Como funciona a Organização de Procura de Órgãos (OPO)?

Para que o transplante de órgão aconteça, existe um processo burocrático e sensível, entender a complexidade desse processo é fundamental.

A Organização de Procura de Órgãos (OPO) é um órgão executivo do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) que verifica o cumprimento da legislação vigente sobre transplante de órgão e tecidos do corpo humano, com fins terapêuticos e científicos.

A OPO exerce atividades de identificação, manutenção e captação de potenciais doadores para fins de transplantes de órgãos e tecidos no âmbito de atuação da OPO designada pela Central de Transplantes.

Para atingir esse objetivo, o Sistema Nacional de Transplantes realiza ações de gestão política, promoção da doação, logística, autorização e renovação das equipes e hospitais para a realização de transplantes, definição do financiamento e elaboração de portarias que regulamentam todo o processo, desde a captação de órgãos até o acompanhamento dos pacientes transplantados.

A sua atuação tem como dois principais objetivos a redução do tempo de espera dos pacientes em lista para receber órgãos para transplantes e a melhoria da qualidade de vida desses pacientes.

Doação de Órgãos

Quem precisa fazer um transplante?

São candidatos a transplantes os pacientes que possuem uma doença progressiva, incapacitante, irreversível, onde não existam outras alternativas ou tratamentos que possam recuperar a função do órgão.

Os principais órgãos e tecidos transplantados são rins, pulmões, fígado, córneas, pâncreas, coração, pele, ossos e medula óssea.

Saiba mais: Novo painel de monitoramento do Sistema Nacional de Transplantes já está em vigor

Quem pode doar num transplante?

Para doar é necessário que a pessoa esteja em bom estado de saúde e não apresente nenhum tipo de infecção, como HIV e hepatite.

Existem dois tipos de doadores:

– Os vivos, geralmente familiares ou cônjuges, podem doar um dos rins, parte do fígado, pulmão e medula óssea.

E os falecidos, desde que tenham a morte encefálica comprovada por exames.

Um doador falecido pode salvar até oito vidas!

Comprovação da morte encefálica

Quando existe uma suspeita de morte encefálica, ela deve ser comprovada através de diversos exames, como eco doppler, angiotomografia e eletroencefalografia.

Uma vez constatado que não há mais um fluxo sanguíneo cerebral e ocorreu a morte encefálica – mesmo com o coração batendo – é exatamente o momento em que esse paciente poderá ser um doador de órgãos.

“A principal função do médico intensivista é reconhecer quando um paciente pode estar com morte encefálica e entrar o mais rápido possível com a central de transplantes do seu estado. E aí ele vai receber os protocolos, com orientações de quais exames devem ser realizados, com a sequência correta dos procedimentos até se confirmar a morte encefálica!, orientou o médico-cirurgião Eduardo Ramos, coordenador do Centro de Cirurgia, Gastroenterologia e Hepatologia (CIGHEP) do Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG) na área de transplante de fígado, em Curitiba, em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED.

Como conversar com a família de um possível doador com morte encefálica comprovada

Geralmente, no momento do óbito comprovado por motivo de morte encefálica, o médico deve realizar uma entrevista com os familiares do paciente para dar a notícia e fazer todos os esclarecimentos necessários.

“No Rio de Janeiro, esse contato é realizado por um enfermeiro autorizado pela Central Estadual de Transplantes (CET – RJ). Durante a abordagem, a família é esclarecida sobre todo o processo de morte encefálica, de forma a deixar clara a situação do familiar internado. Quando essa informação está clara e compreendida, o entrevistador traz à conversa o tema da doação de órgãos, seguindo um cronograma da própria entrevista. Em caso de termos uma resposta positiva familiar para doação de órgãos, entramos em contato com a CET-RJ para dar início ao processo de investigação da viabilidade dos órgãos. Só, então, é realizada a coleta de material biológico (sangue) para que possamos avaliar a tipologia e ofertar esses órgãos”, contou o enfermeiro intensivista e emergencial Jerônymo Jorge do Amaral Bonente Júnior, que trabalha na OPO Norte, que funciona no Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, zona Norte do Rio de Janeiro, em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED.

No entanto, antes ainda, é preciso que o enfermeiro ou médico responsável apresente três documentos oficiais para conseguir a confirmação da família para que o paciente seja doador.

São estes: o termo de autorização de doação de órgãos e tecidos, o questionário epidemiológico do potencial doador e orientações à família sobre a doação de órgãos.

“Após esse procedimento, é iniciado o processo de oferta de órgãos no âmbito estadual e nacional. Para isto, a CET-RJ conta com uma equipe especializada que é mobilizada para o local onde o doador está. Em um prazo de 24 horas (podendo se estender), o doador é devolvido à família para seguir com as demandas fúnebres”, complementou Jerônymo Bonente.

O profissional explica que não existe um protocolo a seguir. O que há, de fato, é um fluxograma, que deve ser seguido para dar prosseguimento à abordagem sobre a doação de órgãos.

Os médicos estão inseridos em todo o processo, desde quando há a suspeita da morte encefálica, acolhendo e criando um vínculo com essa família e acompanhando a evolução do paciente até o diagnóstico de morte encefálica.

“Um ponto importantíssimo é que os médicos devem mostrar para as famílias que o momento da doação somente acontece quando é comprovada a morte encefálica com a realização de diversos exames. E que a morte encefálica é incompatível com a vida. E ainda que não há nenhuma relação com o coma”, frisou o médico-cirurgião Eduardo Ramos.

