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médico examinando criança com caxumba

Caxumba: como fazer o diagnóstico e tratamento

Tempo de leitura: 6 minutos.

Há alguns dias, os noticiários vêm divulgando que o número de casos de caxumba está aumentando, assim como vem acontecendo com o sarampo. Isso está ocorrendo, provavelmente, devido à queda da cobertura vacinal, já que a vacina para ambas é a mesma.

Mas afinal, o que é a caxumba?

A caxumba ou papeira é uma doença infecciosa viral aguda e contagiosa que pode acometer qualquer tecido glandular e nervoso do organismo, porém afeta especialmente as glândulas parótidas (produtoras de saliva) ou as glândulas submandibulares e sublinguais, próximas ao ouvido.

A caxumba é uma doença de distribuição universal. Caracteriza-se pela alta morbidade e baixa letalidade e surge sob a forma de endemias ou surtos. É mais frequente em crianças em idade escolar e em adolescentes, no entanto também pode acometer adultos de qualquer faixa etária. Em geral, a caxumba possui evolução benigna. Entretanto, alguns casos raros podem evoluir com complicações e internações, podendo culminar em óbito.

Etiologia

Vírus da família Paramyxoviridae, gênero Paramyxovirus.

Transmissão

O vírus da caxumba é disseminado por meio de transmissão direta por secreções respiratórias (gotículas ou saliva) e as precauções respiratórias são recomendadas de dois dias antes até cinco dias após o início da parotidite. A transmissão indireta é menos comum, porém pode acontecer através do contato com objetos e/ou utensílios contaminados com secreções do nariz e/ou da boca. A transmissibilidade máxima ocorre na saliva, porém o vírus também é encontrado no sangue e na urina e, se o sistema nervoso central (SNC) estiver envolvido, também é encontrado no líquido cefalorraquidiano (LCR).

A contagiosidade da caxumba é semelhante à da gripe e da rubéola, mas menor que a do sarampo ou da varicela. Provavelmente, a transmissão ocorre em indivíduos com infecção assintomática, que podem atingir 15 a 27% das pessoas infectadas.

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Quadro clínico

Após um período de incubação que dura de 12 a 24 dias, a maioria dos pacientes com caxumba apresenta cefaleia, anorexia, mal-estar e febre (baixa a moderada). O envolvimento das glândulas salivares começa 12 a 24 horas depois, com temperatura axilar atingindo 39,5 a 40°C. A febre se mantém por 24 a 72 horas. O edema glandular atinge o volume máximo por volta do segundo dia e dura de cinco a sete dias. As glândulas salivares envolvidas são extremamente sensíveis durante o período febril.

caxumba

Em geral, a parotidite é bilateral. Todavia pode ser unilateral, especialmente no início. A dor ao mastigar ou engolir, especialmente líquidos ácidos (vinagre ou sucos cítricos) é o sintoma mais precoce. Posteriormente, o edema se espalha para além da glândula parótida, para frente e abaixo da orelha. De forma ocasional, as glândulas submandibular e sublingual também edemaciam (raramente, são as únicas glândulas afetadas). O envolvimento da glândula submandibular provoca edema cervical abaixo da mandíbula. Pode ocorrer edema supraesternal (provavelmente devido à obstrução linfática por aumento das glândulas salivares). Quando estão envolvidas glândulas sublinguais, a língua pode edemaciar.

Antes da disponibilidade da vacina, a orquite se desenvolvia em até 50% dos homens infectados em fase pós-puberal. Nos últimos anos, as taxas de orquite variaram de 3 a 10%. Na era pós-vacinal, as taxas relatadas de outras complicações, incluindo meningite, encefalite, pancreatite, ooforite e surdez foram inferiores a 1%.

O vírus da caxumba pode também acometer as articulações. Em crianças e adolescentes, a artrite pode preceder ou suceder (mais frequentemente) o quadro clínico de caxumba. A artrite relacionada a caxumba é rara, oligoarticular, geralmente de leve intensidade e costuma durar de uma a duas semanas.

Diagnóstico

O diagnóstico de caxumba é basicamente clínico: os pacientes com suspeita de caxumba apresentam parotidite e sintomas sistêmicos típicos, principalmente se houver um surto de caxumba conhecido.

Os testes laboratoriais não são necessários para o diagnóstico, porém são altamente recomendados para fins de saúde pública. A infecção aguda pode ser detectada pela presença de IgM sérica para caxumba em uma pessoa não vacinada, um aumento significativo no título de anticorpo IgG entre amostras de soro de fase aguda e convalescente (embora raramente seja demonstrado um aumento de quatro vezes ou mais na IgG entre as pessoas vacinadas), uma cultura positiva de vírus da caxumba ou detecção de vírus por reação em cadeia da polimerase com transcriptase reversa em tempo real (rRT-PCR).

