Hepatologia

Associação de bezafibrato e sobrevida livre de transplante na colangite biliar primária

Tempo de leitura: 2 min.

A colangite biliar primária (CBP) é uma doença hepática colestática crônica progressiva, que afeta especialmente mulheres de meia idade. Essa doença tem como principal marcador diagnóstico a presença do anticorpo antimitocôndria, encontrado em até 90% dos casos. Classicamente, é tratada com ácido ursodesoxicólico (AUDC) na dose de 13-15 mg/kg/dia. No entanto, cerca de 30-40% dos pacientes não apresentam resposta bioquímica após 12 meses de tratamento. Nesse contexto, pode-se associar fibrato ou ácido obeticólico ao AUDC como drogas de resgate. No entanto, o efeito prognóstico de longo prazo das medicações de segunda linha em pacientes com CBP resistente ao AUDC é ainda desconhecido. Recentemente, Tanaka e colaboradores estudaram o impacto do bezafibrato na sobrevida de pacientes com CBP não respondedores ao AUDC. 

Leia também: Como diferenciar colangiocarcinoma de doenças benignas do trato biliar?

O estudo

Estudo de coorte retrospectiva japonês que incluiu 3.908 pacientes com CBP tratados com AUDC ou AUDC + bezafibrato a partir do ano 2000, com pelo menos 1 ano de seguimento. A saber, o bezafibrato é um pan-agonista de receptores ativados por proliferadores de peroxissoma e receptor pregnano X com eficácia comprovada na colestase e dislipidemias. Esse trabalho objetivou avaliar a associação entre exposição a bezafibrato e mortalidade ou necessidade de transplante hepático, estratificado pelo tempo de seguimento, por modelos multivariados. Foi utilizada imputação múltipla de dados faltantes quando necessário.  

Resultados

Dos 3.908 pacientes elegíveis, 3.162 (81%) receberam AUDC e 746 (19%) a associação de AUDC e bezafibrato. Os indivíduos em uso de comboterapia foram mais frequentemente seguidos em centros terciários, eram mais jovens, tinham níveis mais altos de fosfatase alcalina e se encontravam em estágio histológico mais avançado da doença ao diagnóstico. No grupo AUDC-bezafibrato, o bezafibrato foi iniciado em média 1,4 anos após prescrição do AUDC, sendo o tempo médio de exposição ao fibrato de 5,3 (±3,8) anos. A taxa de descontinuação permanente de AUDC foi de 0,7%, enquanto 5,9% interromperam o bezafibrato. O motivo da interrupção do tratamento não foi registrado. Em todos os modelos de sobrevida, a exposição ao bezafibrato foi associada a redução significativa de mortalidade por todas as causas ou necessidade de transplante hepático (hazard ratio ajustado: 0,3253, IC95% 0,1936–0,5466 e 0,2748, IC95% 0,1336–0,5655, respectivamente; p < 0,001 para ambos).  Os NNTs da terapia combinada para prevenir 1 morte adicional ou transplante hepático em 5, 10 e 15 anos foram de 29 (IC95% 22–46), 14 (10–22) e 8 (6–15), respectivamente. 

Saiba mais: Infecções após hemorragia digestiva alta varicosa no cirrótico sob antibioticoprofilaxia

Conclusão

O bezafibrato é a única droga de segunda linha, até o momento, que demonstrou eficácia para tratamento de sintomas (especialmente prurido), alterações bioquímicas e melhora prognóstica de longo prazo em pacientes com CBP não respondedores a AUDC. 

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Tanaka A, Hirohara J, Nakano T, Matsumoto K, Chazouillères O, Takikawa H, Hansen BE, Carrat F, Corpechot C. Association of bezafibrate with transplant-free survival in patients with primary biliary cholangitis. J Hepatol. 2021 Sep;75(3):565-571. doi: 10.1016/j.jhep.2021.04.010.
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Publicado por
Guilherme Grossi Cançado

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