Oftalmologia

Como tratar a conjuntivite neonatal por clamídia?

Tempo de leitura: 3 min.

A clamídia é uma das bactérias mais comumente transmitidas sexualmente no mundo, sendo estimada a infecção em 131 milhões de casos novos ao ano. Além da infecção em adultos sexualmente ativos, ela pode ser transmitida para recém-nascidos durante o parto.

De 30 a 50% dos recém-nascidos de mães com clamídia ativa desenvolvem conjuntivite neonatal (oftalmia neonatorum), que é caracterizada por infecção aguda com eritema e edema das pálpebras e conjuntiva palpebral e secreção purulenta que tipicamente ocorre entre cinco e 14 dias após o nascimento.

A conjuntivite por clamídia já é a principal causa de conjuntivite neonatal no mundo. As complicações que podem ocorrer caso não seja tratada são principalmente as cicatrizes de córnea e conjuntiva. Mais ou menos 20% dos expostos à clamídia desenvolvem também pneumonia.

A profilaxia ocular no recém-nascido se mostrou ineficaz contra clamídia de acordo com alguns trabalhos. Alguns países decidiram por focar no screening através da rotina pré natal e no tratamento das mulheres com a infecção diagnosticada. Na América do Norte, as infecções neonatais por clamídia e gonorreia diminuíram depois que essas rotinas foram estabelecidas.

Em países onde o screening pré-natal ainda não é uma prática, a infecção continua sendo uma importante causa de conjuntivite neonatal. Existe portanto uma necessidade de terapias efetivas e seguras contra a infecção.

Profilaxia e tratamento da conjuntivite por clamídia

Uma revisão sistemática e metanálise de estudos que testaram tratamento com eritromicina oral, azitromicina e trimetoprim foi publicada em 2018 no Journal of the Pediatric Infectious Diseases Society. Foram incluídos 12 estudos, oito não randomizados prospectivos, um não randomizado retrospectivo e três controlados e randomizados. No total, 292 neonatos que tinham confirmação de diagnóstico microbiológico de conjuntivite por clamídia foram incluídos.

Em sete dos 12 estudos, os neonatos receberam profilaxia com nitrato de prata, pomada de eritromicina, pomada de tetraciclina, cloranfenicol oral ou pomada de ácido fusídico. Os outros estudos não especificaram uso de profilaxia.

Tratamento antibiótico

No tratamento, a eritromicina foi o primeiro antibiótico utilizado, na dose de 50 mg/kg por dia oral, dividido em quatro doses por 14 dias. Um estudo analisou a eficácia de duas durações diferentes de tratamentos da azitromicina (dose única x uma vez ao dia por três dias). Nenhum deles falou sobre os efeitos do trimetoprim.

Na maioria dos estudos é difícil ter uma certeza acerca da dose mais apropriada de eritromicina e azitromicina. Existe um viés em todos eles o que os torna imprecisos no resultado associado a um número pequeno de neonatos estudados. Nos sete estudos que avaliaram a eritromicina na dose de 50 mg/kg por dia por 14 dias (161 crianças), houve uma cura clínica de 96% e cura microbiológica de 97%. Yescas- Buendía et al trataram com doses menores (30–40 mg/kg por dia por 14 dias) e 100% tiveram cura clínica. Patamasucon et al também testaram menores doses com o mesmo resultado após sete dias de tratamento.

Apesar disso, 14% tiveram uma reincidência após 21 dias de tratamento. Um estudo avaliou a mesma dose porém somente por 10 dias e a cura clínica e microbiológica foi de 78%. Nos casos em que foi usada a azitromicina, dos que receberam uma dose única de azitromicina de 20 mg/kg houve 60% de cura clínica e microbiológica e dos que receberam a mesma dose por trêsdias houve 86% de cura microbiológica.

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Efeitos adversos e pneumonia

Em relação aos efeitos adversos, os mais comuns eram os gastrointestinais incluindo diarreia, vômito e dor abdominal. No grupo tratado com eritromicina 50 mg/kg/dia por 14 dias, 14% desenvolveram efeitos gastrointestinais. Não ocorreram efeitos adversos nos recém-natos tratados com azitromicina.

Quatro estudos avaliaram o desenvolvimento de pneumonia após o uso de antibióticos. Dos 76 neonatos apenas 1% dos tratados com eritromicina desenvolveram pneumonia no primeiro mês de tratamento e foram tratados com mais um curso de 2 semanas de eritromicina. Nenhum dos tratados com doses menores desenvolveram pneumonia. Sobre as erosões conjuntivais, 6% dos tratados com eritromicina dose padrão tiveram erosões conjuntivais. 50% dos tratados desenvolveu infecção nasofaríngea.

Conclusões

Essa foi a primeira revisão sistemática que analisou o tratamento da oftalmia neonatal, porém não foram encontrados estudos randomizados que comparassem diretamente diferentes drogas e além disso, nenhum estudo avaliou o trimetoprim.

Foram encontrados altíssimos índices de cura para determinados tratamentos, como por exemplo a eritromicina 50 mg/kg/ dia por 14 dias. Essa eficácia é muito maior que os tratamentos tópicos (cura microbiológica que varia de 0% com cloranfenicol a 78% com pomada de eritromicina).

Apesar de parecer que a cura clinica e microbiológica é menor com a azitromicina que a dose padrão de eritromicina, esse resultado ainda é incerto.

Além disso, mesmo que ainda sejam necessários estudos que comparem os tratamentos disponíveis, o screening na rotina pré natal e o tratamento de mulheres grávidas infectadas é o melhor método para prevenir a conjuntivite neonatal.

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Autor:

Referências bibliográficas:

  • Andrew Zikic, Holger Schünemann, Teodora Wi, Ornella Lincetto, Nathalie Broutet, Nancy Santesso, Treatment of Neonatal Chlamydial Conjunctivitis: A Systematic Review and Meta-analysis, Journal of the Pediatric Infectious Diseases Society, Volume 7, Issue 3, September 2018, Pages e107–e115, https://doi.org/10.1093/jpids/piy060
  • Kanski et al. Clinical Ophthalmology, a sistematic approach. 7th edition. Elselvier Saunders, 2011.
  • Ehlers et al. Manual de doenças oculares do Wills Eye Hospital – Diagnóstico e tratamento no consultório e na emergência. Quinta edição. Editora Artmed.
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Publicado por
Juliana Rosa

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