Reumatologia

A importância da reabilitação nas miopatias inflamatórias

Tempo de leitura: 3 min.

A fraqueza muscular proximal e simétrica é a principal característica clínica das miopatias inflamatórias idiopáticas (excetuando a miopatia por corpúsculos de inclusão). Além do acometimento muscular inflamatório, diversos outros fatores podem contribuir para a redução da força muscular, como a desnutrição pela disfagia de transferência, a atrofia pelo desuso e a corticoterapia frequentemente prolongada. A combinação de todos esses eventos pode resultar na atrofia muscular importante e redução da funcionalidade, levando à limitação das atividades de vida diária.

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Dessa forma, o tratamento desse grupo de doenças envolve a reabilitação, que deve ser iniciada de maneira precoce. Apesar disso, poucos são os estudos que avaliaram essa intervenção de maneira sistemática. Špiritović et al. publicaram recentemente um estudo de intervenção avaliando o impacto de um programa de reabilitação com duração de 24 semanas, focado em treinamentos funcionais para atividade de vida diária, de resistência e de estabilidade no tratamento das miopatias.

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Métodos

Trata-se de um estudo de intervenção, prospectivo, controlado, não randomizado, de centro único, cegado para quem realizou a análise.

Os critérios de inclusão foram: ≥ 18 anos, preencher os critérios de Bohan/Peter para polimiosite ou dermatomiosite ou os critérios ENMC para miopatia necrosante imunomediada ou miopatia por corpúsculos de inclusão, tratamento farmacológico otimizado com estabilidade por ≥ 1 mês antes da inclusão. Todos os pacientes deveriam ter redução da força muscular, medido através de: (a) escore total ≤ 64/80 no teste manual de força de 8 grupos (MMT-8) e/ou (b) escore MMT individual ≤ 7/10 in ≥ 1 grupamento de músculo proximal.

Já os critérios de exclusão foram diagnóstico de neoplasia, doença cardíaca ou pulmonar limitantes, doenças psiquiátricas ou qualquer indicação para realização de exercício físico.

Os pacientes foram divididos em 2 grupos conforme a capacidade de seguirem as recomendações: o grupo intervenção realizou reabilitação por 24 semanas, com seguimento até 48 semanas; já o grupo controle apenas foi acompanhado por 48 semanas.

A intervenção consistiu de exercícios supervisionados por 1 hora (incluindo 10 minutos de aquecimento e 10 minutos de alongamento e relaxamento), 2 vezes por semana, durante 24 semanas, acompanhados de exercícios sem supervisão em casa.

Os desfechos primários analisados foram a melhora da força muscular medida através do MMT-8 e o endurance medido através da escala Functional Index-2 (FI-2). Estabilidade e composição corporal foram analisados com desfechos secundários. Todos eles foram registrados nas semanas 0, 12, 24 e 48.

Resultados

Foram incluídos 27 pacientes no grupo intervenção e 23 no grupo controle. A maioria dos pacientes eram do sexo feminino (81-91%) e idade média de 56-58 anos. O grupo de intervenção apresentava uma maior duração da doença (6 vs. 2,8 anos); a ausência de diferença estatisticamente significativa pode se dever ao pequeno tamanho amostral e consequente poder  estatístico insuficiente. Os pacientes no grupo controle apresentavam dose de corticoide maior e um menor nível de CK que o grupo intervenção.

Após 24 semanas de seguimento, o grupo controle apresentou deterioração da função muscular, ao contrário do grupo de intervenção, que obteve melhora de 26% (variação clinicamente significativa >20%). O endurance do grupo intervenção também obteve uma importante melhora, com aumento de 135%. Dentre os desfechos secundários, o grupo intervenção apresentou melhora nos níveis de disfunção (redução de 39%), depressão (redução de 26%) e estabilidade (aumento de 11%).

O grupo intervenção não apresentou aumento nos níveis de PCR e VHS nem de citocinas inflamatórias/quimiocinas (IL-1ß, IL-6, IL-8 e MCP-1). Um dado interessante foi que esses pacientes apresentaram redução nos níveis de TNF. Houve redução de marcadores de lesão muscular em ambos os grupos, sem diferenças estatisticamente significativa entre eles.

A tolerância ao exercício foi boa. Apenas eventos não relacionados à intervenção foram relatados.

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Comentários

Esse estudo, apesar de suas limitações metodológicas, apresenta dados importantes para o tratamento não farmacológico e reabilitação dos pacientes com miopatias inflamatórias idiopáticas.

A reabilitação foi segura e eficaz nesse contexto. Esse estudo acrescenta ao corpo de evidência que demonstram a importância do exercício físico para o tratamento desses pacientes.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Špiritović M, Heřmánková B, Oreská S, et al. The effect of a 24-week training focused on activities of daily living, muscle strengthening, and stability in idiopathic inflammatory myopathies: a monocentric controlled study with follow-up. Arthritis Care Res. 2021;23(1):173. doi10.1186/s13075-021-02544-5
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Publicado por
Gustavo Balbi

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