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Choque séptico

Bactérias multirresistentes podem matar 10 milhões de pessoas até 2050

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A pedido do primeiro ministro inglês James Cameron, o economista Jim O´Neil, criador do termo BRICS (Brasil, Russia, India, China e África do Sul), comandou a equipe que avaliou o impacto econômico das bactérias multirresistentes (BMR). Se nada for feito, estima-se que até 2050, o custo das BMR será de US$ 100 trilhões e elas matarão 10 milhões de pessoas, mais que o câncer, atualmente a segunda principal causa de óbito nos estados unidos.

O problema das BMR é complexo, pois envolve questões relacionadas à saúde humana, animal, agrícola e o uso de antimicrobianos nesses contextos. Ou seja, o mesmo artifício que permitiu o aumento na expectativa de vida da população nas últimas décadas, seja por vidas salvas no tratamento da sepse, seja por permitir o aumento na produtividade de alimentos, pode vir a ser uma das principais causas de óbito no futuro.

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E é por isso que se faz urgente a instituição de medidas que visem o uso racional de antimicrobianos nos mais diversos campos, tarefa que não é fácil por incluir atores com diferentes interesses.

Para mudar o curso atual, o relatório sugere algumas medidas:

1. Campanha massiva global contra as bactérias multirresistentes

É necessário dar visibilidade ao problema, incluindo crianças e adolescentes nas escolas e profissionais das mais diversas áreas como veterinária, agrícola e saúde. O ideal é que seja garantido que essas estratégias sejam integradas e homogêneas no mundo, incluindo países com menores condições socioeconômicos, com apoio dos países em melhores condições via fundos globais.

2. Melhorar as condições sanitárias

Em 2015, quase 20% dos domicílios do Brasil não possuíam água tratada. Em apenas 52% há coleta de esgoto e 45% passam por tratamento antes de serem despejados no ambiente. Viver em más condições sanitárias aumenta a probabilidade de desenvolver doenças infecciosas, que por sua vez necessitam de antibiótico. O aumento da carga de antibiótico causa uma pressão seletiva das bactérias, favorecendo o surgimento de bactérias resistentes. Além disso, o próprio ambiente pode ser foco de contato entre bactérias, que trocam seus materiais genéticos. O gene que confere resistência antimicrobiana pode migrar entre bactérias de diferentes espécies, disseminando o mecanismo de resistência.

3. Redução do uso de antimicrobianos na agricultura

70% dos antimicrobianos são usados na área animal e agrícola nos Estados Unidos. Outros países sequer possuem dados sobre esse consumo, devido à falta de regulação na compra e venda desses produtos. Os antimicrobianos são necessários para manutenção da produção adequada de animais e produtos agrícolas para consumo humano. Porém, muitas vezes são utilizados como prevenção em doses muito acima do necessário. Em primeiro lugar, deve-se monitorar o comércio desses produtos. Em segundo, definir critérios que sejam eficazes do ponto de vista produtivo, mas ao mesmo tempo seguro. Em terceiro, alguns antibióticos devem ser limitados ao consumo humano, pois eventualmente são a única opção terapêutica. E, por último, deve ser dada transparência, para esclarecer ao consumidor final qual foi e quanto de antibiótico foi utilizado naquele alimento.

4. Melhorar os sistemas de vigilância no consumo de antimicrobianos

Muito se avançou nos últimos anos em relação ao controle de infecção dentro de instituições de saúde. Porém, ainda há um viés local para essa atividade. Para se entender a dimensão do problema e onde atuar, precisamos de sistemas integrados de geração de dados relacionados ao consumo de antimicrobianos e aos resultados de culturas. Os SCIH devem cada vez mais trabalhar de forma integrada e padronizada para que os objetivos sejam alcançados em nível local e global. O mesmo vale para o monitoramento de antimicrobianos utilizados ambulatorialmente e na indústria agrícola.

5. Desenvolvimento e estímulo ao uso de exames que auxiliem na decisão

O próprio economista e autor do trabalho se espantou pelo método arcaico de decisão para o uso de antimicrobianos. É o mesmo desde o seu surgimento, ou seja, o médico avalia somente os sinais e sintomas, sem ter um exame complementar que possa imediatamente guiar essa decisão. Isso torna o processo altamente subjetivo, dando margem à medicina defensiva. É melhor iniciar o tratamento “por via das dúvidas” a aguardar o resultado dos exames, que muitas vezes demoram horas ou dias. As infecções respiratórias altas, apesar de serem na maioria das vezes causadas por vírus, resultam na prescrição de antimicrobiano.

