Medicina Laboratorial

A possível interferência das crioaglutininas na série vermelha do hemograma

Tempo de leitura: 3 min.

O hemograma é um dos exames laboratoriais mais solicitados na prática clínica, de interesse comum às mais variadas especialidades médicas. É frequentemente utilizado para triagem, diagnóstico e acompanhamento de diversas condições, sendo constituído por 3 análises principais: o eritrograma (série vermelha), leucograma (série branca) e plaquetograma. 

No eritrograma, alguns parâmetros são avaliados, como a contagem absoluta de eritrócitos, hemoglobina, hematócrito, índices hematimétricos (VCM, HCM, CHCM) e RDW (índice de anisocitose). Para a sua devida e correta interpretação, é preciso levar em consideração os possíveis fatores interferentes a que seus parâmetros estão submetidos, sejam eles por variabilidades fisiológicas, erros pré-analíticos ou mesmo causas endógenas, como é o caso das crioaglutininas.

Leia também: Hemograma: Discordâncias da análise automatizada e microscopia óptica convencional

O que são as crioaglutininas?

Também chamadas de aglutininas frias, são autoanticorpos que foram descritos pela primeira vez por Landsteine, em 1903. São formadas, predominantemente, por autoanticorpos da classe IgM (mono ou policlonais), que podem ser encontrados mais frequentemente em alguns pacientes com anemia hemolítica autoimune (primárias ou secundárias), bem como em casos de pneumonias atípicas, além de outras patologias. 

Com o próprio nome sugere, esses autoanticorpos podem induzir, seja in vivo ou in vitro, a uma aglutinação eritrocitária e hemólise (rompimento da membrana das hemácias) em baixas temperaturas (< 37 °C). Dessa forma, a presença de crioglutininas na circulação pode interferir em praticamente todos os parâmetros da série vermelha (à exceção da hemoglobina), gerando resultados espúrios. 

Procedimentos laboratoriais para mitigar a interferência

A aglutinação dos eritrócitos é, parcialmente, reversível com o aumento da temperatura. Existem algumas maneiras e artifícios, à nível laboratorial, que podem ser utilizados com a finalidade de diminuir a distorção dos resultados obtidos, na série vermelha, pelos contadores hematológicos:

  • Aquecer a amostra em uma estufa a 37 °C, por 30 minutos;
  • Aquecer a amostra em banho maria a 37 °C, por 30 minutos;
  • Centrifugar o tubo a 3.500 rpm (rotações por minuto) por 10 minutos. Em seguida, o plasma (parte líquida do sangue) obtido é retirado com uma pipeta e, na mesma proporção, é adicionado soro fisiológico 0,9% no tubo. Após esse procedimento, a amostra é homogeneizada e incubada em banho maria a 37 °C, por 30 minutos.

Os primeiros dois procedimentos são menos complexos e mais rápidos, capazes de diminuir (em parte) a interferência das aglutininas frias. Entretanto, o simples aquecimento do tubo (em estufa ou banho maria) por si só, não consegue, na maioria dos casos, reduzir significativamente as distorções geradas pelas crioaglutinas.

Saiba mais: Qual o impacto nos valores do LDL-c quando estimado pelas principais fórmulas disponíveis?

Já a terceira forma, que aquece o material em banho maria após centrifugação e substituição do plasma por soro fisiológico, possui um melhor resultado prático, na medida em que consegue remover grande parte desses autoanticorpos. Esse procedimento aprimora os outros dois primeiros, sendo capaz de produzir resultados muito mais precisos e fidedignos.

Conclusão

A rotina diária de exames de hemogramas (em alguns laboratórios de médio/grande porte) pode chegar a ordem de milhares por dia. Embora a presença de aglutininas frias não seja um problema muito comum, ela deve ser sempre lembrada quando nos deparamos com resultados inconsistentes de eritrogramas.

Através procedimentos laboratoriais simples, a interferência das crioaglutininas pode ser minimizada, tornando a contagem hematológica automatizada mais fidedigna nesses casos. Contudo, mesmo após tomadas as várias medidas para solucionar a interferência, em alguns casos ela ainda pode permanecer.  Nesses casos, apenas o resultado da hemoglobina no eritrograma poderá ser liberado, devendo-se valorizar ainda mais a análise microscópica da extensão sanguínea (hematoscopia).

Autor(a): 

Referências bibliográficas:

  • Costa BMB, et al. Interferências das crioaglutininas na interpretação do eritrograma: relato de caso com revisão da literatura. J. Bras. Patol. Med. Lab.2018;54(4):249-Inte. doi: 10.5935/1676-2444.20180043
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Publicado por
Pedro Serrão Morales
Tags: hemograma

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