Cirurgia

Colecistectomia: videolaparoscopia 2D ou 3D?

Tempo de leitura: 3 min.

O uso da videolaparoscopia é uma realidade nos diversos serviços cirúrgicos distribuídos pelo país. Mesmo os equipamentos mais antigos e com imagens com menores definições são capazes de proporcionar o benefício da cirurgia minimamente invasiva. No entanto, à medida que a complexidade dos procedimentos aumenta, também é necessário a utilização de equipamentos de melhor capacidade gráfica.

Assim como nos casos das televisões domésticas, ultimamente não se admite o uso de equipamentos que não sejam de alta resolução (HD) para a realização de procedimentos cirúrgicos. A tecnologia 4k tem substituído gradativamente os vídeos HD, e em paralelo as opções de imagem tridimensional (3D), que apesar de ser uma rotina na tecnologia robótica, ainda não se estabeleceu como padrão na videolaparoscopia.

Estudo publicado World Journal of Surgery, comparou o uso de tecnologia 3D e 2D, em procedimentos de colecistectomia numa mesma instituição.

Leia também: Colecistite: Quando devo realizar colecistectomia após drenagem da vesícula biliar?

Material e Métodos

Foram analisadas 241 colecistectomias consecutivas realizadas e sem seleção de pacientes. Estudo retrospectivo com dados de prontuário eletrônico, onde inicialmente apenas se realizava colecistectomias 2D e após a aquisição do equipamento 3D, todos os procedimentos foram realizados com esta nova tecnologia. Nenhum cirurgião recebeu treinamento específico para a tecnologia 3D.

O desfecho principal a ser analisado foi lesão iatrogênica de vias biliares, detectados no intra ou pós-operatório, e como desfechos secundários a queda dos níveis de hemoglobina, perfuração da vesícula, tempo para alta e complicações dentro 30 dias.

Resultados

Dos 241 pacientes incluídos na amostra, 96 (39,8%) realização colecistectomia por colecistite aguda. Lesão de vias biliares foi detectada em 5 pacientes (2,1%) e perfuração acidental da vesícula durante o procedimento em 36 (14,9%).

Ao comparar o grupo 3D (n=130) com o grupo 2D (n=111), houve mais casos de colecistite aguda no grupo 3D: 49,9% x 28,8% (p=0,001) e o tempo médio para a realização do procedimento 3D foi maior 65,4 17,8 min x 5920,1 (p=0,003). Não houve diferença entre o tempo de internação hospitalar, reoperação, taxa de conversão, perfuração de vesícula ou mortalidade. Lesão de vias biliares foi significativamente maior no grupo 2D 4,5% x 0% (p=0,018).

Saiba mais: ACSCC 2020: Como abordar dificuldades técnicas durante colecistectomia videolaparoscópica?

Discussão

O presente estudo sugere que a tecnologia 3D pode diminuir o número de lesões de vias biliares durante colecistectomias. Um grande estudo de 2003, refere que a taxa de lesões de vias biliares é de 0,5%, porém levou em consideração todas as modalidades cirúrgicas. Também foi relatado que complicações biliares e extravasamento de bile são mais comuns em cirurgias videolaparoscópicas, com índices variando de 1,2 a 4%. No resultado deste trabalho a taxa elevada de complicações biliares, pode ser justificada por casos desafiadores operados em uma amostra pequena.

Apesar de alguns outros estudos sugerirem que a tecnologia 3D possa diminuir o tempo cirúrgico, isto não foi encontrado nos resultados, porém foi capaz de diminuir erros durante o procedimento. Podemos especular que cirurgiões experientes já possuem sua rotina determinada na realização de procedimentos 2D e, portanto, o uso da tecnologia 3D, pode não alterar a performance cirúrgica.

Conclusão

Os achados sugerem que o uso de equipamentos 3D pode diminuir as lesões iatrogênicas de vias biliares.

Para Levar Para Casa

Toda nova tecnologia requer um período de adaptação por parte da equipe médica. Utilizar os primeiros casos de uma instituição e comparar com os resultados de uma tecnologia já consagrada cria limitações a conclusões mais amplas.

A tecnologia 3D é excelente, porém ainda não sabemos se será aceita de forma irrestrita. Os videolaparoscópicos 3D requerem utilização de óculos adicionais, dificuldade de angulação da imagem e outras desvantagens que podem dificultar sua aceitação.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Tauriainen A, Biancari F, Tauriainen T. Comparative Analysis of Three-Versus Two-dimensional Imaging in Laparoscopic Cholecystectomy. World J Surg. 2021;45:1370-1375. doi: 10.1007/s00268-020-05934-z
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Publicado por
Felipe Victer

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