Cardiologia

Atividade neurobiológica associada ao estresse e síndrome de Takotsubo

Tempo de leitura: 3 min.

A síndrome de Takotsubo (ST), caracterizada por disfunção ventricular esquerda aguda, geralmente reversível e desencadeada por estresse físico ou emocional, ainda não tem seu mecanismo completamente compreendido e uma das hipóteses leva em conta o envolvimento de estruturas do sistema límbico, que contém a amigdala. Quando essas estruturas têm sua atividade aumentada por situações de estresse, desencadeiam a resposta do sistema nervoso simpático, aumentam a atividade leucopoiética e contribuem para a patogênese de algumas doenças crônicas, como a aterosclerose.

Alguns estudos com ressonância magnética mostraram que pacientes que tiveram ST têm alteração da conectividade neural nas regiões do sistema límbico, porém todos os pacientes tiveram essa alteração documentada após a ocorrência da doença, não sendo possível definir se já estavam presentes antes da sua ocorrência.

Leia também: Casos de cardiomiopatia de Takotsubo crescem por conta da pandemia

A atividade neurobiológica relacionada ao estresse em regiões específicas pode ser avaliada pela tomografia por emissão de pósitron com 18F-Fluordeoxiglicose (18F-FDG-PET/CT), sendo que a atividade na região da amigdala pode ser quantificada pela razão entre a atividade metabólica na amígdala dividida pela atividade de regiões reguladoras do cérebro (AmygA). Esta razão está aumentada em situações de estresse de forma estável por até 6 meses.

Recentemente foi publicado um estudo que avaliou imagens de 18F-FDG-PET/CT em uma coorte retrospectiva de pacientes que realizaram este exame antes de apresentar a ST.

Características do estudo e população envolvida

Foi um estudo caso-controle retrospectivo feito a partir da análise de um registro americano com mais de 4,5 milhões de pacientes. Foram identificados os pacientes com diagnóstico de ST e que realizaram o 18F-FDG-PET/CT entre 2005 e 2019. Após a avaliação dos casos, foram incluídos na análise 41 pacientes com ST e 63 pacientes controle.

Resultados

A idade média dos pacientes foi de 67,5 anos, 72% eram do sexo feminino e 83% tinham neoplasia. Os dois grupos tinham as mesmas características, exceto pela incidência de doenças autoimunes, que era maior no grupo com síndrome de Takotsubo. O intervalo de tempo entre a realização da imagem e a ocorrência da ST foi de 0,9 anos e, no grupo controle, o intervalo entre a realização da imagem e a última avaliação ou óbito foi de 2,9 anos.

Saiba mais: A síndrome de takotsubo poderia ser uma paraneoplasia

Maior AmygA ocorreu no sexo feminino, diabéticos, pessoas com doença renal crônica e nos pacientes que tiveram ST (p = 0,038). Em análises de regressão logística, maior AmygA foi relacionado a maior chance de desenvolver ST (OR (IC 95%) 1,64 (1,03 – 2,61), p 0,036). Ainda, quanto maior esta relação menor o tempo para a ocorrência da doença, sendo de aproximadamente 2 anos antes para os que tinham a relação mais alta em relação aos que a tinham mais baixa.

Conclusão

Estudos prospectivos com pacientes com ST são muito difíceis de serem realizados devido a baixa incidência da doença. Este estudo, apesar de ter grande prevalência de pacientes com neoplasia, é muito interessante pois é o primeiro que documenta a atividade neurobiológica relacionada ao estresse antes da ocorrência da síndrome, sendo que quanto maior esta atividade mais precoce a ocorrência da ST. Esses achados ajudam a entender um pouco mais a fisiopatologia da doença e mostram possibilidades novas de diagnóstico que podem ser interessantes num futuro próximo, como o uso desse tipo de exame para avaliação de risco para ST ou o estudo de medicações que atuem nesta região como possível alvo terapêutico para esses pacientes.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Radfar A, et al. Stress-associated neurobiological activity associates with the risk for and timing of subsequent Takotsubo syndrome. European Heart Journal. 2021;ehab029. doi: 10.1093/eurheartj/ehab029
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Publicado por
Isabela Abud Manta

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