Artrite psoriásica: Tratamento com guselcumabe em pacientes sem exposição prévia a biológicos

Tempo de leitura: 3 min.

O guselcumabe é um anticorpo monoclonal contra a subunidade p19 da interleucina-23 (IL-23), aprovado no Brasil para o tratamento de psoríase em placas moderada a grave e, mais recentemente, artrite psoríase refratária (ou intolerância) a uma terapia prévia com um DMARD.

A eficácia e a segurança desse medicamento foram avaliadas no estudo pivotal DISCOVER-2, que comparou o guselcumabe com o placebo (terapia padrão) em pacientes virgens de tratamento com biológicos. Naquele momento, foram analisados os dados de 24 semanas de seguimento.

Dando prosseguimento ao DISCOVER-2, McInnes et al. publicaram recentemente os dados de extensão de 52 semanas (1 ano) desse estudo.

Métodos

Para serem incluídos no DISCOVER-2, os pacientes deveriam ser portadores de artrite psoriásica em atividade (≥5 articulações dolorosas, ≥5 articulações edemaciadas e PCR ≥0,6 mg/dL), com má resposta à terapia com DMARDs sintéticos convencionais, apremilaste ou AINEs. O uso de biológicos ou inibidores da JAK previamente foi critério de exclusão.

Os pacientes incluídos no braço tratamento foram designados para receber guselcumabe 100 mg a cada 4 semanas (Q4W); ou 100 mg nas semanas 0, 4 e 8, seguidos de 100 mg a cada 8 semanas (Q8W). Os pacientes poderiam utilizar concomitantemente DMARDs sintéticos convencionais (metotrexato, sulfassalazina, hidroxicloroquina ou leflunomida), corticoide oral (até prednisona 10 mg/dia ou equivalente) e/ou AINES, em doses estáveis.

Após a semana 24, os pacientes do grupo placebo sofreram um crossover para o grupo Q4W.

Diversos dados foram coletados, incluindo contagem de articulações dolorosas e edemaciadas, escores de entesite (Leeds Enthesitis Index [LEI]) e de dactilite (Dactylitis Severity Score), escala visual analógica de dor, escalas de função física e qualidade de vida (HAQ, SF36), PASI, entre outros. Radiografias de mãos e pés foram obtidas nas semanas 0, 24 e 52 e lidas por dois examinadores independentes, com o objetivo de monitorar a artrite psoriásica.

O desfecho primário analisado neste estudo de extensão foi a eficácia do guselcumabe vs. placebo (terapia padrão) na semana 52, medida através da resposta ACR20. Vários desfechos secundários foram analisados, como resposta ACR50, ACR70, variação no DAS28-PCR, PASI75, PASI90, PASI 100, variação no HAQ-DI, entre outros. Desfechos de segurança também foram estudados.

Resultados

Dos 739 pacientes incluídos inicialmente no DISCOVER-2, 689 concluíram o acompanhamento até a semana 52 (227 no grupo Q4W, 234 no Q8W e 228 no crossover).

De maneira resumida, a proporção de homens e mulheres foi semelhante (52 vs. 48%) e a duração média da PsA foi >5 anos, sem tratamento biológico. No início do estudo, os pacientes apresentavam um grande número de articulações dolorosas e edemaciadas, e a grande maioria tinha lesões de psoríase >3% da superfície corporal. Um dado importante a ser mencionado é que houve um desbalanço em termos de escores radiográficos entre os grupos, com um menor valor no grupo Q4W.

Leia também: Osteoartrite do joelho: fisioterapia ou injeção de glicocorticoide?

Na semana 52, a resposta ACR20 foi de 71% e 75% nos grupos Q4W e Q8W, respectivamente. Esses números foram superiores aos encontrados na semana 24 do DISCOVER-2 (64% para os dois). O grupo que recebeu placebo inicialmente apresentou melhora importante após o crossover para guselcumabe, com taxas de resposta na semana 52 semelhantes às obtidas nos outros grupos na semana 24.

Com relação aos desfechos secundários, vários deles foram atingidos, com melhora na entesite, dactilite, respostas ACR50 (cerca de 46% dos pacientes) e 70 (cerca de 26% dos pacientes), atividade de doença mínima (pouco mais de 30%) ou muito baixa (em torno de 10%), respostas PASI75, 90 e 100 (em torno de 85%, 75% e 55%, respectivamente, nos dois grupos), melhora na função física, entre outros. Para maiores detalhes, favor se dirigir para o artigo original. Em termos de análise radiográfica, a progressão foi pequena durante o período do estudo. Os autores não encontraram nenhuma nova preocupação em termos de eventos adversos, e nenhuma morte ocorreu no período de estudo.

Conclusões

Esse estudo demonstrou que o guselcumabe apresenta boa eficácia no tratamento de pacientes com artrite psoriásica virgens de tratamento com outros biológicos. A resposta encontrada no estudo DISCOVER-2 se manteve ao longo do seguimento de 1 ano. Além disso, a medicação apresentou um bom perfil de segurança, com uma boa relação risco-benefício ao longo do estudo de extensão.

Autor: 

Referência bibliográfica: 

McInnes IB, et al. Efficacy and Safety of Guselkumab, an Interleukin-23p 19–Specific Monoclonal Antibody, Through One Year in Biologic-Naive Patients With Psoriatic Arthritis. Arthritis Rheumatol. 2021;73:604-16. doi: 10.1002/art.41553

 

 

Compartilhar
Publicado por
Gustavo Balbi

Posts recentes

ACC.21: o que já sabemos sobre anticoagulantes em pacientes com Covid-19?

Uma sessão inteira do congresso do ACC 2021 foi dedicada à discussão o uso de anticoagulantes…

7 horas atrás

ACC 2021: dapagliflozina seria benéfico em pacientes com Covid-19 e fatores de risco?

Um estudo que avaliou o uso da dapagliflozina na Covid-19 em pacientes com fatores de…

8 horas atrás

ATS 2021: síndrome pós-Covid-19 e reabilitação pulmonar

A síndrome pós-Covid-19 e seu manejo foram temas de uma das sessões do congresso da…

10 horas atrás

ATS 2021: novidades na abordagem de tromboembolismo pulmonar

Uma das temáticas abordadas no ATS 2021 foram as novidades em tromboembolismo pulmonar (TEP), que…

12 horas atrás

ATS 2021: abordagem de nódulos e massas pulmonares – práticas atuais

Um dos principais assuntos discutidos no congresso da American Thoracic Society, ATS 2021, foi nódulos…

14 horas atrás

ACC 2021: oclusão do apêndice atrial em cirurgia cardíaca + anticoagulação pode reduzir risco de AVE?

O estudo LAAOS 3 avaliou se a oclusão do apêndice atrial esquerdo, adicionada à posterior…

1 dia atrás