Reumatologia

Avaliação do dano acumulado em pacientes com SAF primária: a importância dos fatores de risco cardiovasculares

Tempo de leitura: 3 min.

Disclaimer: o autor desse texto para o Portal PEBMED é também o primeiro autor do estudo em questão.

A síndrome antifosfolípide (SAF) é a trombofilia adquirida mais frequente na população geral. Quando ela acontece de maneira isolada, sem outras doenças autoimunes, ela é conhecida como SAF primária. Os eventos trombóticos, sejam venosos ou arteriais, são capazes de gerar danos ao paciente, que, ao se acumularem, provocam uma piora na qualidade de vida. Além disso, outras formas de dano podem estar relacionadas diretamente à presença dos antifosfolípides (aPL) circulantes, sem relação com a formação de trombos.

O DIAPS é uma ferramenta validada para quantificar o dano acumulado em pacientes com SAF trombótica. Essa ferramenta não havia sido estudada internacionalmente em grande escala, nem avaliada nos pacientes positivos para aPL sem eventos trombóticos (aPL isolados ou SAF gestacional).

No estudo apresentado a seguir, avaliamos o DIAPS em pacientes positivos para aPL (que inclui SAF trombótica, SAF gestacional e aPL isolados) provenientes de uma grande coorte internacional. Também analisamos quais foram os fatores clínicos e laboratoriais que se associaram a uma maior probabilidade de acúmulo de dano nesses pacientes.

Dano acumulado na SAF primária

Trata-se de um estudo transversal que avaliou o dano acumulado por pacientes com SAF primária na visita antes da inclusão (baseline) no registro internacional de SAF chamado APS ACTION.

Para ser incluído, o paciente deveria ser positivo para aPL conforme os critérios de Sapporo atualizados, testados até 1 ano antes da inclusão. O único critério de exclusão foi a presença de outras doenças autoimunes associadas à SAF.

Como o DIAPS foi validado em apenas em pacientes com SAF trombótica, dividimos os pacientes em 2 grupos: SAF trombótica e positividade para aPL sem trombose (que inclui SAF gestacional e aPL isolados).

Leia também: Uso de apixabana na síndrome antifosfolípide (SAF): resultados do estudo ASTRO-APS

No grupo de SAF trombótica, os pacientes foram classificados de acordo com a presença de alto dano acumulado (DIAPS ≥3 vs. DIAPS <3) e as características entre os dois grupos formados foram comparadas.

Já no grupo sem trombose, nós avaliamos a prevalência de pacientes que apresentaram dano (DIAPS >0) e suas características foram comparados com aqueles que não apresentaram dano (DIAPS=0).

Resultados

Foram analisados 826 pacientes incluídos no registro do APS ACTION. Desses, 576 atenderam aos critérios de inclusão do estudo. No grupo trombótico, incluímos 412 pacientes com SAF primária. Já no grupo não-trombótico, foram incluídos 164 pacientes (56 SAF gestacionais e 108 aPL isolados). A média de idade foi ao redor de 50 anos, sendo a maioria dos pacientes brancos e do sexo feminino.

No grupo trombótico, identificamos que os pacientes com alto dano apresentavam maior idade (p=0,022, mas clinicamente não importante) e maior frequência de sexo masculino (46,4 vs. 34,4% p=0,08), hipertensão arterial sistêmica (45,5 vs. 29,5%, p=0,02), dislipidemia (38,2 vs. 26,2%, p=0,18) e obesidade (36,7 vs. 21,9%, p=0,002). Na análise multivariada, encontramos que o sexo masculino (OR 1,73, IC95% 1,10-2,71, p=0,018) e a presença de hipertensão (OR 1,90, IC95% 1,21-2,99, p=0,006) se associaram de maneira independente com a presença de alto dano acumulado.

Já no grupo não trombótico, a presença de dano se associou com a hipertensão (41,2 vs. 15,4%, p=0,001) e dislipidemia (32,4 vs. 7,7%, p<0,001). Na multivariada, ambas se mantiveram associadas de maneira independente com a presença de dano, com OR (2,72, IC95% 1,09-6,80, p=0,032) e OR 4,48, IC95% 1,62-12,29, p=0,004), respectivamente.

O perfil de aPL não se associou com o dano em nenhuma das análises realizadas.

Veja mais: SBR se posiciona sobre as vacinas de vetores virais contra Covid-19 e síndrome antifosfolípide

Comentários

Esse é o primeiro estudo a demonstrar que a presença de fatores de risco cardiovascular tradicionais se associa com o aumento do dano acumulado em pacientes com SAF primária.

Dentre as forças desse estudo, destaco que a coorte do APS ACTION é a maior coorte prospectiva de SAF em atividade no mundo, com um grande número de pacientes incluídos, englobando mais de 20 centros em quase todos os continentes. Além disso, existe um grande rigor para inclusão de pacientes nesse registro, com uma alta qualidade dos dados obtidos.

Apesar disso, existem limitações: nesse estudo, avaliamos dados do baseline de maneira transversal. O próximo passo será avaliar de maneira prospectiva os dados, para que possamos entender a relação causal entre a presença desses fatores de risco e o acúmulo de dano ao longo do seguimento.

Concluindo, já existem evidências suficientes para demonstrar que os fatores de risco cardiovascular tradicionais exercem um importante papel tanto na ocorrência e recorrência de trombose em pacientes com SAF, quanto no acúmulo de dano. Esses fatores devem ser bem avaliados no acompanhamento desses pacientes e necessitam de controle rigoroso.

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Publicado por
Gustavo Balbi

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