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insuficiência androgênica

Como é o manejo da insuficiência androgênica na mulher?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Pouco conhecida e de difícil diagnóstico, a insuficiência androgênica na mulher ainda sofre bastante preconceito, até mesmo entre as mulheres. Existem períodos onde essas queixas são mais comuns como: na gestação, pós-parto, pós-menopausa. Em idade reprodutiva a queixa não é tão frequente, mas pode ocorrer.

Os androgênios têm uma ação essencial na sexualidade feminina, tendo um papel muito importante no desejo sexual, no humor, na energia e bem-estar. Além dos efeitos na sexualidade, eles também têm papel importante no Sistema Nervoso Central, no córtex, no hipotálamo e sistema límbico, tendo ação em todo estado comportamental da mulher.

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Normalmente as mulheres com insuficiência androgênica sofrem com:

  • disfunção sexual
  • diminuição de pelos pubianos
  • fadiga
  • mal-estar
  • humor depressivo
  • perda de massa muscular
  • perda óssea em alguns casos
  • síndrome climatérica

O diagnóstico é preferencialmente clínico e não há evidências atuais da utilização de exames laboratoriais para seu diagnóstico. Uma força tarefa formada pelas principais sociedades médicas tanto da endocrinologia como da ginecologia, em 2014, e fizeram algumas recomendações importantes, sendo uma delas a não necessidade da realização de exames de laboratório para fechar o diagnóstico, além da não relação direta entre os níveis plasmáticos androgênicos, sinais e sintomas.

Então o que fazer?

Os andrógenos ovarianos e adrenais sofrem redução fisiológica a partir de 25 anos, esta queda é contínua e há redução mais acentuada dos andrógenos adrenais. Em mulheres na menopausa natural, pode ocorrer em alguns casos um hiperandrogenismo relativo pois a queda do estrógeno é cerca de 14 vezes maior que a queda dos andrógenos, muitas vezes com dosagens de andrógenos absolutos baixos nestas mulheres, tal queixa acontece com relativa frequência em nossos consultórios.

Há outras mulheres com risco de insuficiência androgênica:

  • Mulheres com falência ovariana prematura
  • Uso de medicações anti-androgênicas
  • Uso de contraceptivos orais. A produção de androgênio ovariano é suprimida pela contracepção hormonal.
  • Mulheres que fazem terapia de reposição hormonal via oral (diminuem LH e aumentam níveis de SHBG, assim diminuindo a fração livre dos andrógenos)
  • Uso crônico de corticosteroides (os glicocorticoides exógenos em doses farmacológicas, suprimem significativamente a síntese de precursores androgênicos suprarrenais).

Que outros efeitos a terapia androgênica pode exercer?

Efeitos no ganho de massa óssea e massa muscular também ocorrem com uso de testosterona, mas esta não deve ser usada somente para este fim, somente em casos específicos como desnutrição e alguns casos de sarcopenia.
Os níveis reduzidos de testosterona e seus precursores na pós menopausa podem contribuir para diminuição de massa magra com redução do metabolismo basal e do gasto energético.

O uso de testosterona e seus derivados vem sendo estudado com ação protetora nas células da mama, pelo efeito inibitório da testosterona no crescimento das células mamárias.

Há ainda um efeito da terapia androgênica no humor e bem-estar geral e até relação com diminuição de quadros depressivos. Há alguns estudos com evidências clínicas que estimulam o uso de terapia com androgênios em mulheres com sintomas depressivos e com alteração de humor, e outros mostrando a testosterona com efeito neuroprotetor em doenças degenerativas neurológicas.

E os efeitos colaterais?

Não são comuns quando a testosterona é utilizada de maneira racional e com acompanhamento médico, mas podem ocorrer: acne, aumento da oleosidade da pele, hipertrofia do clitóris, alteração do timbre da voz, calvície temporal e hirsutismo.
Os efeitos adversos são reversíveis na maioria das vezes com a suspensão do tratamento, é indicado a avaliação laboratorial de andrógenos, hemograma completo, enzimas hepáticas e perfil lipídico.

Quando usar?

As principais indicações do uso de testosterona em mulheres são na esfera sexual como diminuição de libido e prazer sexual, ou seja, mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD).

Transtorno de desejo sexual hipoativo (HSDD) é uma condição multifatorial comum que é caracterizada por uma diminuição no desejo sexual que causa desconforto pessoal acentuado e ou dificuldade interpessoal.

Quem não poderia usar?

Mulheres que planejam engravidar (risco de alteração no desenvolvimento sexual do feto), ou em idade reprodutiva sem uso de método anticoncepcional, mulheres que estejam amamentando, mulheres com acne com histórico importante de acne, mulheres com excessos de pelos, mulheres com problemas de queda de cabelo e mulheres com histórico de câncer relacionado a presença de hormônios sexuais.

Como tratar?

A via de administração transdérmica, vem sendo mais estudada, evitando o efeito de primeira passagem (metabolismo hepático) o que ocorre quando a droga é administrada por via oral, tendo sido mostrado excelentes resultados.

Pelas diretrizes do último guideline de 2014 fica definido que não há necessidade do uso concomitante de estrógenos ao uso de testosterona.

A administração por adesivos sempre é feita em doses diárias de 150 a 300mcg em gel transdérmico com excelentes resultados, apesar dos estudos não serem ainda consistentes.

Há uma grande dificuldade em conseguir iniciar terapia androgênica pela ausência de preparações ou opções destinadas pelos laboratórios farmacêuticos especialmente para este fim.

Conclusão

Mais estudos são necessários para estabelecer definitivamente qual a melhor conduta para mulheres com insuficiência androgênica, mas já há grupos indicando testosterona transdérmica para as pacientes com sintomas sexuais importantes.

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Referências:

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