Achados no sangue periférico de paciente com intoxicação por cloroquina

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Na atual pandemia pelo novo coronavírus, muito se tem estudado em relação ao potencial efeito de diversas medicações no curso natural da doença em vários países do mundo. Uma dessas medicações é a cloroquina, que já faz parte de protocolos de algumas instituições.

Resultados positivos de estudos preliminares fizeram com que muitas pessoas comprassem a droga a fim de garantir um tratamento, no caso de infecção futura, ou mesmo usar como forma de profilaxia, apesar de não haver dados que corroborem tal medida. A automedicação e o uso indiscriminado de medicamentos podem trazer riscos à saúde e, portanto, a indicação, a dose e o tempo de uso da cloroquina ou qualquer outra droga para tratamento da Covid-19 devem ser definidos por equipe médica capacitada.

Intoxicação por cloroquina

Recente estudo publicado na revista American Journal of Hematology apresentou o caso de uma mulher com diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico em tratamento com cloroquina que evoluiu com intoxicação pelo fármaco. Percebe-se que o uso de cloroquina não é isento de risco mesmo em pacientes com indicação precisa de tratamento e acompanhamento médico regular.

A paciente em questão apresentou neutropenia, e a análise de sangue periférico revelou neutrófilos com grânulos citoplasmáticos agrupados e núcleos com lóbulos ligados por finas pontes de cromatina. A contagem linfocitária era normal, mas os linfócitos tinham vacúolos, por vezes com granulação azurófila ao redor. Apesar da presença de anemia moderada e de trombocitopenia leve, não foram observadas alterações morfológicas nos eritrócitos e nas plaquetas da paciente.

A comparação com hematoscopia prévia (antes do início da cloroquina), na qual não se evidenciava nenhuma anormalidade, corroborou com a associação de tais achados ao uso da droga. Além disso, após suspensão do medicamento, a contagem de neutrófilos normalizou, bem como a morfologia celular.

A evolução do caso estudado enfatizou alguns aspectos que já tinham sido relatados na literatura:

  • As anormalidades morfológicas nos leucócitos ocorreram na intoxicação sistêmica por cloroquina (ou seja, com acometimento multiorgânico), e a normalização associou-se a melhora da função de outros órgãos (em especial, coração e rins). A hematoscopia de sangue periférico poderia servir como um método não invasivo para avaliação de possível intoxicação.
  • As alterações estruturais nos leucócitos ocorreram no contexto de pancitopenia, sugerindo mielotoxicidade. Dessa forma, a ocorrência de citopenia(s) deve levantar a suspeita de toxicidade pela cloroquina, não devendo ser atribuída imediatamente à atividade da doença de base (ex.: lúpus).

Leia também: Coronavírus: qual o papel da anticoagulação em pacientes graves?

Conclusão

A cada dia, há muito informação nova a respeito da Covid-19 e do manejo dos pacientes. A cloroquina é uma medicação que pode trazer benefício em diversas situações (ex.: lúpus, artrite reumatoide) e que vem sendo estudada na infecção pelo coronavírus.

Ainda não há um consenso bem definido, uma vez que a maioria dos estudos tem muitos vieses que interferem na interpretação dos resultados. Portanto, o uso da cloroquina deve ser avaliado individualmente até que os dados na literatura sejam mais robustos.

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Referencias bibliográficas:

  • de Chambrun, Marc Pineton, et al. “Systemic chloroquine intoxication: peripheral blood smear can give you a hint!.” American Journal of Hematology (2020).
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Publicado por
Lívia Pessôa de Sant'Anna

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