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Albumina na cirrose hepática: usos além da função de coloide

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A albumina é uma solução comumente usada no cuidado de pacientes cirróticos. Há muitos anos, existem evidências que mostram seus efeitos na otimização da volemia, prevenção de distúrbios hemodinâmicos após paracentese, e no tratamento da síndrome hepatorrenal. Apesar de conhecermos a albumina como um coloide, pesquisas mais recentes vêm descobrindo que ela é mais importante do que se imaginava.

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Albumina na cirrose hepática usos além da função de coloide

Outras ações da albumina

Além do efeito osmótico, a albumina desempenha outras funções no sangue que nem sempre são levadas em consideração. A proteína funciona como carreadora para várias outras moléculas, em especial alguns hormônios, alterando sua biodisponibilidade e modulando funções orgânicas e processos metabólicos. Algumas espécies reativas de oxigênio também passam por esse processo, assim como mediadores inflamatórios como interleucinas e prostaglandinas. Outras evidências apontam ainda para interações albumina-endotélio que podem regular o tônus e a permeabilidade vasculares, explicando shunts e outros efeitos hemodinâmicos da cirrose descompensada.

A deficiência quantitativa ou qualitativa da albumina está envolvida no extravasamento de líquido para o interstício por falta de pressão oncótica sanguínea. Além disso, também interfere no estado pró-inflamatório e pró-oxidante inerente da insuficiência hepática, pelo desbalanço do fluxo sanguíneo entre diferentes órgãos, e pela disfunção da imunidade. A imunossupressão em pacientes cirróticos implica em propensão a infecções e translocações bacterianas do trato gastrointestinal, além de desregulação metabólica global (inclusive com falência energética celular a nível mitocondrial). Essas consequências, por sua vez, esclarecem por que a cirrose frequentemente evolui com outras falências orgânicas, especialmente nos casos de agudização (acute-on-chronic liver failure).

Quantidade versus qualidade da albumina

A importância da albumina na cirrose não envolve apenas déficit em sua quantidade. Além da baixa produção da proteína pelo fígado cirrótico, as moléculas produzidas também costumam ser defeituosas, o que compromete seus efeitos osmóticos e pleiotrópicos. Logo, a quantidade de albumina funcionante na circulação é ainda menor que a medida em exames laboratoriais. Isso é observado mesmo em casos iniciais, em que a dosagem total da albumina ainda não está baixa, mas os defeitos de produção já ocorrem.

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Pensando nisso, algumas pesquisas têm sido realizadas para descobrir se a administração de albumina pode ser benéfica a curto e longo prazo para os pacientes cirróticos. Em uma revisão sistemática publicada em 2020 no periódico BMJ (British Medical Journal), foram avaliadas várias pesquisas no assunto, com diferentes protocolos de administração da droga. A maioria envolveu cálculos de dose pelo peso do paciente, administrados ao longo de algumas semanas, com avaliação posterior quanto à incidência de complicações da cirrose e desfecho global.

O que a maioria descobriu foi que a administração regular de albumina, mesmo fora do contexto de uma descompensação, reduziu significantemente a ocorrência de outras disfunções orgânicas e complicações. Além disso, foi demonstrada redução na incidência de descompensação da cirrose e taxas de hospitalização. De acordo com esses achados, a mortalidade dos pacientes que receberam as doses de albumina também foi significativamente menor que a dos pacientes no grupo controle.

A heterogeneidade atrapalha as pesquisas

O maior problema na literatura atual é que, considerando o interesse relativamente recente pelo uso ampliado da albumina, os estudos têm desenhos muito diferentes que dificultam uma conclusão sobre dose e tempo de uso, por exemplo. Algumas pesquisas envolveram o uso de 1,5 g/Kg de albumina, enquanto outras usaram 1 g/kg. Algumas estudaram a administração em dias alternados ao longo de semanas a meses, enquanto outras avaliaram a administração diária por períodos mais curtos de tempo. Algumas estudaram a administração contínua da medicação, enquanto outras tentaram fracionar a administração com intervalos de meses ou semanas entre os ciclos.

Além disso, o principal problema com a administração regular do medicamento é a sua disponibilidade. A fabricação e aquisição da albumina é muito cara, o que inviabiliza tais medidas até o desenvolvimento de alternativas mais econômicas, em termos de saúde pública.

Conclusão

A albumina vem sendo cada vez mais indicada na vigência de descompensação da cirrose, mesmo fora de contextos como lesão renal por hipovolemia, drenagem de ascite volumosa, ou outros distúrbios de volemia. Apesar dos desafios apresentados, essas pesquisas apontam para novas possibilidades no manejo e prevenção de desfechos negativos em pacientes cirróticos. Ainda são necessárias novas pesquisas quanto a alternativas para produção da albumina a custos viáveis para utilização em larga escala, além da determinação de sua melhor dose e tempo de uso.

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Referências bibliográficas:

  • Bernardi M, Angeli P, Claria J, Moreau R, Gines P, Jalan R, Caraceni P, Fernandez J, Gerbes AL, O’Brien AJ, Trebicka J, Thevenot T, Arroyo V. Albumin in decompensated cirrhosis: new concepts and perspectives. Gut. 2020 Jun;69(6):1127-1138. doi: 10.1136/gutjnl-2019-318843.
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