ACSCC 2021: autonomia do residente, a próxima fronteira da educação cirúrgica 

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Uma das mesas redondas inaugurais do American College of Surgeons Clinical Congress 2021 (ACSCC 2021) abordou uma das temáticas centrais em educação cirúrgica: a autonomia do residente. 

Profª. Mariam Eskander e Prof. Douglas S. Smink introduziram o assunto ressaltando a importância dos residentes de cirurgia geral finalizarem a especialização com segurança em operar casos de forma independente. Porém a atual formação cirúrgica caminha no sentido oposto, com redução progressiva de procedimentos didáticos realizados por residentes. Partindo desse pressuposto a mesa focou no questionamento: Como oferecer a autonomia adequada para o residente visando reduzir os riscos imediatos e futuros ao paciente? 

Para destrinchar a questão, 3 objetivos foram realçados: 

ACSCC 2021: autonomia do residente, a próxima fronteira da educação cirúrgica 

1. Entender as atuais barreiras para a autonomia do residente 

Prof. Keith A. Delman trouxe a ideia de longitudinalidade na segurança do paciente. Considerando que ao longo da carreira cirúrgica a disponibilidade de supervisão reduz e a complexidade e risco dos casos tende a aumentar, é essencial, inclusive para a segurança do paciente a longo prazo, que a primeira execução independente de cirurgias seja realizada ainda na residência, sob supervisão. Todavia, existem barreiras que se contrapõem à autonomia cirúrgica do residente: 

– Barreiras de comunicação, em que o público leigo considera residentes como estudantes ou que cirurgias terão necessariamente melhor resultado se forem realizadas unicamente por cirurgiões titulares. Dr. Delman sugeriu a educação do paciente como meio para transpor essa barreira, citando estudo de Kempenich et al., que obteve maior consentimento para participação de residentes em cirurgias após os pacientes lerem panfletos explicando o que é o médico residente. 

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– Novo paradigma na formação cirúrgica, em que rodízios têm duração menor e diversidade maior em contrapartida ao método anterior em que residentes permaneciam longos períodos com um cirurgião específico, o que possibilitava construção de vínculo e confiança. Para contornar essa mudança seria essencial mensurar as competências adquiridas ao decorrer dos anos de formação, por meio de avaliações técnicas, por exemplo, validando e transferindo essas informações entre os chefes das rotações. 

2. Descrever ferramentas para avaliar e mensurar autonomia do residente 

Profª. Gurjit Sandhu ressaltou que a autonomia demanda empenho ativo de cirurgiões titulares, responsáveis por confiar e delegar responsabilidades no processo de cuidado do paciente, auxiliando com supervisão adequada, e de residentes, que devem demonstrar atitudes que justifiquem confiabilidade, além de participarem ativamente em seu próprio processo de aprendizado. 

Nesse contexto, o uso de ferramentas objetivas para mensurar competências cirúrgicas favorece a construção de confiança (entrustment decision) e, consequentemente, a autonomia do residente. 

OpTrust® Education (https://optrusteducation.com/) foi um projeto criado com objetivo de incrementar confiabilidade no processo de formação cirúrgica. Em resumo, realiza-se a análise comportamental de professores e residentes durante cirurgias focando em 5 domínios (perfil de questionamentos, plano cirúrgico, instruções, resolução de problemas e atitudes de liderança). São atribuídos escores para os domínios, sendo possível avaliar objetivamente os residentes com escores que vão de baixo (1) até total (4) confiança. 

De maneira mais subjetiva, Drª. Sandhu também ressaltou características buscadas em um aprendiz que favorecem na construção de confiança: proatividade (busca por desenvolvimento pessoal, habilidade de trabalhar em grupo), confiabilidade (responsabilidade, autoconsciência),

integridade (benevolência, priorização do paciente), capacidade (conhecimento, habilidade manual) e humildade (reconhecimento de limitações, receptividade a feedbacks). 

3. Discutir sobre as melhores práticas para aprimorar a autonomia do residente

Entrustable Professional Activities (EPAs) foram definidas por Profª. Karen J. Brasel como o conjunto de unidades de trabalho que definem uma profissão. Assim, propõe-se a ideia de organizar a formação cirúrgica de tal forma que os residentes alcancem progressivamente EPAs até finalizar sua formação. 

No contexto de atribuição de confiança para execução de tarefas, a Drª. Brasel definiu níveis que devem ser atingidos gradualmente: I. apenas observação II. supervisão direta III. supervisão indireta IV. sem supervisão V. supervisionar outros. A mesma ressaltou a importância da observação direta por parte do cirurgião titular durante esse processo, visto que isso possibilitará feedbacks e correção de eventuais falhas, viabilizando aprimoramento contínuo do residente. 

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Por fim, Drª. Rebecca Williams-Karnesky trouxe a perspectiva do residente no processo de autonomia cirúrgica. Além de ressaltar recentes evidências que demonstram segurança do paciente nos procedimentos realizados por cirurgiões em formação, a residente ressaltou que a autonomia é um fator crítico no processo de aprimoramento cirúrgico, estando relacionada intrinsecamente à motivação para aprendizado continuado. 

O que levar para casa 

A residência médica deve ser compreendida como um processo didático, cuja prioridade precisa ser formar cirurgiões autônomos e aptos a executar procedimentos de forma segura. Esse processo demanda uma mudança de mentalidade, principalmente considerando nossa realidade local, em que o residente deixa de ser agente passivo no processo de cuidado do paciente e passa a atuar ativamente desde o planejamento terapêutico, abordagem cirúrgica e manejo pós operatório, sob adequada preceptoria. Essa mudança de paradigma será propulsora para a autonomia do residente.

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Referências bibliográficas:

  • American College of Surgeons (ACS) Clinical Congress – Resilience in the Pursuit of Excellence. [internet]. Disponível em: https://www.facs.org/clincon2021
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