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Cirurgia cardíaca: novas perspectivas após o acesso sem pré-requisito

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Em maio de 2017, a Comissão Nacional de Residência Médica, em concordância com propostas há muito levantadas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV), eliminou por vez a necessidade de o medico cursar previamente os dois anos de pré-requisito em cirurgia geral para fazer cirurgia cardíaca, exigência que ainda permanece para a grande maioria das subespecialidades cirúrgicas.

Hoje vamos discutir o que essa mudança já acarretou, e ainda o que se pode esperar de suas repercussões.

A própria SBCCV já há alguns anos vem coletando opiniões de seus associados sobre a necessidade da manutenção do pré-requisito em cirurgia geral, sempre tendo um grande reforço da parte dos cirurgiões já formados e consolidados no mercado, da grande importância deste primeiro contato após a formação.

É inevitável dizer que o ensino médico no Brasil ainda deixa muitos alunos despreparados ou inseguros para a difícil transição acadêmico-médico, o que já é um desafio de peso inerente à própria profissão. Porém, ao se considerar uma especialidade de tamanho nível de complexidade, de grande risco cirúrgico, altos níveis de minúcia e morbimortalidade, este peso ganha ainda mais importância.

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O principal argumento dos cirurgiões já formados para a necessidade do pré-requisito em cirurgia geral foi a maturação profissional e técnica. Segundo os profissionais, os dois anos de trabalho em especialidade de grande rotatividade, volume de pacientes e procedimentos, preceptoria por vezes bastante exigente, torna o médico recém-formado mais habilidoso, ágil, resiliente e implementa sua capacidade de raciocínio fisiopatológico entre a doença clínica e a cirúrgica.

Do outro lado, a favor da quebra do pré-requisito, temos opiniões principalmente de cirurgiões recém-egressos e acadêmicos que cogitam a especialidade.

Dentre os argumentos destes grupos, constam a já longa formação em CCV, até então de quatro anos – além dos dois anos de pré-requisito -, o principal fator de desistência da classe acadêmica. Em contrapartida, para os que cogitavam, porém não se identificavam, com a cirurgia geral ou não lhe convinham os seis anos de formação, existia a alternativa de se formar em um centro credenciado pela SBCCV mediante especialização: a mesma formação seria ofertada, apenas com a diferença de não se obter automaticamente o título de cirurgião pelo MEC, mas apenas pela sociedade, após os processos seletivos para obtenção do certificado.

Foram considerados também a grande disparidade entre as técnicas operatórias, ao se comparar procedimentos da cirurgia geral e da cardíaca; a grande expectativa de escassez de cirurgiões cardiovasculares no país em uma média de 10 anos; e o previsto aumento da duração do programa de cirurgia geral para três anos.

Em consideração a todos os fatores, em maio de 2017, a SBCCV oficializou a entrada direta na especialidade, reforçando principalmente as idéias de:

“Dentre as razões para abolir o pré-requisito em Cirurgia Geral listamos:

    1. O Programa de Cirurgia Geral, a partir de 2018 terá a duração de três anos.
    2. Havia uma grande evasão de candidatos à Cirurgia Cardiovascular após cursar os dois anos de Cirurgia Geral
    3. Há a necessidade de se aprender novas competências e isto exige tempo.
    4. Vários estudos demonstram que com a diminuição da procura pela

especialidade, haverá falta de cirurgiões cardiovasculares nos próximos dez anos, sendo este o principal fator desencorajador.

  1. As habilidades aprendidas em Cirurgia Geral também podem ser adquiridas com o treinamento direto em Cirurgia Cardiovascular.
  2. Cirurgiões treinados com (CNRM) ou sem (SBCCV) o pré-requisito em Cirurgia Geral têm igual desempenho quando oriundos de Serviços de excelência.

Com base nestes argumentos, a SBCCV lutou pela abolição deste pré-requisito durante muito tempo. A CNRM, calcada nas modificações sofridas pela Cirurgia Cardiovascular na última década concordou com nossa argumentação e, a partir de 2018, não mais será exigido pré-requisito em Cirurgia Geral, passando nosso Programa a ter acesso direto, podendo ser iniciado logo após a graduação em Medicina. Como há necessidade de aprendizado de novas habilidades e o tempo de formação de um cirurgião é longo, o novo Programa em Cirurgia Cardiovascular será de cinco anos.”

A ideia passa a ser de ter-se uma formação mais direcionada e específica em cirurgia cardiovascular e seus aspectos clínicos, maior desenvolvimento de habilidades e técnicas operatórias, e maior oportunidade de acesso a subespecializações e fellows ainda durante a formação. Foi implementada uma ementa com as expectativas e progressão da curva de ensino desejadas durante a progressão a cada ano do programa de residência, bem como o que se espera do futuro cirurgião a cada novo passo na formação.

E você, é a favor ou contra o acesso direto em CCV? O que podemos esperar de mudanças na formação na especialidade nos próximos anos?

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Autor:

Michelle Costa Galbas

Bacharelado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais ⦁ Residente de Cirurgia Cardíaca em Curitiba/PR

Referências:

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