A proteína de Bence Jones na urina possui valor no diagnóstico do mieloma múltiplo?

Tempo de leitura: 3 min.

O mieloma múltiplo (MM) é uma neoplasia maligna da medula óssea, correspondendo a aproximadamente 1% de todas as malignidades, e de 10% dos cânceres hematológicos. É causado por uma proliferação anormal e indiscriminada de um clone plasmocitário medular, levando a um aumento de imunoglobulinas e de seus fragmentos na circulação periférica.

Seu curso clínico é insidioso, podendo permanecer com quadros oligo/assintomáticos por muitos anos, o que rotineiramente atrasa o diagnóstico e o seu devido tratamento, impactando assim diretamente na morbimortalidade. Dessa forma, o Laboratório Clínico pode contribuir, de maneira decisiva, com alguns exames que são utilizados tanto para o diagnóstico, quanto para o seguimento dos doentes.

Leia também: Quais achados laboratoriais importam no diagnóstico de Mieloma Múltiplo?

Nesse contexto, alguns exames complementares mais específicos são vastamente utilizados em todo o curso da doença, dentre os quais podemos citar: aspirado/biópsia de medula óssea, eletroforese e imunofixação de proteínas séricas e urinárias, dosagem de cadeias leves livres no soro e na urina, e a clássica pesquisa urinária da proteína de Bence Jones.

O que é a proteína de Bence Jones (BJ)?

Descrita pela primeira vez em 1847, pelo Dr. Henry Bence Jones, essa proteína é constituída por imunoglobulinas de cadeias leves que, quando detectadas na urina, recebem essa denominação.

O princípio metodológico (com poucas variações entre os laboratórios) para a sua determinação é relativamente simples: cerca de 10 mL de urina são colocadas em um tubo de ensaio, no qual é adicionado ácido sulfossalicílico a 3%, a fim de acidificar a amostra até chegar a um pH 5,0. Após o aquecimento do tubo em banho maria por 5 minutos, o material é submetido a uma filtragem ainda quente. Caso seja observada alguma turbidez e/ou precipitado durante o resfriamento, a amostra é novamente reaquecida em banho maria. A pesquisa da proteína de BJ é considerada positiva se o precipitado desaparecer a 100 °C e, durante a segunda etapa de resfriamento, for novamente observado.

Desenho e resultados do estudo para a avaliação da proteína de BJ

Foi realizado um estudo retrospectivo, de janeiro/10 a julho/15, em um total de 122 pacientes atendidos no laboratório de microbiologia e urinálise, do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Esses pacientes tiveram a solicitação, por variados motivos, da pesquisa da proteína de BJ na urina pelo médico assistente.

O diagnóstico de MM foi feito com base no resultado do aspirado/biópsia de medula óssea, sendo considerado positivo (>10% de plasmócitos) em 19 pacientes. Desses, 52,6% (n=10) eram do sexo masculino e 47,4% (n=9) do feminino, com amplo predomínio de indivíduos da raça branca [84,2% (n=16)].

Saiba mais: Daratumumabe subcutâneo: mais um avanço no tratamento do mieloma múltiplo

No total de 122 pacientes incluídos no estudo, em 104 (82,2%) indivíduos apresentaram uma pesquisa de proteína de BJ negativa, enquanto que esse mesmo teste foi considerado positivo em 18 participantes (14,8%). A análise estatística desses dados pôde demonstrar uma sensibilidade de 47,4%, especificidade de 91,3%, com um valor preditivo negativo (VPN) de 90,4% e valor preditivo positivo (VPP) de 50%.

Considerações finais

Infelizmente, grande parte dos pacientes com MM são diagnosticados já em uma fase avançada da doença, quando alterações ósseas e renais já estão instaladas. Sendo assim, o diagnóstico precoce do MM é imprescindível para o seu adequado tratamento e manejo.

Apesar de ser um método simples e barato, a pesquisa da proteína de BJ na urina pelo método de calor apresenta um desempenho analítico insatisfatório como ferramenta auxiliar ao diagnóstico do MM. Devido ao advento e maior disponibilidade de exames mais sensíveis e específicos, a pesquisa da proteína de BJ deve ser substituída por outros exames, como no caso da eletroforese de proteínas séricas e urinárias.

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Referências bibliográficas:

  • Rajkumar SV. Multiple myeloma: 2020 update on diagnosis, risk‐stratification and management. American journal of hematology 95.5 (2020): 548-567. doi: 10.1002/ajh.25791
  • Tomaz APO, et al. A detecção de proteína Bence Jones na urina pelo teste de calor auxilia no diagnóstico de mieloma múltiplo? J Bras Patol Med Lab. 2017;53(1):20-23. doi: 10.5935/1676-2444.20170006
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Publicado por
Pedro Serrão Morales

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