Enfermagem

Choosing Wisely: práticas comuns que a enfermagem deve questionar

Tempo de leitura: 4 min.

Qual a responsabilidade ética dos profissionais da saúde em questionar a efetividade de ações comumente realizadas? Com base nesse questionamento, em 2012, a American Board of Internal Medicine (ABIM), em parceria com outras associações e pesquisadores, lançou a campanha Choosing Wisely, com o objetivo de promover uma conversa franca entre os profissionais médicos e os pacientes sobre a necessidade e eficácia de alguns procedimentos e exames comumente realizados.

Desta forma, no mesmo ano, a campanha solicitou que as associações profissionais de cada especialidade verificassem exames, procedimentos e ações comumente realizadas que deveriam ser questionadas em relação a sua efetividade. Essa campanha resultou em uma lista denominada “Things Providers and Patients Should Question”.

Atualmente, a missão principal da iniciativa que virou organização é a escolha de ações com sabedoria, baseada em evidências científicas, livre de danos aos pacientes e que realmente sejam proporcionais a condição a ser investigada ou tratada.

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Choosing Wisely na enfermagem

As associações americanas de enfermagem também participam das iniciativas Choosing Wisely, solicitando que os profissionais questionem a efetividade de suas ações, logo, a American Academy of Nursing criou uma lista “Twenty-Five Things Nurses and Patients Should Question” traduzido em português para “Vinte e cinco ações que enfermeiros e pacientes deveriam questionar”.

Alguns desses questionamentos sobre práticas comumente realizadas incluem:

  • Não utilizar restrições físicas em pacientes idosos hospitalizados: restrições físicas aumentam o risco de complicações e até de morte. Cuidados seguros e de qualidade dependem de uma equipe multiprofissional que antecipe, identifique e solucione as principais necessidades. Quando a equipe dos profissionais envolvidos no cuidado está ciente desses riscos e a instituição apoia essas decisões, a implementação de uma cultura que não restrinja os pacientes torna-se possível;
  • Não acorde o paciente para cuidados de rotina, a menos que a condição do paciente exija: estudos evidenciam que a privação do sono afeta de forma negativa o organismo do paciente. A abstenção de sono afeta também a capacidade realizar as atividades físicas e pode causar delirium, depressão e outras condições psiquiátricas;
  • Não mantenha ou realize sondagem vesical em um paciente, a menos que exista uma indicação específica: As infecções do trato urinário associadas ao cateter vesical estão entre as infecções mais comuns associadas aos cuidados de saúde nos Estados Unidos. O número de infecções pode ser reduzido desde que haja remoção do cateter assim que possível ou a indicação do procedimento somente se necessário;
  • Não utilize soluções a base de Aloe Vera para prevenir ou tratar radiodermite: esse tipo de lesão causada em tratamentos radioterápicos pode causar dor e prurido e afeta negativamente a qualidade de vida dos pacientes. Muitos profissionais ainda recomendam o uso de aloe vera, no entanto, alguns estudos revelaram que esses produtos são ineficazes para tratar e podem até piorar as lesões;
  • Pacientes com câncer devem ser aconselhados a praticar atividade física e exercícios durante e após o tratamento para controle de fadiga e outros sintomas: estudos demonstraram que exercícios supervisionados e proporcionais devem ser incentivados, em contraste com as orientações tradicionais de repouso, exercícios de resistência e aeróbico podem ser seguros e eficazes na redução de sintomas como: ansiedade, depressão e fadiga em várias fases do tratamento do câncer;
  • Não administrar oxigênio suplementar para aliviar dispneia em pacientes com câncer avançado que não apresentem hipóxia: a oxigenoterapia suplementar é comumente prescrita para aliviar a dispneia em pessoas com doença avançada, apesar dos níveis de oxigênio arterial dentro dos limites normais, e tem sido vista como tratamento padrão. O uso de oxigênio para tratar dispneia sem hipóxia foi revelado como ineficaz, no entanto, intervenções associadas ao uso de opioides em pequenas doses demonstraram eficácia no controle desse sintoma;
  • Não administrar medicações para prevenir ou tratar delirium sem primeiro avaliar, investigar, remover ou tratar as causas subjacentes do delirium: o delirium é uma condição que frequentemente tem uma causa tratável. Muitas medicações também estão associadas ao desenvolvimento de delirium, portanto a indicação de medicações se necessário devem ser evitadas antes de avaliação e tratamento da causa principal. Além disso, devido ao potencial de dano e falta de evidências suficientes que apoiem a segurança e eficácia das medicações antipsicóticas para a prevenção e tratamento do delirium, esses medicamentos devem ser administrados apenas na menor dose efetiva, pelo menor tempo em pacientes que estão severamente agitados e / ou em risco de se machucar. Em termos de prevenção de delirium, recomenda-se que os sistemas de saúde implementem intervenções multiprofissionais e não farmacológicas;
  • Evitar a remoção completa com lâmina ou navalha de cabelos e pelos em pacientes que serão submetidos a procedimentos cirúrgicos: a recomendação é que se evite a raspagem completa dos pelos com lâmina ou navalha, caso seja necessário os pelos devem ser removidos de outras maneiras. A remoção com navalha de pelos e cabelos no local da cirurgia está associado a um aumento da taxa de infecções devido a microtraumas e abrasões na pele. As infecções pós-operatórias de feridas aumentam os custos e o tempo de internação hospitalar. Um estudo que analisou 23.649 feridas cirúrgicas, encontrou uma taxa de infecção de 2,3% para locais cirúrgicos raspados com navalha, 1,7% para locais onde os pelos foram cortados e 0,9% quando não houve remoção de pelos. Além disso, a ideia de remover cabelos e pelos pode afetar a imagem corporal do paciente.

Existem outras ações comuns que foram questionadas e podem ser encontradas no site da Choosing Wisely. A ideia principal da campanha não é estabelecer decisões ou excluir práticas, mas estimular o debate sobre quais as melhores escolhas para o paciente e que beneficiem também o sistema de saúde na diminuição de custos.

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Autor:

Referências bibliográficas:

  • American Academy of Nursing. Twenty-Five Things Nurses and Patients Should Question. [Internet]; 2018; [citado em novembro de 2019].
  • Choosing Wisely. American Academy of Nursing Announces Five New Recommendations for the Choosing Wisely Campaign. [Internet]; 2018; [citado em novembro de 2019].
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Publicado por
Paula Damaris Chagas Barrioso

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