Cirurgia

Cirurgia bariátrica pode ter melhor eficácia que tratamento clínico

Tempo de leitura: 3 min.

A cirurgia bariátrica pode ser mais eficaz do que o uso isolado de medicamentos no tratamento de pacientes com obesidade, hipertensão e diabetes tipo 2 a longo prazo, indica os resultados de um estudo brasileiro.

Segundo essa pesquisa, a cirurgia bariátrica foi responsável pela remissão da hipertensão em 40,9% dos pacientes operados avaliados após três anos. A remissão foi de apenas 2,5% nos pacientes submetidos apenas ao tratamento clínico.

O estudo Gateway, que foi apresentado recentemente no Congresso da Associação Americana de Cardiologia (AHA 2019), realizado na Filadélfia, nos Estados Unidos, também constatou que 72,7% dos pacientes operados reduziram em, pelo menos, 30% a quantidade de medicações que utilizavam antes da cirurgia.

Já no grupo que do tratamento clínico, apenas 12,5% dos pacientes conseguiram reduzir o número de medicações, sendo que na média esse grupo terminou o terceiro ano tomando três vezes mais medicações anti-hipertensivas, cinco vezes mais estatinas para o controle do colesterol e oito vezes mais remédios para o diabetes, comparado ao grupo cirúrgico.

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Estudos sobre cirurgia bariátrica

Participaram 100 pacientes voluntários: metade foi submetida à cirurgia de redução do estômago (Bypass gástrico) e a outra metade continuou com o tratamento clínico.

“Conseguimos minimizar a não aderência ao tratamento, tendo em vista que quanto mais remédios os pacientes precisam tomar, menor é a adesão ao tratamento. A cirurgia reduz a necessidade de medicações em mais de 70% dos pacientes”, conta animado o cirurgião bariátrico Carlos Aurélio Schiavon, coordenador do estudo Gateway, que foi realizado no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo.

Além do controle da pressão arterial, o tratamento cirúrgico demonstrou melhores resultados em todos os parâmetros metabólicos e inflamatórios.

“Após três anos de monitoramento, os pacientes operados apresentaram excelentes resultados no controle da glicemia, que reduziu 14%, do colesterol LDL, 29%, dos triglicérides 47% e 28% do IMC em relação à fase pré-operatória”, apontou Carlos Aurélio Schiavon.

Outro fator analisado pelo grupo de pesquisadores foi a diminuição da pressão arterial durante a noite, o que representa menor risco cardiovascular. Os médicos responsáveis pelo estudo continuam a acompanhar os pacientes periodicamente.

“Esses resultados se somam aos grandes estudos mundiais que mostram os enormes benefícios da cirurgia bariátrica e metabólica, transcendendo o resultado da perda de peso e resultando na remissão do diabetes tipo 2, da hipertensão arterial, entre outros aspectos”, declarou o médico Marcos Leão Vilas Bôas, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

O especialista disse ainda que os benefícios sobre o controle da pressão arterial evidenciados no Gateway explicam a razão pela qual a cirurgia bariátrica leva a uma redução tão significativa nos índices de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade.

O estudo foi publicado no início do ano na revista médica científica Circulation, uma das mais reconhecidas publicações do gênero nos Estados Unidos e no mundo.

Hipertensão

A hipertensão é uma das principais causas de morte no mundo e atinge entre 20% e 35% da população adulta na América Latina.

De acordo com o cardiologista, Luciano Drager, participante do estudo, a obesidade aumenta em até quatro vezes as chances de uma pessoa ser hipertensa e de ter um AVC, infarto, problemas renais e diabetes tipo 2.

Ele alerta que, mesmo com a remissão da hipertensão, os pacientes devem monitorar a enfermidade. “Precisamos lembrar que a hipertensão não apresenta sintomas, é uma doença silenciosa”, reforça.

Leia também: Condutas anestésicas para cirurgia bariátrica

Obesidade e hipertensão

A pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2018, divulgada pelo Ministério da Saúde, apontou que 41,6 milhões de pessoas, ou 19,8% da população brasileira, estão acima do peso. Destes, um terço, ou 13,6 milhões, possuem IMC acima de 35 e são elegíveis ao tratamento cirúrgico da obesidade.

No entanto, o número total de cirurgias realizadas no ano passado, cerca de 60 mil cirurgias, representa 0,47% da população obesa elegível à cirurgia bariátrica e metabólica no país

Outro fator apontado pela pesquisa Vigitel é que houve um aumento na quantidade de pessoas diagnosticadas com hipertensão arterial. Em 2006, 22,5% pessoas tinham diagnóstico médico de hipertensão. Em 2018, o índice subiu para 24,7%. No Brasil, o custo da obesidade chega a 2,4% do PIB e está estimado em R$ 84.3 bilhões/ano.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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Referências bibliográficas:

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Publicado por
Úrsula Neves

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