam risco aumentado para o suicídio. A dimensão espiritual pode ser considerada quando utilizada, como um suporte positivo para o enfrentamento do suicídio, assim como para crises e adoecimentos. Contribui para um estilo de vida mais saudável, com mais esperança e ressignificação dos fatos e do sofrimento. Pode ser importante para a melhoria da qualidade de vida.

O suicídio é uma tragédia pessoal, mas também é um problema de saúde pública. O ministério da saúde reconhece o suicídio como um problema de saúde pública e adere ao movimento setembro amarelo. A partir da valorização do tema, podemos instituir como instrumento de trabalho diversas perspectivas, uma delas é o suporte voltado à espiritualidade. Centenas de pesquisas confirmam a existência da relação entre espiritualidade e o comportamento suicida e a possibilidade de aplicação da prática positiva da espiritualidade para redução de vulnerabilidades. As intervenções na maioria das vezes são baseadas em técnicas de meditação, psicoterapia integrada a questões de espiritualidade e a aplicação de vídeos e outros recursos com discussões sobre espiritualidade. O tema pode tocar as pessoas e fazê-las retroceder o comportamento suicida.

A espiritualidade não impede necessariamente o suicídio, mas pode diminuir sua ocorrência, por fazer pessoa refletir sobre as condições de existência. O suicídio é o mais grosseiro vestígio da fragilidade humana e podemos potencializar a resiliência humana e fazer uma pessoa a compreender o sofrimento de outra forma. Atormentado pela dor, pessoas podem através da tomada de consciência e a partir de tratamentos profissionais criar possibilidades de se reinventar e viver sem o sofrimento, não basta apenas dizer que é na tomada de consciência que isso acontece porque muitas vezes esse processo pode ser lento, mas com acolhimento e criação de vínculo a equipe de saúde pode criar estratégias de cuidado. Uma dessas estratégias se baseia no uso da espiritualidade para fazer a pessoa encontrar-se consigo mesmo. 

Saiba mais: Setembro Amarelo: a depressão e a ligação com o suicídio

O toque terapêutico não se faz apenas de forma física mas de forma espiritual, no encontro da pessoa com o reconhecimento de sua existência, na aceitação de fatos da vida, do jeito que são, na compreensão que tudo é construção da existência humana, a pessoa pode perdoar a si e a outro, seguir em frente, sabendo que todos nós temos dificuldades tamanhas a enfrentar ao longo da vida. Falas que contenham esse conteúdo podem mudar a vida das pessoas. 

Espiritualidade não é um caminho pautado na materialidade procedimental, mas em coisas que não podemos tocar, como o afeto e o silêncio. Também pode ser compreendida como uma técnica, mas não aquelas onde utilizamos equipamentos, mas naquelas ligadas a sensibilidade e a humanização do cuidar. Não pense que apenas quando verbalizamos algo com usuário do serviço de saúde é que estamos cuidando. Lembre-se que ficar quieto e não fazer nada são coisas diferentes. O objetivo é ouvir! Se isso estiver acontecendo, as reflexões pautadas na espiritualidade, na compreensão da existência, podem estar dando certo. Se a pessoa conseguir falar ou verbalizar, podemos estar presenciando algo extremamente positivo, estamos dividindo algo com essa pessoa. Ela pode estar colocando o sofrimento para fora do corpo. Mas pense bem antes de realizar intervenções, para que estas não sejam um mal para uma pessoa que já sofre. 

Mensagem final

Refletir antes de tudo, meditar, pedir socorro, não se torturar frente aos acontecimentos, a dor, a perda, ao desgosto profundo. Não é fácil buscar ajuda em momentos de grande sofrimento, por isso temos enquanto profissionais de saúde de estar abertos para o socorro e para acolher pessoas em sofrimento. O principal objetivo dos profissionais de saúde é cuidar e não há cuidado maior que aquele que preserva a vida e impede a morte. 

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Publicado por
Rafael Polakiewicz

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