Cada vez mais casos de câncer de tireoide são diagnosticados desnecessariamente, alerta OMS

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A rápida aceleração do número de casos de sobrediagnóstico do câncer de tireoide no mundo já afeta a mais de 1 milhão de indivíduos em dezenas de países, aponta um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esse crescente aumento observado nas últimas décadas afeta mais diretamente mulheres de meia-idade e às expõem a males desnecessários, como a extração completa da glândula e a tratamentos permanentes.

Nos Estados Unidos, o câncer de tireoide está aumentando em incidência mais rapidamente do que qualquer outro câncer, com um número estimado de 65 mil indivíduos diagnosticados em 2016, de acordo com o National Cancer Institute. Até o final de 2020, o câncer de tireoide – que tende a afetar jovens e pessoas de meia idade – deverá se tornar o terceiro câncer mais comum entre as mulheres.

Câncer de tireoide

Publicado no The Lancet Diabetes & Endocrinology, o estudo envolveu 26 países e foi dirigido por cientistas do Centro Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (Circ/Iarc), com sede em Lyon, França, em colaboração com o Instituto Nacional do Câncer de Aviano, na Itália.

Mais de 1 milhão de indivíduos podem ter sido sobrediagnosticados com esse tipo de câncer entre 2008 e 2012 nesses 26 países.

A proporção estimada de casos de câncer de tireoide entre mulheres atribuível a um sobrediagnóstico entre 2008 e 2012 foi de 93% na Coreia do Sul, 91% em Belarus, 87% na China, 84% em Itália e Croácia e 83% em Eslováquia e França.

Entre 2008 e 2012, os sobrediagósticos entre as mulheres afetaram 390 mil na China, 140 mil na Coreia do Sul, 120 mil nos Estados Unidos, 31 mil na Itália e 25 mil na França.

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Segundo o estudo, a incidência do câncer de tireoide seguiu aumentando entre 1998-2002 a 2008-2012 em todos os países estudados.

Segundo os pesquisadores, os resultados do estudo apontam fortemente que a grande maioria dos diagnósticos de câncer de tireoide no mundo se deve a um sobrediagnóstico.

O médico Salvatore Vaccarella, do Circ/Iarc, que conduziu o trabalho, destacou a necessidade urgente de acompanhar de perto a evolução mundial do sobrediagóstico, visto o seu alcance, e “o impacto das diretrizes recentes, que, agora, recomendam explicitamente que não se detecte este tipo de câncer em pessoas assintomáticas”.

Em estudo anterior, os pesquisadores do Circ/Iarc estimaram em mais de meio milhão o número de pessoas que teriam recebido um sobrediagnóstico de câncer de tireoide entre os anos de 1988 e 2007 em 12 países ricos.

O impacto do sobrediagnóstico

Este sobrediagnóstico resultante tem sido invariavelmente acompanhado por tratamentos excessivos e arriscados. De acordo com a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), os riscos associados à triagem do câncer de tireoide em adultos assintomáticos, provavelmente, superam os seus benefícios potenciais.

Além disso, ainda cresce o apoio a estratégias mais conservadoras e sob medida para os riscos de aparecimento individuais desta doença incluindo observação de indivíduos de maior risco por incidência de câncer de tireoide em familiares, exposição anormal pregressa aos raios X, entre outros fatores conhecidos.

Segundo o médico Artur Malzyner, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein e consultor científico da Clinonco, nas últimas três décadas foram observados aumentos constantes e mundiais na incidência de câncer de tireoide. Contudo, a mortalidade, segue em baixa.

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“Tal como aconteceu com o câncer de próstata, a quase totalidade do crescimento de novos diagnósticos se deve a tumores pequenos e de baixo risco de morte, e que antigamente não eram identificáveis pelos métodos de diagnóstico. De fato, essas taxas de incidência crescentes parecem quase inteiramente devidas ao aumento do diagnóstico de câncer de tireoide diferenciado e, em particular, do tipo papilar. As taxas de incidência dos demais tipos câncer de tireoide permaneceram relativamente estáveis ​​nos últimos 30 anos, o que poderiam, eventualmente, ser responsáveis por prognósticos mais graves. Contudo, o uso crescente de técnicas de imagem, procedimentos de biópsia como, por exemplo, a aspiração por agulha fina (PAAF) e a observação médica mais cuidadosa, juntamente com o melhor acesso aos cuidados de saúde, facilitou a detecção dos tumores pequenos e menos graves”, explicou o especialista em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED.

Riscos

O câncer da tireoide é uma doença muito comum, porém apresenta baixa letalidade, particularmente nos subtipos de câncer bem diferenciados, que são as formas mais comuns. Contudo, o sobrediagnóstico que vem acontecendo pode levar a tratamentos, muitas vezes, desnecessários e também perigosos.

“As cirurgias que são indicadas no tratamento desta doença podem, com certa frequência, acarretar alterações permanentes no timbre da voz, câimbras, variações no peso, arritmias, entre outros. O fato de não termos conseguido modificar a mortalidade do câncer da tireoide, apesar de do maior número de diagnósticos de câncer, sugere que o mesmo ocorreu por encontrar formas não letais de câncer nestes exames de rotina, além de incentivarmos procedimentos médicos desnecessários. Esta discrepância sugere que devemos evitar realizar exames de rotina em pacientes assintomáticos”, alertou o oncologista Artur Malzyner.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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