Baixa atividade de doença, menor dano e qualidade de vida nos pacientes com LES 

Um estudo de coorte retrospectiva incluiu pacientes diagnosticados com LES e acompanhados no Hospital Universitário de Linköping.

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune sistêmica, capaz de acometer virtualmente qualquer órgão do corpo. Seu pico de incidência ocorre entre os 20-40 anos e afeta predominantemente as mulheres. 

A atividade de doença no lúpus pode flutuar de maneira significativa ao longo do curso da doença, e o seu tratamento visa controlar a inflamação sistêmica, com objetivo de evitar danos aos órgãos-alvo. Além disso, é importante garantir uma melhor qualidade de vida para esses pacientes, situação que está em consonância com os esforços recentes na literatura médica de se estudar desfechos relatados pelos pacientes (PROs). 

Leia também: Presença de múltiplas comorbidades nos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico 

A avaliação do dano através de ferramentas apropriadas é utilizada como uma medida de desfecho duro no LES, uma vez que está relacionada a um aumento de letalidade e uma piora na qualidade de vida. Um dado importante é que os pacientes com LES ainda apresentam uma qualidade de vida ruim, mesmo com as melhorias nos tratamentos atuais. 

Parodis et al. conduziram um estudo, cujo objetivo foi avaliar o impacto de medidas clínicas de avaliação do LES (incluindo atividade de doença, atingimento de baixa atividade de doença e dano acumulado) nos PROs (incluindo qualidade de vida avaliada através do HRQoL, dor e fadiga), em uma coorte de centro único na Suécia. 

médico conversando com paciente sobre critérios classificatórios de lúpus

Métodos 

Trata-se de um estudo de coorte retrospectiva que incluiu pacientes diagnosticados com LES e acompanhados no Hospital Universitário de Linköping, Suécia, com idade ≥18 anos e que preenchiam os critérios de classificação do ACR 1982 ou do SLICC 2012. 

Os dados foram coletados desde a primeira aplicação dos PROs (iniciada em setembro de 2010) até setembro de 2021. Foram incluídos tanto casos prevalentes quanto incidentes de LES. Os avaliados foram treinados e calibrados entre si, para evitar grande variabilidade e heterogeneidade entre as avaliações. 

A atividade de doença foi avaliada através do SLEDAI-2K, e a avaliação global do médico (PhGA) foi registrada conforme orientação do SELENA-SLEDAI (0 a 3). A baixa atividade de doença (LLDAS) foi definida como SLEDAI-2K ≤4, sem novos itens do SLEDAI desde a última consulta associados a PGA ≤1 e dose de prednisona ou equivalente ≤7,5 mg/dia. Adicionalmente, uma análise de cenário foi feita comparando 3 grupos: (1) LLDAS considerando SLEDAI-2K clínico = 0, PhGA ≤1 e prednisona ≤7,5 mg/dia, (2) LLDAS sem remissão clínica considerando o SLEDAI-2K clínico entre 1 e 4, PhGA ≤1 e prednisona ≤7,5 mg/dia, (3) ausência de LLDAS (não atendendo aos critérios acima). 

A HRQ oL foi medida através do EQ-5D, o dano acumulado através do SDI e a dor e fadiga foram avaliadas através de escalas visuais analógicas. 

Resultados 

Foram incluídos 327 pacientes com LES na análise, com mediana de seguimento de 8,5 anos. Desses, 90 eram casos incidentes (mediana de seguimento de 4,3 anos desde o diagnóstico). Dos 372 pacientes, 86 apresentavam doença moderada a grave, clinicamente ativa, apesar do tratamento. 

Após o início do tratamento, a atividade de doença tendeu a reduzir, mas o dano acumulado aumentou. Seguindo esse padrão, o EQ-5D melhorou inicialmente, mas apresentou alguma piora após 5 anos de seguimento (sem, no entanto, atingir os níveis prévio). 

De modo geral, o atingimento do LLDAS, menores valores de PhGA e menores escores de SLEDAI-2K se associaram com melhor qualidade de vida e menores níveis de dor e fadiga, tanto na população geral quanto nos subgrupos com LES recém-diagnosticado e com doença ativa. Ao contrário, o aumento no SDI se correlacionou com PROs ruins, exceto fadiga, na população geral. Na análise prospectiva, os PROs mantiveram melhoras progressivas naqueles que se mantiveram em LLDAS. Nas análises multivariadas, baixa atividade de doença/LLDAS se associou com PROs favoráveis, independente dos valores de SDI. 

Comentários 

Atualmente, apesar de certa heterogeneidade na sua definição, é consenso na comunidade de pesquisadores de LES que a LLDAS é um alvo importante a ser atingido, uma vez que apresenta uma série de benefícios no curto, médio e longo prazo para os pacientes com LES. 

Este estudo traz informações interessantes no que diz respeito à melhora nos PROs quando se atinge essa LLDAS. Sabemos que a importância dos PROs é crescente na literatura médica e devemos estar atentos a esses desfechos para oferecer um melhor cuidado para os pacientes. 

Desse modo, o estudo apresentado fornece mais dados que reforçam a necessidade de que a estratégia treat-to-target seja cada vez mais incorporada à prática clínica pelos médicos que cuidam de pacientes com LES. 

Leia ainda: Lúpus eritematoso sistêmico na pediatria

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Referências bibliográficas: Ícone de seta para baixo
  • Parodis I, Stephens T, Dominicus A, et al. Lupus Low Disease Activity State and organ damage in relation to quality of life in systemic lupus erythematosus: a cohort study with up to 11 years of follow-up. Rheumatology (Oxford). 2024 Feb 24:keae120.