Medicina Laboratorial

A rotina de trabalho em um laboratório de pesquisa e a pandemia de Covid-19

Tempo de leitura: 3 min.

Ser cientista no Brasil não é uma tarefa fácil. Os profissionais precisam aprender a lidar com a redução de investimentos, o corte de bolsas e o sucateamento das instituições, além da falta de valorização da profissão. E, em tempos de coronavírus, as dificuldades da rotina de uma laboratório de pesquisa só aumentam (ou será que as oportunidades também?).

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Rotina

A rotina como pesquisador é, ao mesmo tempo, muito estimulante e cansativa, como conta Gustavo Barcelos Barra, mestre e doutor em Farmacologia Molecular e coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Grupo Sabin Medicina Diagnóstica.

“O fato de sempre desenvolver novos produtos e exames, às vezes inovadores, que beneficiam pacientes e agregam valor para a empresa que trabalhamos é muito gratificante. O pesquisador de empresa privada sempre trabalha com estudos aplicados. Ao final dos testes, o objetivo é ter um exame útil para a população. Ver uma pesquisa que durou um ou dois anos beneficiando muitas pessoas é a maior satisfação que um pesquisador pode ter. O dia a dia é sempre uma surpresa, não tem rotina. A pesquisa segue a passos lentos, mas esses passos são firmes, sempre seguindo o rigor científico”, afirma Gustavo Barcelos Barra, que participou do projeto do teste único para dengue, zika e chikungunya, conquistando três prêmios internacionais.

O pesquisador diz ser uma situação até rotineira quando o exame está pronto e, sendo um teste próprio (desenvolvido pelo próprio laboratório), a primeira reação das pessoas é duvidar da sua eficácia. Mas ele já está tão habituado a isso que consegue ficar tranquilo nessas ocasiões.

Principais desafios

O principal desafio na área de diagnósticos, segundo o pesquisador, é que decisões de saúde e as condutas médicas sobre um paciente são tomadas a partir dos resultados liberados por ele.

“Existe uma disciplina chamada de segurança do paciente. Esta disciplina anda de mãos dadas com a qualidade. Qualidade e segurança do paciente têm que estar embutidas nos resultados dos exames laboratoriais. Só assim, o sistema fica sustentável. Atualmente, 70% das decisões médicas dependem de um exame diagnóstico. Deste número pôde-se tirar a importância do diagnóstico seguro”, explica o especialista.

Outro detalhe é a preocupação em desenvolver um exame útil. Existe uma série de exames com utilidade clínica ainda não comprovada sendo oferecida, às vezes, exames sem utilidade clínica comprovada, que fazem mais mal para o indivíduo do que bem, como, por exemplo, alguns testes genéticos para predição de condições de saúde, nutricionais e de estética.

Saiba mais: USP inaugura laboratório em parceria com o governo francês

Oportunidades

Segundo Gustavo Barra, ainda existem poucas pesquisas em desenvolvimento em empresas privadas brasileiras e uma pequena interação com as universidades. Na opinião, do pesquisador, é necessária uma mudança de percepção para o país parar de ser apenas consumidor de tecnologia e passar a ser produtor.

“Existem muitas descobertas científicas que podem ser transformadas em produtos, basta que mentes preparadas consigam vislumbrar a aplicação, além de investimento e facilidade de proteção deste conhecimento. Então, as oportunidades precisam ser desbravadas. Cada vez mais, vemos jovens da área de saúde abrindo start-ups apresentado produtos biotecnológicos, tecnológicos e médicos”, frisa o cientista, que complementa que muitas oportunidades vêm da adversidade.

“A pandemia de coronavírus atual é uma ótima oportunidade para os cientistas mostrarem o seu valor, diagnósticos, tratamentos e vacinas inexistentes só podem se originar da pesquisa. É muito bonito ver o compartilhamento do conhecimento, quase que em tempo real por causa da internet, das descobertas em relação ao vírus. Do sequenciamento do genoma do vírus, surgem os testes diagnósticos e evidências da sua origem. Do crescimento do vírus em laboratórios, surgem as opções de tratamento medicamentoso. Os ensaios clínicos testam a eficácia dessas drogas. E torço para que, em breve, haja uma vacina para a Covid-19”, diz Gustavo Barra.

Como se especializar

Para se especializar nesta área, o pesquisador afirma que ter contato com pesquisas em universidades é fundamental, como fazer iniciação científica, mestrado e doutorado.

“Nestas ocasiões, aprendemos a resolver problemas complexos. Mas, o mais importante é saber onde buscar informações e aprender a aprender. Juntar as informações dispersas na literatura científica e contribuir com uma solução a partir daí. A fonte de conhecimento passa a ser trabalhos, artigos, manuscritos revisados por pares. E não a literatura chamada de cinza (não revisada por pares), como livros, por exemplo. É preciso ser em parte autodidata e em parte colaborativo para discutir soluções com os pares. Conhecimento coletivo dentre os pares científico ajuda bastante”, conclui o cientista.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referências bibliográficas:

  • Entrevista com Gustavo Barcelos Barra, mestre e doutor em Farmacologia Molecular e coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Grupo Sabin Medicina Diagnóstica.
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Publicado por
Úrsula Neves

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