Medicina de Família

Atributos da atenção primária: contribuição da longitudinalidade

Tempo de leitura: 3 min.

A prática médica nos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) possui especificidades importantes. Diferentemente de atendimentos em outros níveis de atenção, os pacientes que buscam se consultar na APS podem apresentar qualquer tipo de problema de saúde, muitas vezes em estágios ainda indiferenciados. Os quadros possuem forte influência de seus contextos familiar e comunitário e são comumente afetados por problemas emocionais e psicológicos, que vão muito além de questões estritamente biomédicas. É por esse e por muitos outros motivos que, idealmente, o médico que atua nesse nível de atenção deve ser especialista em Medicina de Família e Comunidade e, minimamente, conhecer os atributos da APS, baseando sua prática através deles.

Os atributos da APS, definidos por Barbara Starfield, orientam a organização desses tipos de serviço em todo o mundo, representados no Brasil pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Clínicas da Família, dentre outras denominações para as unidades de Atenção Básica – outra forma de se referir à APS no país. Definem e norteiam a APS quatro atributos essenciais (acesso, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado) e três atributos derivados (competência cultural, orientação familiar e comunitária). Entendendo a sua importância para os médicos que atuam nesse cenário, estamos iniciando hoje uma série de textos sobre esses atributos, começando pelo atributo da longitudinalidade.

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A longitudinalidade na atenção primária

Como o próprio – e comprido – nome denota, a longitudinalidade se relaciona com a característica de um serviço de saúde (e de um médico) de ser uma fonte regular de atenção ao paciente ao longo do tempo. Em um nível mais básico, um serviço ao qual o paciente poderia retornar ao longo de sua vida, possibilitando um cuidado mais personalizado e preciso, poderia ser considerado longitudinal. No entanto, existem dois importantes pontos que caracterizam a longitudinalidade como algo a mais que a possibilidade de retornar para novas consultas.

Em primeiro lugar, um médico que garanta a longitudinalidade deve ser a referência e ter a capacidade de cuidar do paciente como um todo, não apenas de uma doença ou de um problema de saúde. Muitos serviços possibilitam a marcação de retornos e mantêm sua existência por anos a fio, mas é apenas na APS que um paciente pode procurar atendimento para qualquer situação que apareça.

A mesma pessoa pode procurar seu Médico de Família e sua equipe de APS para o caso de uma gravidez, para um atestado de atividade física, tratamentos de hipotireoidismo ou HIV, buscar apoio após a perda de um ente querido ou para uma enxaqueca que amanheceu especialmente forte naquele dia. Essa característica, além de dialogar com a integralidade – mais um atributo, traz à luz o outro ponto essencial para o desenvolvimento de uma verdadeira longitudinalidade: o vínculo.

Uma relação médico-pessoa, caracterizada por uma confiança mútua e afeto, é essencial para a construção da longitudinalidade na APS. A maneira como o médico e os outros profissionais da equipe se relacionam com os pacientes e como interagem com a comunidade onde estão inseridos influencia diretamente na satisfação e na qualidade de seus acompanhamentos. É natural perceber que o médico que conhece bem seu paciente – suas características, sua personalidade, suas limitações e seu contexto – será capaz de tratar de sua saúde com muito mais competência.

Ao garantir a prestação de cuidados em saúde ao longo do tempo, por meses e anos, durante toda a vida do paciente, a APS se torna um ambiente com potencialidades raras: permite a realização de atividades preventivas o mais oportunamente possível e a conclusão de um maior número de tratamentos; reduz a utilização dos serviços e dos custos do sistema de saúde; garante um melhor acompanhamento para pacientes com doenças crônicas e diminui encaminhamentos a outros níveis de atenção e internações em hospitais.

Médicos que estão há muitos anos atuando em uma mesma equipe de APS, por já terem tido a oportunidade de compensar clinicamente as doenças crônicas da maior parte de seus pacientes e por já conhecê-los muito bem, chegam a ter até 97% de resolutividade em seus atendimentos, necessitando encaminhar apenas 3% destes.

Aos médicos de família e suas equipes interessa, portanto, saber o quanto seus pacientes estão familiarizados com eles – e o quanto eles estão com seus pacientes. Além de evitar a rotatividade de profissionais – muito prejudicial para a solidificação da longitudinalidade – é importante a tomada de medidas que possibilitem que profissionais e pessoas que buscam atendimento se conheçam e construam vínculo. É através dessa ligação que se construirá uma relação mais humana, mais satisfatória – e muito mais efetiva.

Confira a série completa:

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Starfield B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: UNESCO; 2002.
  • Duncan, B .B. Schmidt, M. I.; Giuliani, E. R. J. Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. Capítulo 4: Organização de Serviços de Atenção Primária à Saúde. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • Gusso G, Lopes JMC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade – 2a edição. Cap. 4: Atenção primária à saúde. Editora Artmed, 2019.
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Publicado por
Renato Bergallo

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