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Como otimizar a adesão do paciente ao tratamento no pós-AVC?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Os pacientes que sobrevivem a um acidente vascular cerebral (AVC) frequentemente são idosos com múltiplas comorbidades, dentre elas hipertensão arterial, diabetes mellitus e dislipidemia. A prevenção desses fatores de risco (prevenção primordial) e o controle deles quando já existentes (prevenção primária) são essenciais para prevenir a ocorrência de desfechos cardiovasculares, incluindo AVCs. Na prevenção secundária (impedir recorrências) também é importante – talvez até mais – ter controle rigoroso dos fatores de risco modificáveis.

Entretanto, frequentemente estamos diante de um paciente parcialmente dependente para as atividades básicas de vida diária e que nunca teve uma boa adesão ao tratamento medicamentoso. Como otimizar a adesão, com fins de garantir melhores desfechos?

1) Esclarecer o paciente/cuidador

“Gaste” tempo explicando ao paciente o por quê de ele precisar daquelas medicações. Ao passo que ele entender que é agente ativo da própria saúde, a chance de se responsabilizar por ela é maior.

Especialmente no caso do AVC, um bom grau de independência funcional também aumenta a adesão. Note, contudo, que pacientes com AVCs que deixam sequelas maiores cursam com menor adesão terapêutica, apesar de ser um grupo que potencialmente necessita de tratamento mais agressivo para diminuir a chance de recorrências.

Uma vez que tudo foi pesado (por vezes são pacientes com múltiplos AVCs e com alto risco de sangramento, por exemplo) e foi optado por implementar determinadas terapêuticas, é necessário que se oriente bem a família/cuidadores para que obtenhamos melhores desfechos.

2) Letra legível no receituário

Sempre deve ser incentivada, claro. Facilita a compra, o uso e até a renovação da receita pelo médico da Atenção Primária, se for o caso. Para os que têm maiores dificuldades, a opção por imprimir a receita é uma boa alternativa.

3) Menor número de medicações e medidas não-farmacológicas

Mais um dos cenários onde menos é mais. Quanto maior a lista de medicações e/ou de tomadas, maiores as chances de o paciente não conseguir acessá-las (comprar ou “pegar” no PSF), bem como de deixar de usar alguma medicação por vários motivos (esquecimento, crença de que muitas medicações juntas fazem mal, efeitos adversos, entre outros).

Leia mais: AVCI: qual é a relação entre infecção e readmissão hospitalar?

Prefira medicações de tomadas únicas por dia e incentive medidas não-farmacológicas, que “pouparão” medicações: exercício físico, adequação alimentar, cessar tabagismo, entre outras.

Sobre esse cenário, especialmente no SUS, o médico precisa ter noções nutricionais, de educação física e reabilitação, pois o acesso a estes profissionais frequentemente é difícil.

4) Caixinha de medicação

Usar uma caixinha para identificar as medicações e separá-las por horário é bastante útil. O paciente não troca as medicações, facilita o processo de explicar o que usa em intercorrências e é possível que a equipe consiga notar falhas na adesão (se a cartela do AAS estiver quase cheia no fim do mês, é porque o paciente não está tomando). Há vários modelos de caixinhas disponíveis no mercado, em geral de preços acessíveis.

5) Vínculo com a Atenção Primária

Todos os pacientes precisam ser seguidos e orientados por uma equipe que seja capaz de “abranger” as morbidades do paciente, leia-se da Atenção Primária. É o âmbito que conta com vários profissionais, dentre eles o agente comunitário de saúde, que estão aptos a promover saúde na população, bem como facilitar o acesso de certas demandas médicas. Instituir esse vínculo, caso ainda não aja, é muito importante.

6) Momento adequado (“timming”)

Introduzir as medicações na prescrição hospitalar e receber alta com a orientação de seguir o uso aumenta a adesão do paciente.

Como notado, trata-se de tema amplo que envolve o próprio paciente, a família/cuidador e o sistema de saúde como um todo. O médico deve estar atento e questionar ativamente sobre condições socioeconômicas – prescrever um tratamento caro que, mesmo sendo eficaz, impeça o acesso do paciente, não faz sentido. É necessária adequação à realidade do paciente.

Em toda consulta ambulatorial, e mesmo em visita a emergências, é papel do médico e de toda equipe de saúde reforçar a importância das medidas farmacológicas e não-farmacológicas para bons resultados clínicos.

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Autor:

Mário Luciano de Mélo

Mestre em Neurociências pela UFPE ⦁ Residente de Neurologia no HC/UFPE

Referências:

  • Bushnell CD, et al. Secondary preventive medication persistence and adherence 1 year after stroke. Neurology, 77(12), 1182–1190, 2011. doi:10.1212/wnl.0b013e31822f0423
  • O’Carroll RE, et al. Improving Adherence to Medication in Stroke Survivors: A Pilot Randomised Controlled Trial. Annals of Behavioral Medicine, 46(3), 358–368, 2013. doi: 10.1007/s12160-013-9515-5
  • Esenwa C, Gutierrez J. Secondary stroke prevention: challenges and solutions. Vascular Health and Risk Management, 11, 437–450, 2015. doi:10.2147/VHRM.S63791
  • Banerjee C, Chimowitz MI. Stroke Caused by Atherosclerosis of the Major Intracranial Arteries. Circulation Research – Compendium on Stroke, 2016. doi 10.1161/CIRCRESAHA.116.308441

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