Colangite esclerosante primária: impacto do ácido ursodesoxicólico a longo prazo

Como se trata da única opção de medicamento, o ácido ursodesoxicólico (AUDC) é normalmente utilizado para o tratamento desses pacientes.

A colangite esclerosante primária (CEP) é uma doença colestática que cursa com inflamação crônica dos ductos biliares, levando a uma estenose progressiva e destruição dos mesmos, podendo acarretar cirrose hepática. Apesar de sua provável etiopatogenia autoimune, o uso de agentes imunossupressores não demonstrou eficácia em seu tratamento. O uso de ácido ursodesoxicólico (AUDC) é o principal tratamento para essa condição.

Todavia, não há evidências definitivas de seu benefício em longo prazo. Os estudos mostram que uma redução ou normalização dos níveis séricos de fosfatase alcalina (FA) está associada a um melhor prognóstico nos pacientes com CEP, sendo esse o motivo da recomendação do uso de AUDC nessa condição. O uso do AUDC é controverso nas diretrizes atuais, sendo recomendado pela Associação Europeia de estudos do fígado em doses de 13 a 15 mg/kg/dia.

Leia também: Colangite esclerosante primaria: como identificar?

Colangite esclerosante primária impacto do ácido ursodesoxicólico a longo prazo

Novo estudo

Um estudo recentemente publicado no Journal of Gastroenterology avaliou se o uso de AUDC está associado à melhora nos resultados em longo prazo na CEP.

Métodos

Foi realizado um estudo coorte, retrospectivo. Como a CEP é uma doença rara, um estudo prospectivo levaria um longo prazo até se avaliar efeitos em longo prazo da medicação.

Foram utilizados dados retrospectivos do registro japonês, incluindo 435 pacientes com CEP, com dados adequados sobre o diagnóstico, protocolo de tratamento, período de acompanhamento e desfechos.

A partir desses dados, foi realizada associação entre o tratamento com AUDC e morte por todas as causas ou transplante hepático através de métodos estatísticos.

Dados dos pacientes e tratamento

Dos 435 pacientes registrados na coorte, 325 apresentavam dados completos, sendo então incluídos no estudo.

A média de idade dos pacientes foi de 45 anos, sendo 58% do sexo masculino. Do total, 37% dos pacientes eram sintomáticos ao diagnóstico. Os níveis séricos de FA ao diagnóstico foram de duas vezes LSN, em média. Doenças inflamatórias intestinais estavam presentes em apenas 35% dos pacientes. Todos os pacientes foram diagnosticados com CEP de grandes ductos.

O ácido ursodesoxicólico (AUDC) foi utilizado em 278 pacientes (86%), sendo em 202 (62%) em monoterapia e em 76 (23%) em combinação com bezafibrato.

Resultados

A média de acompanhamento desde o diagnóstico foi de 5,1 anos. Durante o acompanhamento, 81 pacientes atingiram melhora clínico-laboratorial, 57 pacientes morreram e 24 pacientes foram submetidos ao TH (7%).

A incidência de morte ou TH no grupo sem tratamento foi significativamente maior do que nos outros grupos de tratamento, sendo de 42% (p = 0,014).

A análise primária com o modelo de regressão de Cox demonstrou uma associação significativa entre o tratamento com AUDC e uma melhora na sobrevida livre de TH – HR = 0,43, IC 95% 0,25–0,75, p = 0,020.

O uso combinado de bezafibrato não trouxe diferenças significativas na mortalidade ou sobrevida livre de TH.

Saiba mais: Associação de bezafibrato e sobrevida livre de transplante na colangite biliar primária

Estratificação de risco na presença de DII

Entre os 325 pacientes, a DII estava presente em 114. A associação significativa de AUDC observada em toda a coorte foi semelhante no subgrupo de pacientes com DII (HR = 0,25, IC 95% 0,09–0,71, p = 0,009).

Limitações do estudo

As datas de início (ou término) de AUDC e BZF não foram registradas no conjunto de dados. A duração da exposição ao tratamento pode ter um impacto crucial na eficácia a longo prazo.

As doses de AUDC também não foram registradas, embora 600–900 mg/dia seja comumente a dose prescrita no Japão.

O tamanho da amostra pode ter sido insuficiente, prejudicando assim as análises.

O tratamento combinado com BZF pode ter um impacto significativo na sobrevida livre de TH, o que seria demonstrado caso mais participantes fossem incluídos.

As respostas bioquímicas ao tratamento não foram registradas no banco de dados, o que pode ter um impacto significativo no resultado.

Conclusões

O estudo demonstrou que o tratamento com AUDC foi significativamente associado à melhora da sobrevida livre de TH na CEP, sendo o primeiro a investigar os benefícios em longo prazo dessa medicação em uma coorte de grande escala. Os estudos prospectivos prévios sugeriam benefício clínico, todavia com número de participantes pouco expressivo.

É improvável que um estudo prospectivo, randomizado, controlado por placebo, bem projetado de AUDC seja conduzido no futuro, porque a CEP é uma doença de progressão lenta, levando vários anos a décadas para atingir desfechos rígidos.

Além disso, o AUDC é um medicamento antigo, barato e sem patente e as empresas farmacêuticas não têm interesse em um estudo em larga escala.

Atualmente, o ácido ursodesoxicólico (AUDC) é a única opção disponível na CEP, sendo prescrito para esses pacientes com objetivo de melhora bioquímica e melhora da sobrevida livre de transplante hepático em longo prazo.

Mensagem prática

É importante que esses pacientes sejam acompanhados em centros de referência para que mais estudos como esse possam ser realizados.

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Referências bibliográficas: Ícone de seta para baixo
  • Arizumi T, et al. Ursodeoxycholic acid is associated with improved long-term outcome in patients with primary sclerosing cholangitis. J Gastroenterol. 2022 Nov. DOI: 10.1007/s00535-022-01914-3.

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