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Canal anal: o que todos precisam saber

Tempo de leitura: 3 minutos.

Recebi alguns questionamentos sobre o canal anal durante as últimas semanas, principalmente sobre lacerações. As lesões de canal anal são mais comuns em mulheres. As principais causas são o trabalho de parto vaginal e as cirurgias anorretais. Outras, menos comuns, são lesões por doenças como o HIV e HPV.

Algumas dessas lesões não têm repercussão imediata; muitas delas aparecem com o envelhecimento da mulher, por queda dos hormônios femininos, redução da massa muscular e lesões cumulativas. Por exemplo, uma lesão de trabalho de parto único pode começar a ter repercussão com a paciente aos 50, 55 anos e ainda em plena idade produtiva, causando problemas sociais, sexuais e psicológicos.

A lesão do canal anal pode ser classificada como muscular ou neurológica. As lesões musculares são aquelas que têm perda da continuidade muscular e/ou perda da arquitetura normal da musculatura. Já as lesões neurológicas possuem diversas causas, como a neuropatia diabética ou outra neuropatia (em geral do pudendo).

As lesões musculares são as mais corriqueiras no pós-operatório de cirurgias anorretais, seja fissurectomia, esfincterotomia ou hemorroidectomia. Isso porque todas as cirurgias têm algum grau de comprometimento muscular. Com as técnicas mais modernas e uma melhor seleção de cada paciente para um método específico, tais complicações têm sido reduzidas.

Mais da autora: ‘Sangramento anal: o que é e como diagnosticar corretamente’

As maiores lesões no canal anal ocorrem na gravidez e no trabalho de parto. O que significa que a cesariana NÃO é um fator protetor para esse tipo de lesão. A própria gravidez provoca lesões na musculatura do assoalho pélvico ou mesmo lesões em nervo pudendo, por distensão. Já o trabalho de parto pode levar a lacerações do assoalho pélvico e de canal anal, já bem conhecidas pelos colegas obstetras. Há um trabalho recente da Disease que demonstrou que o tempo de trabalho de parto também é um fator importante: a pressão provocada pela cabeça causaria uma isquemia muscular associada.

Então, o que contra-indicaria um parto normal, em relação à alteração do assoalho pélvico? Pacientes com algum grau de incontinência, seja urinária ou fecal, e também a perda da estrutura anatômica dos órgãos pélvicos, como na presença de enterocele ou cistocele importante.

O que nós fazemos para minimizar os efeitos dessas lesões parte de uma anamnese bem colhida, com história de partos, cirurgias pélvicas e anorretais. Para pacientes com algum grau de incontinência ou mesmo hipotonia ou hipocontratilidade ao exame físico, poderemos indicar fisioterapia e biofeedback para pré operatórios de órgãos de assoalho pélvico e anorretais. Para as futuras mamães, devemos indicar, junto com o obstetra, exercícios para fortalecimento desse assoalho, fazendo uma preparação para o que está por vir.

Quando falamos de assoalho pélvico, devemos ter todos aqueles que tratam dessa região (urologistas, uroginecologistas, ginecologistas, obstetras e coloproctologistas) trabalhando juntos para melhores resultados. Nesse contexto, as fisioterapeutas pélvicas também são fundamentais. É um trabalho multidisciplinar.

Com isso, não devem ser indicadas cesarianas simplesmente para “evitar” lesões. Afinal, a própria gravidez já causa alterações. Mas os trabalhos de parto prolongados, bebês macrossômicos, desproporção cefalopélvica devem ser avaliados de forma constante para evitar problemas a essas mulheres no futuro.

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Referências:

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