Há alguns exames laboratoriais que podem auxiliar nesse processo. O hemograma é o mais clássico, porém necessita de horas para que o resultado fique pronto, além de possuir uma acurácia longe do ideal. Testes como a proteína C reativa e procalcitonina já estão disponíveis para serem realizados à beira do leito. Há evidências positivas no seu uso como auxiliar no diagnóstico e definição de tempo de terapia das infecções respiratórias, permitindo a diminuição no consumo sem prejuízo ao paciente.

6. Apoiar o desenvolvimento e cobertura populacional de vacinas

As vacinas foram uma das medidas de maior impacto na saúde pública, prevenindo casos e óbitos de doenças que eram comuns como a meningite por Haemophilus influenzae, e infecção por rubéola e sarampo. Algumas delas ameaçam retornar devido à baixa cobertura vacinal na população. A prevenção de doenças como meningite e pneumonia reduzem o consumo de antimicrobianos.

7. Estimular a formação de profissionais atuantes na área

A atuação de farmacêuticos e bioquímicos, microbiologistas, infectologistas entre outros profissionais que atuam dentro da cadeia de diagnóstico e tratamento de infecções dão sustentação para que as boas práticas sejam colocadas em prática.

8. Estimular a ciência para desenvolvimento de novas moléculas de antimicrobianos

Algumas áreas da ciência são negligenciadas devido à alta complexidade e dificuldade de retorno do investimento. Uma delas é o desenvolvimento de novas moléculas capazes de se tornarem antimicrobianos na prática clínica. Fundos globais devem ser formados para estimular que essas áreas se desenvolvam.

9. Incentivos para a produção de novas drogas e melhora das existentes

As grandes indústrias farmacêuticas acabam investindo em outras áreas que geram maior retorno, como, por exemplo, algumas doenças crônicas que necessitam de tratamento contínuo, diferentemente do tratamento antimicrobiano que possui curto período de duração. Soma-se o fato de que muitos antimicrobianos acabam perdendo a eficácia em poucos anos, fazendo com que essa medicação seja cada vez menos utilizada ao longo do tempo. Chegamos ao ponto tal de que algumas marcas felizmente acabam estimulando o seu uso racional para que sua medicação dure mais tempo no mercado.

10. Construir uma rede de coalisão global via G20 e ONU

Toda concepção sobre a vigilância e prática do uso racional de antimicrobianos nos mais diferentes campos (saúde, veterinária e agrícola) deve ter apoio irrestrito das grandes potências econômicas mundiais, sem as quais os demais países não terão recursos e mesmo o know how para ações efetivas.

11. Prevenção de novas infecções

A higienização das mãos antes e após o contato com pacientes e ambientes hospitalares, apesar de ser um ato simples, ainda não há uma garantia de que ocorra sistematicamente. Pelo contrário, as auditorias dos Serviços de Controle de Infecção Hospitalares (SCIH) demonstram baixos índices de adesão a essa medida. Formas inovadoras como uso de sensores ou de localização via GPS, desde que sejam custo-efetivas, podem ser úteis.

O diagnóstico está feito, o tratamento proposto. Falta o paciente aderir. Devemos criar em cada instituição de saúde e mesmo fora dele, entendendo que esse é um problema de todos, de racionalidade no uso de antimicrobianos. Apesar do grande avanço conquistado no tratamento das infecções, devemos garantir que essa conquista seja sustentável a longo do tempo. Assim temos alguma chance de evitar o retorno à era pré-antibiótica, que alguns já consideram ser o presente.

Autor:

Bernardo Almeida

Infectologista e responsável médico da Hi Technologies.

Referências:

  • Jim O Neill. 2016. “Tackling Drug-Resistant Infections Globally: Final Report and Recommendations. https://amr-review.org/sites/default/files/160525_Final paper_with cover.pdf.
  • Schuetz, P et al. 2017. “Procalcitonin to Initiate or Discontinue Antibiotics in Acute Respiratory Tract Infections (Review ).” Cochrane Database of Systematic Reviews (10): 1–128.
  • Skg, Tonkin-crine et al. 2017. “Clinician-Targeted Interventions to Influence Antibiotic Prescribing Behaviour for Acute Respiratory Infections in Primary Care : An Overview of Systematic Reviews

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