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Como abordar o paciente com ideação suicida na atenção primária?

Colunistas, Medicina de Família
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Tempo de leitura: 3 minutos.

O suicídio é um problema complexo de saúde pública que envolve gestores, famílias, escolas, universidades e igrejas. Ao imaginarmos o comportamento suicida, tendemos a estereotipar pessoas com humor deprimido, no entanto, apesar da importância da depressão nesse contexto, o risco de suicídio deve ser avaliado de forma ampla e não limitada a ciclos de vida, classe econômica ou grupos.

Não há dúvidas que a existência de transtornos mentais diagnosticados se constitui como um dos principais fatores relacionados. Dessa forma, o diagnóstico de depressão, transtornos de personalidade, esquizofrenia e alcoolismo por si só são situações-problema que associados a fatores sociais elevam o risco de comportamento suicida.

A Atenção Primária à Saúde, por acompanhar a população em seus vários ciclos de vida, em rearranjos de constituição familiar e situações de vulnerabilidade, torna-se o principal vínculo e acesso do paciente com comportamento suicida ao sistema de saúde. Todavia, na prática a maioria das equipes da Estratégia Saúde da Família e da Atenção Básica delegam a abordagem aos serviços de pronto-atendimento e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), provavelmente são resultados da ausência de políticas regionais de capacitação e suporte técnico e científico.

Estado mental suicida

Apesar dos modelos biomédicos de atenção à saúde estigmatizarem pacientes em estado mental suicida apenas como “pacientes suicidas”, novos modelos de atenção concordam que o mais correto seria a ideia de algo momentâneo e limitado temporalmente, uma vez que nem todos os pacientes possuem pensamentos suicidas constantemente. Na verdade, uma abordagem eficaz do estado mental suicida objetiva a prevenção do risco à vida, mas também redução dos estigmas que o próprio paciente adquire em relação a si mesmo.

Dessa maneira, o estado mental suicida pode ser caracterizado pela ambivalência que diz respeito à confusão de sentimentos, o desejo de viver e morrer se contrapõe, isto é, o indivíduo visualiza a morte como único método terapêutico da dor, entretanto, ainda mantém o desejo de viver. Para isso, o apoio emocional e o tratamento adequado do problema-base reduz o risco de suicídio.

Outra característica é a impulsividade, uma vez que o desejo de cometer suicídio é um impulso transitório desencadeado por eventos negativos relacionados à vida. Todavia, a recorrência do impulso se constitui como risco iminente, para isso auxiliar numa perspectiva otimista da vida ajuda ao profissional de saúde a ganhar tempo e controlar os fatores. Por fim, a rigidez dos pensamentos é outra peculiaridade desse estado mental, pois não conseguem visualizar algo além do sofrimento.

Como avaliar o risco?

A equipe de saúde deve ter alta sensibilidade na suspeição de um comportamento suicida, baseados nos principais fatores de risco, sendo necessário, portanto, avaliar os seguintes aspectos:

  • Estado mental atual
  • Diagnósticos prévios
  • Uso de medicamentos
  • Uso de álcool e outras drogas
  • Pensamentos sobre morte e suicídio
  • Plano suicida atual (como se chegou a esse plano, como se planeja realizar e quando o ato será realizado)
  • Apoio social (família, amigos, escola, instituições religiosas, grupos comunitários)

É conveniente lembrar que perguntar sobre pensamentos de suicídio não estimula ninguém ao ato, e é obrigação de todo profissional de saúde para que o sujeito possa falar abertamente sobre o assunto.

Questões úteis

• Como perguntar? (Você se sente triste? Você sente que ninguém se preocupa com você? Você sente que a vida não vale mais a pena?)
• Quando perguntar? Quando a pessoa sente-se compreendida e confortável para falar sobre seus sentimentos.
• O que perguntar?

  1. Investigar se existe um plano definido para cometer suicídio.
  2. Investigar se a pessoa tem os meios para o ato.
  3. Descobrir se a pessoa fixou uma data.

Como abordar?

Baixo risco

Se o indivíduo teve alguns pensamentos suicidas de forma não recorrente, mas não fez nenhum plano. O que fazer? Oferecer apoio emocional, trabalhar sobre os sentimentos suicidas, focalizar nos aspectos positivos da pessoa, oferecer atendimento especializado, manter contato em intervalos regulares.

Médio risco

Se o indivíduo tem pensamentos e planos, mas não tem planos de cometer suicídio imediatamente. O que fazer? Oferecer apoio emocional, trabalhar sobre os sentimentos suicidas, focalizar nos aspectos positivos da pessoa e valorização da vida, explorar alternativas ao suicídio, realizar um contrato para que o indivíduo não cometa suicídio até uma data de retorno, oferecer atendimento em saúde mental e entrar em contato com a família, amigos e colegas, além de reforçar seu apoio.

Alto risco

Se o indivíduo tem um plano, possui os meios para concretizar, e planeja fazê-lo imediatamente. O que fazer? Permanecer próximo a pessoa, comunicar-se de forma empática com a pessoa e remover as pílulas, faca, arma, inseticida, etc.; estabelecer um contrato; realizar atendimento em saúde mental e hospitalização; informar a família e reafirmar seu apoio.

Sendo assim, não há justificativa de abstermos de abordar em nossa prática diária esse importante problema de saúde pública. Torna-se, assim, fundamental a criação de protocolos loco-regionais afim de facilitar o acolhimento, atendimento e fluxo desses pacientes na rede de saúde e reduzir os estigmas ainda prevalentes na equipe e comunidade.

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Autor:

Referências;

  • STELLITA-LINS, Carlos ; FORTES, S. L. C. L. ; MACHADO, H. S. V. ; PAIVA, M. B. P. ; ROCHA, H. A. ; MINOZZO, F. ; TEIXEIRA, D. S. ; CARAN, L. G. ; LIMA, L. . Avaliação do Risco de Suicídio e sua Prevenção Coleção Guia de Referência Rápida, Versão profissional. Série F. Comunicação e Educação em Saúde. 2016.

3 comments

  1. Avatar
    Tiago Spolador

    Olá, Dr Djanino. Tenho uma dúvida. O senhor disse que em caso de risco mesio ou alto de suicídio, o médico deve informar a família. Isso não seria uma quebra do segredo médico? Além disso, se o paciente souber que a família foi informada, ele não irá perder a confiança no medico, passando a não querer mais se abrir com o médico?

    • Avatar

      Tiago se o paciente é um perigo para si ou para outras pessoas, podemos e devemos sim avisar a família, mesmo correndo o risco do paciente não querer mais ser atendido pelo profissional! É sempre melhor que o paciente permita, mas caso não, podem sim contatar os familiares e outros profissionais como psicólogo…

    • Djanino Fernandes
      Djanino Fernandes

      Olá Tiago, segundo Código de Ética Médica no Capítulo IX

      SIGILO PROFISSIONAL

      É vedado ao médico:

      Art. 73. Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.

      Respondendo sua pergunta: Sim, seria quebra do sigilo profissional. No entanto, a partir da avaliação clínica você irá definir se aquela situação se enquadra em motivo justo para quebra do sigilo. Para isso, você pode explicar ao paciente a necessidade de apoio familiar, podendo convocar a família até que ele se expresse em relação aos seus sentimentos. Colocar isso para o paciente de forma empática é importante e a maneira como se dará a comunicação com a família também. No geral, é um risco da relação médico paciente, mas na maioria das vezes, os pacientes sentem-se agradecidos pela ajuda em dizer coisas que eles não conseguem dizer sozinhos.

      Espero que tenha respondido. Qualquer dúvida, estamos à disposição.

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