Caso clínico: delirium induzido por ranitidina na infância

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A ranitidina é um bloqueador de receptor H2 de histamina comumente utilizado na profilaxia de sangramento gastrointestinal e úlceras de estresse nas UTI pediátricas. Efeitos colaterais neurológicos são relatados em adultos, incluindo casos de delirium.

Castro et al relataram o primeiro caso de delirium induzido por ranitidina na infância, em uma criança de 7 anos.

Caso clínico

Uma menina de 7 anos foi internada na UTI pediátrica de um hospital pediátrico do estado do Rio de Janeiro por crise de asma leve. Durante sua internação, recebeu ranitidina como parte do protocolo de hospitalização da instituição. Entretanto, enquanto recebia a medicação via endovenosa, apresentou agitação psicomotora que cessou com o fim da infusão.

Durante segunda infusão de ranitidina, novamente a criança desenvolveu agitação psicomotora, além de agressividade, desatenção, alucinações e pensamento desorganizado. Diante de tal quadro, foi presumido o diagnóstico de delirium e descontinuada a medicação, que foi substituída por omeprazol. A paciente não recebeu medicações antipsicóticas e não apresentou novos quadros de alteração do estado mental após a substituição da ranitidina pelo omeprazol.

Apesar da dificuldade da medicina em atribuir causalidade a dois eventos a princípio não correlacionados, alguns critérios foram utilizados para que essa associação pudesse ser realizada:

  1. Esse efeito colateral já foi relatado em adultos;
  2. A alteração do estado mental ocorreu duas vezes, somente na ocasião da administração do medicamento
  3. O quadro clínico ocorreu durante a infusão da ranitidina
  4. O quadro não se repetiu após troca da medicação.

Outro ponto importante para corroborar com o diagnóstico de delirium induzido por ranitidina é que outros fatores de risco para o desenvolvimento da síndrome estavam ausentes (ex.: idade < 2 anos, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor prévio).

Os exames laboratoriais estavam todos normais, a saturação de oxigênio encontrava-se em 98% em ar ambiente, a gravidade da doença era baixa, não foram utilizadas drogas vasoativas, expansão volêmica, sedativos, opioides ou contenção no leito; infecções bacterianas foram excluídas. Fatores de confusão incluíram: admissão em UTI, presença dispositivos invasivos, uso de salbutamol e corticoide.

A principal medida para se reduzir a incidência de delirium é a prevenção. O tratamento baseia-se na prevenção de fatores de risco, diagnóstico precoce, monitorização e tratamento da doença de base ou suspensão do medicamento precipitante.

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Referência bibliográfica:

  • Castro et al. Ranitidine-Induced Delirium in a 7-Year-Old-Girl: A Case Report. Pediatrics 2019 Jan; 143(2):1-5.
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