Página Principal > Caso Clínico > Caso clínico: paciente com taquicardia, dispneia e tremores
caso clínico

Caso clínico: paciente com taquicardia, dispneia e tremores

Tempo de leitura: 3 minutos.

Paciente do sexo feminino, de 28 anos, em puerpério tardio, comparece em pronto atendimento após sintomas agudos de perda de movimentos de MMSS, taquicardia, dispneia e tremores com parestesia de extremidades. Refere que sintomas iniciaram durante viagem de carro, tendo como disparador a preocupação e medo intensos de “algo ruim pudesse acontecer com seu filho”. Menciona que, durante a gestação, apresentou humor deprimido a partir de evento desencadeante e sensação de medo constante com pensamentos ruminativos de preocupação em relação à gravidez e maternagem. O seguimento de pré-natal aconteceu sem intercorrências, tendo tido trabalho de parto prematuro com 36 semanas de causa que não sabe relatar.

Apresentou perda de 12 kg não intencional pós-parto em 10 dias, labilidade emocional, perda de libido, discreta anedonia e alucinações auditivas e visuais sem conteúdo fixo e com prejuízo funcional importante. Refere ainda crença de inferioridade e padrão de cobrança excessiva com ruminações de culpa devido impossibilidade de amamentação (não apresentou apojatura). Nega ideação suicida ou fantasia de morte. Refere ainda episódios depressivos anteriores sem tratamento ou seguimento psiquiátrico prévio e nega antecedentes pessoais patológicos.

Na avaliação inicial, apresenta bom estado geral, consciente e orientada, mucosas úmidas, normocoradas, sem edemas.

  • AR: MFV sem RA;
  • ACV: brnf 2T SS;
  • ABD: inocente;
  • Neuro: ECG 15, pupilas isofotorreagentes, sem sinais focais.

Exame do estado mental atual: consciente e orientada, pensamento organizado, fala fluente com vocabulário adequado, bom cuidado com aparência, humor deprimido, afeto congruente, sem ideação suicida, sem sintomas psicóticos.

Discussão de caso:

Temos uma puérpera com um quadro agudo de sintomas autonômicos simpáticos e uma parestesia de MMSS. Trata-se de uma mulher jovem com mudança importante no contexto de vida atual e com sintomas importantes que precedem o adoecimento agudo. A paciente traz um relato com sintomas intensos de alteração do humor, com elementos psicóticos leves e que nos faz questionar algumas possibilidades diagnósticas para ela.

Inicialmente precisamos descartar causas orgânicas para esse quadro. Uma investigação de neuroimagem e um rastreio laboratorial metabólico e infeccioso não mostraram nenhuma alteração significativa. Temos então uma puérpera com mais de 3 semanas de puerpério com uma transtorno de humor com sintomas ansiosos importantes.

Trata-se de um quadro de depressão pós-parto com sintomas ansiosos. Os critérios diagnóstico para depressão nesta fase de ciclo de vida não diferem dos da população em geral segundo o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição (DSM-5). Quando abordamos gestantes e puérperas as alterações de humor são de muita relevância. Ao todo, 1 /3 aproximadamente das causas de mortalidade materna estão ligadas à transtorno de humor, tendo suicídio como causa de destaque.

LEIA MAIS: Rastreamento para a depressão pós-parto deve ser feito em todas as gestantes?

Durante a gestação, alguns fatores de risco podem ser observados para desenvolvimento de quadros ansiosos:

  • História prévia de doença psiquiátrica;
  • História familiar de doença psiquiátrica;
  • Antecedentes obstétricos;
  • Fatores socioeconômicos;
  • Falta de suporte social e familiar;
  • Uso de álcool e drogas;
  • Gestação não planejada.

Além disso as consequências de transtornos depressivos não tratados nas gestantes são:

  • Pior adesão às orientações perinatais;
  • Aumento do risco de abortamento espontâneo;
  • Aumento do risco de complicações obstétricas;
  • Aumento da exposição às drogas;
  • Aumento de comportamentos de autoagressão e suicidas;
  • Aumento do risco de depressão-pós parto.

Já para o desenvolvimento fetal, as consequências são:

  • Aumento do risco de prematuridade;
  • Aumento do risco de baixo peso ao nascer;
  • Escores de Apgar mais baixos;
  • Maiores taxas de admissão à UTI neonatal;
  • Cuidados perinatais deficientes;
  • Maiores riscos de lesão pela mãe (por desorganização, impulsividade e agressividade);
  • Menor contato visual, reatividade fisiológica e menor vocalização;
  • Atraso no desenvolvimento emocional, cognitivo e de linguagem;
  • Maior incidência de transtornos psiquiátricos na infância.

Seguindo a lógica e adentrando o cenário de nossa paciente, os fatores de risco para adoecimento puerperal em relação à depressão são:

  • Depressão e/ou ansiedade durante a gestação;
  • Antecedentes pessoais de transtornos do humor;
  • Complicações obstétricas durante a gestação;
  • Baixo suporte social;
  • Ausência de parceiro;
  • Dificuldades de amamentação;
  • Problemas de saúde do bebê.

VEJA TAMBÉM: Setembro amarelo: estratégias de prevenção ao suicídio

Nossa paciente apresenta fatores de risco tanto gestacionais quanto puerperais. Iniciando o manejo, devemos abordar o contexto social e familiar. Entender o adoecimento de modo completo. A intervenção deve seguir tanto campos do comportamento, estilo de vida, psicoterapia, quanto farmacológicos.

As opções mais seguras (caso haja amamentação) no puerpério são nortriptilina, sertralina, fluvoxamina, paroxetina, citalopram, fluoxetina, benzodiazepínicos de meia vida curta (e em doses baixas), ácido valproico e carbamazepina.

Os equívocos mais comuns tangem o diagnóstico e o tratamento. Em relação ao diagnóstico é muito comum se subestimar sintomas, atribuindo a carga de sintomas ao contexto de vida atual ou como sendo “natural do momento”. Já em relação ao tratamento, o emprego de subdoses ou não escolha de medidas de intervenção que envolvam de modo completo medidas comportamentais e farmacológicas.

Confira mais casos clínicos:

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Humes EC et. al. Clínica psiquiátrica: consulta rápida. 1. ed. Manole, 2019;
  • Stahl SM. Essential psychopharmacology: Neuroscientific basis and practical applications. Cambridge university press, 2000;
  • Stahl SM. Stahl’s essential psychopharmacology: Prescriber’s guide. Cambridge University Press, 2014;
  • Kaplan HI, Sadock BJ. Comprehensive textbook of psychiatry, Vols. 1-2. Williams & Wilkins Co, 1989.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.