Medicina de Família

Combate à transmissão vertical do HIV — Dia Mundial da Luta Contra a AIDS

Tempo de leitura: 4 min.

Em tempos de pandemia algumas doenças podem às vezes ficar esquecidas. Mas elas não dão trégua. Assim, revisitamos alguns pontos-chave para cuidado em situações específicas no manejo do HIV durante a gravidez e parto. No final de agosto de 2021 foi publicado um guideline pela Johns Hopkins University que trouxe um bom resumo de boa práticas para prevenção e diagnóstico do HIV durante o pré-natal e condução na prevenção de transmissão vertical.

Leia também: CROI 2021: prevenção de transmissão vertical de HIV – resultados do estudo DOLPHIN

Diagnóstico oportuno do HIV e o início mais precoce da terapia antirretroviral são condições cruciais para evitar a transmissão vertical e manter pacientes e seus filhos saudáveis. Assim a proposta de um guideline visa lembrar de:

  • Garantir a triagem universal de HIV no início da gravidez, durante o terceiro trimestre e durante o trabalho de parto para aquelas pacientes que não tenham um status HIV negativo documentado;
  • Incentive no terceiro trimestre a testagem de sífilis e HIV;
  • Incentive o teste de HIV para pacientes grávidas e no pós-parto que apresentam sintomas de HIV agudo;
  • Aumente a captação de pacientes com desejo de profilaxia pré-exposição entre pacientes grávidas que não apresentam teste positivo para HIV, mas apresentam alto risco de contrair HIV durante a gravidez e o pós-parto.

Legislação

  • Importante ponto é discutir com a paciente que descobriu recentemente ser portadora da notificação de seu parceiro;
  • Testagem universal: fundamental para o bom controle e prevenção de transmissão vertical. Incluindo aquelas que comparecem em trabalho de parto e que não tenham documentação sobre seu status sorológico no pré-natal. Realizar teste rápido imediatamente com consentimento informado e ter o resultado o mais breve possível;
  • A testagem antes demorava até 12 horas para resultado final, hoje (nos EUA) tem obrigatoriedade legal de apresentar o resultado em até 60 minutos após o consentimento informado aceito;
  • Diagnóstico complementar deve ser oferecido para pacientes HIV positivo no teste rápido em gestantes;
  • Se a paciente nega-se a realizar o teste rápido em trabalho de parto, sangue fetal é obtido com ou sem seu consentimento para avaliação de status sorológico do recém-nascido com resultado disponível em tempo não maior que 12 horas;
  • Profilaxia antirretroviral: o hospital deverá garantir o recebimento da profilaxia antirretroviral tanto à gestante/parturiente e a seu recém-nascido.

Screening universal

  • No screening universal utiliza-se teste de 4ª geração;
  • Pacientes com testes positivos devem ser referenciadas a uma unidade de referência em cuidados HIV (lá nos EUA a média é de até 3 dias para essa consulta ocorrer — ambulatório de infectologia);
  • Para pacientes com testagem negativa, um novo teste deve ser feito no 3º trimestre, antes de 36 semanas (idealmente entre 28 e 32 semanas);
  • Para aqueles pacientes com quadros agudos sugestivos de HIV a testagem deve ser imediata, mesmo com teste negativo durante a atual gravidez;
  • Se um teste de RNA detectar valor acima de 5.000 cópias/ml, o clínico deverá fazer diagnóstico de suspeição mesmo com teste sorológico não reagente ou indeterminado;
  • O screening para clamídia, sífilis e gonorreia deve ser oferecido às pacientes suscetíveis na janela de 28 a 32 semanas no pré-natal.

Profilaxia pré-exposição

  • Se uma paciente gestante solicitar profilaxia pré-exposição ela deve ser encaminhada para receber a medicação após a avaliação da situação de possível contágio ou comportamento que vá entrar em contato com HIV. A profilaxia não é contraindicada na gravidez nem durante o aleitamento materno.

Ouça mais: Exposição vertical ao HIV: caso clínico e principais cuidados [podcast]

Pontos-chave:

  • Screening universal das gestantes no pré-natal;
  • Retestagem no terceiro trimestre (de modo ideal entre 28 e 32 semanas);
  • Utilização de terapia antirretroviral nos casos positivos, casos com clínica de HIV agudo com mais de 5.000 cópias/ml (mesmo com teste não reagente ou indeterminado);
  • Testagem de parceiros;
  • Comunicação, em comum acordo com a paciente, ao parceiro sexual;
  • Realização de teste durante o trabalho de parto;
  • Realização de profilaxia durante o trabalho de parto mesmo com uso de terapia antirretroviral e contagem baixa de cópias.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

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Publicado por
João Marcelo Martins Coluna

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