Entre os pacientes com história de vacinação com uma ou duas doses da vacina tríplice viral, a amostra de soro em fase aguda pode conter níveis significativos de IgG de caxumba, medidos por imunofluorescência (IFA) ou imunoensaio enzimático (enzyme immunoassay – EIA). Portanto, uma única amostra de soro testada para IgG específica para caxumba não é útil para diagnosticar infecções agudas por caxumba em uma pessoa vacinada. A presença de IgG (medida por IFA ou EIA) pode não se correlacionar com a presença de anticorpo neutralizante ou proteção contra a caxumba. Não existe um nível protetor conhecido de anticorpo neutralizante para caxumba, e não há outros parâmetros imunes que se correlacionem com a proteção contra a doença. Como no sarampo e na rubéola, a IgM para caxumba pode ser transitória ou desaparecer em uma pessoa vacinada que contraiu caxumba. Assim, a ausência de IgM para caxumba em uma pessoa vacinada que apresenta uma síndrome clinicamente compatível não exclui a caxumba como diagnóstico.

A detecção viral por rRT-PCR ou cultura pode ter baixo rendimento se o swab oral for coletado mais de três dias após o início da parotidite. Portanto, pode ser difícil descartar a caxumba por um resultado laboratorial negativo.

Outras condições podem causar envolvimento glandular semelhante. A caxumba também é suspeita em pacientes com meningite asséptica inexplicável ou encefalite durante períodos de surtos de caxumba. Portanto, a punção lombar é necessária em pacientes com sinais meníngeos.

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Prevenção da caxumba

A única forma de prevenção é através da vacinação. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza, de forma gratuita, a vacina Tríplice Viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, e a vacina tetra viral, que adiciona proteção contra varicela (catapora).

Recomendações do Ministério da Saúde:

  • Crianças até 9 anos: 1 dose da vacina tríplice viral aos 12 meses e 1 dose da vacina tetra viral aos 15 meses;
  • Adolescentes (10 a 19 anos): duas doses da vacina tríplice viral (verificar situação vacinal anterior);
  • Adultos 20 a 29 anos: duas doses da vacina tríplice viral;
  • Adultos 30 a 49 anos: uma dose da vacina tríplice viral (verificar situação vacinal anterior).

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), podem se vacinar gratuitamente indivíduos de até 29 anos (duas doses, com intervalo mínimo de 30 dias) e indivíduos entre 30 e 49 anos (uma dose). Pessoas com 50 a 59 anos de idade podem se vacinar em clínicas privadas. De acordo também com a SBIm, em adultos com idade superior a 60 anos, a vacinação é recomendada em situações que a justifiquem, como a presença de comorbidades, risco epidemiológico, entre outros.

A vacina é contraindicada em gestantes.

Para Meissner (2016), um indivíduo pode ser considerado imune à caxumba se tiver nascido antes de 1957, tiver evidência sorológica de imunidade a caxumba, confirmação de caxumba diagnosticada por médico, confirmação laboratorial de doença ou documentação escrita da vacinação adequada para caxumba aos 12 meses de idade ou mais. A demonstração do anticorpo IgG da caxumba por qualquer teste sorológico é evidência aceitável de imunidade à caxumba.

Como tratar a caxumba

O tratamento é de suporte, não havendo tratamento específico:

  • O paciente é isolado até o edema glandular diminuir;
  • Repouso;
  • Dieta leve para reduzir a dor causada pela mastigação. Substâncias ácidas devem ser evitada;
  • Higiene bucal;
  • Sintomáticos em caso de dor e/ou febre;
  • Vômitos incoercíveis devido à pancreatite podem exigir hidratação intravenosa;
  • Orquite: o repouso no leito e o suporte do escroto em algodão em uma ponte de fita adesiva entre as coxas para minimizar a tensão ou o uso de compressas de gelo geralmente alivia a dor. Os corticosteroides não demonstraram acelerar sua resolução;
  • Meningite asséptica: tratamento sintomático;
  • Encefalites: tratamento do edema cerebral e manutenção das funções vitais.

Na suspeita de caxumba, o indivíduo deve ser orientado a procurar atendimento médico.

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Referências bibliográficas:

1. JUNQUEIRA, F. Número de casos de caxumba aumenta 130% em relação ao ano passado no estado do Rio. In: EXTRA. 2019. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/numero-de-casos-de-caxumba-aumenta-130-em-relacao-ao-ano-passado-no-estado-do-rio-23942143.html. Acesso em: 15 de set. 2019;

2. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caxumba: o que é, causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção. 2019. Disponível em: http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/caxumba. Acesso em: 15 de set. 2019.

3. TESINI, B. L. Mumps (Epidemic Parotitis). In: MSD MANUALS PROFESSIONAL VERSION. 2019. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/professional/pediatrics/miscellaneous-viral-infections-in-infants-and-children/mumps. Acesso em: 15 de set. 2019.

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5. PELAJO, C. F.; OLIVEIRA, S. K. F. Infecções osteoarticulares. In: SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Barueri: Manole, 2017. Volume 2. Cap. 8. p.1816-1821.

6. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Orientações sobre vacinação. 2019. Disponível em: http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/orientacoes-sobre-vacinacao. Acesso em: 15 de set. 2019.

7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES. Vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) – SCR. 2019. Disponível em: https://familia.sbim.org.br/vacinas/vacinas-disponiveis/vacina-triplice-viral-sarampo-caxumba-e-rubeola-scr. Acesso em: 15 de set. 2019.

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