Hepatologia

Cardiomiopatia cirrótica prediz aparecimento de doença cardiovascular após transplante hepático

Tempo de leitura: 2 min.

A cardiomiopatia cirrótica é uma manifestação extra-hepática da cirrose ainda muito subdiagnosticada na prática clínica. Recentemente, foram revisados os critérios diagnósticos com intuito de contemplar os avanços tecnológicos da ecocardiografia. No presente estudo, Izzy e colaboradores avaliaram a prevalência da cardiomiopatia cirrótica e seus impactos na doença cardiovascular pós-transplante hepático. 

Leia também: Qual o impacto da cirrose hepática após realização de angioplastia coronariana?

Métodos

Trata-se de um estudo de coorte retrospectiva unicêntrico, o qual incluiu pacientes submetidos a transplante hepático entre janeiro de 2008 e novembro de 2017. Pacientes com cirrose descompensada foram subdivididos em três diferentes coortes de acordo com a etiologia da hepatopatia (esteatohepatite não alcoólica, doença hepática relacionada ao álcool e outras etiologias), pareados por idade (±5 anos), sexo e ano de transplante (±5 anos). Foram excluídos pacientes listados em fila de transplante sem evidência de descompensação hepática, como no caso de hepatocarcinoma, e aqueles com dados ecocardiográficos insuficientes. Optou-se por fracionar os pacientes em três coortes devido a possibilidade de associação da doença de base com desfechos cardiovasculares. A cardiomiopatia cirrótica foi definida como presença de disfunção diastólica, fração de ejeção do ventrículo esquerdo ≤ 50%, e/ou valor absoluto do strain longitudinal global < 18%. Avaliou-se o desfecho doença cardiovascular no pós-transplante hepático, definida por desenvolvimento de insuficiência cardíaca congestiva, doença arterial coronariana sintomática, arritmia atrial ou ventricular e/ou acidente vascular encefálico.

Resultados

O estudo incluiu 141 pacientes, 58,2% homens. A idade média ao transplante foi de 57,8 (±7,6) anos. A prevalência de cardiomiopatia cirrótica foi de 34,8%. Dos 49 pacientes, 47 apresentavam disfunção diastólica e 2 sistólica.  Enquanto 46,9% dos pacientes com NASH e 32,7% dos indivíduos com doença alcoólica preencheram os critérios de cardiomiopatia cirrótica, a prevalência dentre os pacientes com cirrose por outras etiologias foi  de 20,4%. O tempo médio de seguimento foi de 4,5 (±2,8) anos. Pacientes com cardiomiopatia cirrótica apresentaram risco aumentado de desenvolvimento de nova doença cardiovascular após o transplante (HR, 2,57; IC95%, 1,2-5,5; P = 0,016). Esse risco foi maior após os primeiros 90 dias de transplante (HR, 2.89; 95% CI, 1.02-8.2; P = 0,045). Além disso, a sobrevida livre de doença cardiovascular em 5 anos foi maior dentre os pacientes sem cardiomiopatia cirrótica  (85,2% versus 60,7%). Não houve impacto da cardiomiopatia cirrótica na mortalidade por todas as causas (P = 0,9). A etiologia da doença hepática não influenciou os desfechos cardiovasculares pós-transplante. 

Saiba mais: 10 dicas para manejo de pacientes que receberam transplante de fígado

Conclusão

A cardiomiopatia cirrótica, definida pelos critérios do Cirrhotic Cardiomyopathy Consortium, afeta cerca de um terço dos candidatos a transplante hepático com cirrose descompensada e é preditora do aparecimento de nova doença cardiovascular após o transplante.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Izzy M, Soldatova A, Sun X, Angirekula M, Mara K, Lin G, Watt KD. Cirrhotic cardiomyopathy predicts posttransplant cardiovascular disease: revelations of the new diagnostic criteria. Liver Transpl. 2021; 27(6):876-886. doi: 10.1002/lt.26000.
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Publicado por
Guilherme Grossi Cançado

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