Como é a fila de transplantes?

O candidato a transplante é inscrito em uma lista única através do Sistema Nacional de Transplantes. Hoje em dia, o processo é muito simples e rápido, tudo feito via internet pela equipe transplantadora. O que demora, algumas vezes, dependendo de cada serviço, o protocolo que é revisado antes de incluir o nome do paciente na fila.

A ordem da lista é importante, mas há outros critérios que também devem ser levados em conta, como o tipo sanguíneo, a gravidade do paciente, a compatibilidade genética e o tamanho do órgão.

Além desses exames, deve ser realizado um teste chamado cross-match (prova cruzada), que mistura o sangue do doador e do receptor para verificar se o receptor tem anticorpos contra o doador.

Trata-se de uma simulação do transplante dentro do laboratório e antes da cirurgia que serve para verificar se haverá possibilidade de rejeição dos órgãos antes da realização do transplante. Depois de todas essas etapas, os órgãos são destinados aos receptores ideais, evitando assim a rejeição.

Doação inter vivos

Segundo o coordenador do CIGHEP, existe um protocolo “que vai do fio de cabelo até a unha do pé” para verificar a pessoa como um todo para ver se ela pode ser uma candidata a transplante, se vai aguentar um transplante, se será útil. Todos esses aspectos serão avaliados e discutidos por uma equipe multidisciplinar antes que o possível doador seja colocado em uma lista de espera.

A doação de órgãos inter vivos acontece normalmente entre parentes, principalmente pai, mãe, irmãos, filhos e até cônjuges. E o órgão que mais é doado é o rim, uma vez que o corpo possui dois rins e basta um único rim para conseguir ter uma vida normal.

“Antes de doar algum órgão em vida, a pessoa passa por diversos exames. Ela não pode ter diabetes, hipertensão arterial, problemas no coração, ou seja, devem ser pessoas saudáveis. Esse indivíduo é até mais saudável do que a média da população normal para possa doar com segurança e viver tranquilamente com apenas um rim. Existem até alguns estudos que mostram que doadores de rins vivem mais do que a média da população normal. Isso porque elas são selecionadas previamente pelos médicos e esse fato faz até que se cuidem mais depois da doação”, destacou o médico-cirurgião Eduardo Ramos.

Cenário da fila de transplante no Brasil

O Brasil possui o maior programa público de transplante de órgãos, tecidos e células do mundo, que é garantido a toda a população através do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pelo financiamento de 95% dos transplantes no país. Porém, apesar do grande volume de cirurgias realizadas, ainda existem mais de 32 mil pessoas em filas de espera por um transplante no país.

“Sendo dúvida, o órgão mais procurado é o rim, uma vez que é mais difícil de encontrar um doador compatível. No caso do fígado e coração, basta acessar o sistema ABO, grupo de classificações dos tipos sanguíneos, para verificar a compatibilidade. Já no rim, além de passar pelo sistema ABO, vai ter o sistema HLA, que é responsável pela histocompatibilidade. Então, vai precisar ter uma compatibilidade maior. Além disso, um paciente com insuficiência renal crônica muitas vezes já deve ter recebido transfusão de sangue e plasma por diversos motivos, fazendo com que possua mais anticorpos contra futuros possíveis doadores. Por esses motivos é muito mais difícil encontrar um doador compatível”, esclareceu o coordenador do CIGHEP.

Definição de doador

Para vencer a desproporção entre o número de pacientes na lista e o número de transplantes realizados é importante conscientizar a população em geral sobre todas as etapas do procedimento, que começa com o diagnóstico de morte encefálica de um potencial doador e termina na recuperação do paciente que recebeu um novo órgão.

Outro ponto fundamental é que o médico intensivista saiba que não importa quem é o doador, qual o seu estado de saúde, pois a definição se é um paciente passível de doar é um serviço dos receptores.

“Os médicos não devem julgar previamente quem pode ou não ser doador. Os receptores que são aptos para avaliar com mais propriedade cada caso. Por exemplo, quando há na UTI um paciente com insuficiência renal grave não quer dizer que ele não pode ser doador, pois pode ser que o fígado possa estar em boas condições para que metade possa ser doador em vida. E pode ter alguém com insuficiência hepática fulminante que precise de um transplante exatamente naquele momento, até no mesmo hospital”, exemplificou Eduardo Ramos.

O especialista ainda dá outros exemplos, como no caso de um paciente com o fígado alterado, com histórico de alcoolismo, que ainda sim pode ser doador de rim. 

Se um paciente tem infecção pulmonar, talvez ele ainda possa ser um doador de rim ou de fígado; quem tem insuficiência renal, pode ser um candidato a doador de fígado, ou ainda um paciente com cirrose, pode ser um doador de rim. 

Leia também: Protocolo de Morte Encefálica: conheça os conceitos e saiba aplicar

Cuide bem do paciente com morte encefálica até o momento da retirada dos órgãos

O último ponto, mas não menos importante, é que os médicos devem cuidar muito bem do paciente com morte encefálica até o momento da retirada dos órgãos. 

“A explicação é que até o momento da doação, o coração está batendo, sendo necessário medir a pressão, o volume, diurese, etc. E justamente essas seis, doze horas antes da retirada dos órgãos são importantíssimas, uma vez que o paciente pode ter uma pressão baixa, uma alteração de glicemia grave que tem que ser revertida. Tudo isso para que na hora exata da doação o paciente esteja bem e os órgãos estarem adequados para o transplante”, concluiu o cirurgião-médico Eduardo Ramos.

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