Como evitar incontinência urinária na gestação?

Tempo de leitura: 3 min.

A incontinência urinária afeta milhões de brasileiros, principalmente mulheres, levando à piora da qualidade de vida, com grande prejuízo social, emocional e dificuldades no relacionamento uma vez que pode ter perda urinária durante o coito. Sua prevalência é subestimada, pois muitas vezes as pacientes não relatam o sintoma por acharem normal ou até por vergonha.

É uma patologia mais frequente pós-menopausa devido à redução de colágeno e de estrógeno com enfraquecimento da musculatura pélvica. Situações que levam a aumento da pressão intra-abdominal ou alteração da qualidade dos tecidos são fatores de risco para surgimento da incontinência urinária de esforço, como por exemplo número elevado de gestações, tabagismo, tosse crônica e obesidade. A via de parto vaginal, em uma revisão sistemática, mostrou dobro de risco de aparecimento de incontinência urinária em comparação com cesárea após início de trabalho de parto e triplo de risco se comparado com cesárea eletiva.

Leia também: Relatos de crianças com incontinência urinária sobre suas experiências 

Em mulheres jovens, a gestação é um dos principais fatores associados ao surgimento de incontinência urinária, devido ao grande volume uterino levando a aumento da pressão intra-abdominal principalmente no terceiro trimestre e também alterações hormonais com aumento de progesterona, relaxina responsável por frouxidão das articulações e redução de colágeno, há interferência na força e na função esfincteriana.

Estudo recente

Artigo publicado em dezembro na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia buscou avaliar a prevalência e possíveis fatores de risco mais associados à incontinência urinária em gestantes. Foi um estudo caso controle realizado pela PUC do Rio Grande do Sul em 2017 com avaliação de 70 gestantes entre 12-20 semanas, gestação de feto único e sem antecedente de partos prévios ou cirurgias pélvicas, diabetes crônico ou doenças neurológicas. Elas foram submetidas a questionário específico sobre sintomas urinários [ICIQ-UI SF], diário miccional de 3 dias e exame físico uriginecológico, incluindo a classificação de prolapsos (POP-Q), teste de esforço com volume residual e avaliação da musculatura de assoalho pélvico. Quando diagnosticadas com incontinência, essas pacientes eram encaminhadas à fisioterapia.

Saiba mais: Neuromodulação no tratamento da incontinência fecal

Enquanto alguns estudos relatam uma prevalência de incontinência urinária em gestantes de até 75% a depender da população e dos hábitos, neste estudo, a prevalência foi de 18,3% e o tabagismo foi o único fator com significância estatística encontrado com aumento de 8 vezes no risco de incontinência urinária nas gestantes, estando o sintoma presente em 57,1% das tabagistas e em apenas 14,3% das não fumantes. As pacientes incontinentes apresentaram maior média de IMC (33 kg/m2) enquanto as continentes 29,5kg/m2, esta diferença não teve diferença estatística, mas vai ao encontro dos dados da literatura que definem a obesidade um marcador de risco para incontinência urinária. Não houve diferença nos parâmetros de POP-Q e no diário miccional entre as gestantes com ou sem perda urinária.

Por que o tabaco aumenta tanto o risco de incontinência urinária?

O monóxido de carbono presente no cigarro interfere no transporte de oxigênio aos tecidos, levando à atrofia da musculatura. Além do próprio efeito irritativo da nicotina sobre o músculo detrusor. E outro motivo é que tabagistas apresentam tosse frequente, com constante aumento na pressão vesical e na musculatura pélvica, podendo desencadear danos à inervação dessa musculatura.

Mensagem prática

A presença de incontinência urinária deve ser sempre questionada em consulta pelo ginecologista e a redução de fatores de risco modificáveis como tabagismo e obesidade deve ser sempre estimulada. O encaminhamento à fisioterapia para exercícios pélvicos na gestação pode levar a melhora dos sintomas e melhor qualidade de vida para essas mulheres.

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Referências bibliográficas:

  • Caruso FB et al. Risk Factors for Urinary Incontinence in Pregnancy: A Case Control Study. Rev. Bras. Ginecol. Obstet. [online]. 2020, vol.42, n.12, pp.787-792. Epub 11-Jan-2021. ISSN 1806-9339. doi: 10.1055/s-0040-1718951. ISSN 0100-7203.
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Publicado por
Juliana Alves Pereira Matiuck Diniz

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