Gastroenterologia

Carcinoma hepatocelular na doença hepática gordurosa não alcoólica com ou sem cirrose

Tempo de leitura: 3 min.

A doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) tem incidência crescente devido ao aumento global da prevalência de obesidade e diabetes. Atualmente, a DHGNA é a segunda causa de carcinoma hepatocelular (CHC) em pacientes em fila de transplante hepático nos Estados Unidos.

Apesar de não haver recomendação de screening de CHC em pacientes com DHGNA sem cirrose, sabe-se que esses pacientes apresentam uma incidência aumentada dessa neoplasia, em comparação com pacientes hepatopatas por outras etiologias. A etiopatogenia nesses casos é multifatorial, englobando fatores ambientais, aumento do estresse oxidativo, status inflamatório crônico e resposta imune.

Leia também: Trombose de veia porta não neoplásica: diagnóstico e manejo em cirróticos

Materiais e métodos    

Recentemente, foi publicado um estudo envolvendo uma coorte de pacientes acima de 18 anos com DHGNA. Eles foram identificados através de um banco de dados eletrônicos dos 26 principais sistemas de saúde dos Estados Unidos, no período entre junho de 2015 a maio de 2020.

Esses pacientes foram caracterizados quanto a variáveis como idade, sexo, raça, diabetes mellitus, dislipidemia, hipertensão, tabagismo, obesidade, alanina aminotransferase (ALT) elevada e presença de descompensações prévias da hepatopatia (hemorragia digestiva, icterícia, encefalopatia ou ascite). Após isso, foi realizada uma análise a fim de avaliar prevalência de CHC em indivíduos com DHGNA cirróticos e não cirróticos, além de identificar fatores de risco associados ao desenvolvimento da neoplasia.

Resultados

Foram identificados 392.800 pacientes adultos com DHGNA, sendo 6,4% cirróticos e 93,6% não cirróticos. Dentre esses pacientes, 1.110 tiveram diagnóstico de CHC, sendo 15% em não cirróticos. A prevalência de CHC foi de 4,6/10.000 pessoas (IC de 95% 3,9–5,3/10.000 pessoas) em pacientes com DHGNA não cirróticos, e de 374,4/10.000 pessoas (IC de 95% 350,9–397,8/10.000 pessoas) em pacientes com DHGNA cirróticos.

Os fatores de risco identificados significativamente associados ao CHC em fígado não cirrótico foram:

  • Idade > 65 anos;
  • ALT elevada;
  • Sexo masculino;
  • Tabagismo;
  • Diabetes mellitus (DM).

A prevalência de CHC foi de 45,5/10.000 pessoas (IC 95% 17,4–73,6/10.000 pessoas) em pacientes com todos os cinco fatores de risco presentes.  No caso de pacientes com DM  insulinodependente, o risco de CHC em DHGNA não cirrótico aumenta para 69,44/10.000 pessoas (IC 95% 26,55-112,34/10.000 pessoas).

Os fatores de risco significativamente associados ao CHC em fígado cirrótico foram:

  • Cirrose descompensada;
  • Idade > 65 anos;
  • Sexo masculino;
  • ALT elevado;
  • Etnia hispânica;
  • Diabetes;
  • Tabagismo.

Pacientes caucasianos, afroamericanos, ou portadores de hiperlipidemia foram menos propensos a desenvolver CHC.

Discussão

O estudo leva a 3 principais pontos de discussão:

  1. A cirrose hepática é o principal fator de risco para CHC.
  2. No geral, pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) não cirróticos têm baixo risco para CHC. Todavia, o subgrupo de pacientes com fatores de risco (homens, > 65 anos, história de tabagismo, aumento de ALT atual ou prévio, e Diabetes) apresentam risco aproximadamente 10 vezes maior de desenvolver CHC, em relação aos pacientes com DHGNA não cirróticos.
  3. A etnia pode ter um impacto significativo sobre o risco de desenvolvimento de CHC na população com DHGNA.

Conclusões

O CHC é uma causa conhecida de morbimortalidade em pacientes com hepatopatia, sendo recomendado screening da neoplasia com ultrassonografia semestral em pacientes cirróticos. Sabe-se que pacientes com DHGNA têm risco aumentado de CHC em relação a outras etiologias de hepatopatia crônica, assim, são importantes estudos que avaliem a prevalência da neoplasia nessa população.

Saiba mais: Cirrose: o desafio em evolução das infecções

O risco de desenvolver CHC em pacientes com DHGNA não cirróticos é consideravelmente maior nos pacientes com os 5 fatores de risco identificados pelo estudo. Assim, uma perspectiva futura é a possibilidade de recomendação de screening de CHC também para esses pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) sem cirrose.

Referências bibliográficas:

  • Pinyopornpanish K, Khoudari G, Saleh MA, Angkurawaranon C, Pinyopornpanish K, Mansoor E, Dasarathy S, McCullough A. Hepatocellular carcinoma in nonalcoholic fatty liver disease with or without cirrhosis: a population-based study. BMC Gastroenterol. 2021 Oct 21;21(1):394. doi: 10.1186/s12876-021-01978-0.
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Publicado por
Fernanda Costa Azevedo

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