Ginecologia e Obstetrícia

Comparando resposta de anticorpos no leite materno após vacinação para covid-19

Tempo de leitura: 2 min.

O leite materno funciona como importante fator protetor dos recém-nascidos. Através dele, os anticorpos maternos protegem o lactente com sistema imune ainda imaturo (assim como no parto através da passagem transplacentária). A covid-19 em crianças tem um curso leve, sendo os recém-nascidos e crianças mais suscetíveis a doenças mais graves. Quase 20% das crianças hospitalizadas com covid-19 têm até 3 meses de idade.

Leia também: Dúvidas frequentes dos pais sobre a vacinação contra a Covid-19 em crianças

Há descrições na literatura da presença de anticorpos no leite humano de mulheres que tiveram covid-19 em sua forma de doença respiratória aguda grave. Esses anticorpos específicos naturalizaram ou foram capazes de manter a imunidade das crianças filhos desses pacientes.

Entretanto, ainda não havia na literatura nenhum estudo para investigar a resposta de anticorpos no leite materno após a vacinação para covid-19 (até dezembro de 2020). Até porque essa população de lactentes foi excluída dos estudos por questões de segurança desconhecida. Em nova avaliação da literatura até outubro de 2021 somente existiam estudos com vacinas de base RNAm. Assim, existia um vácuo em saber se a vacinação realizada durante a lactação poderia beneficiar essas crianças.

Análise recente

Nessa lacuna, o The Lancet publicou um estudo coorte, prospectivo e longitudinal realizado nos Países Baixos avaliando quatro vacinas (Pfizer, Moderna, Oxford e Jansen) administradas a lactantes no período de 06 de janeiro a 31 de julho de 2021. Os desfechos em estudo foram: a) produção de anticorpos no leite humano dentro de 70 dias após vacinação; b) comparação respostas anticorpos após vacinas de RNAm (Pfizer e Moderna) e de Vetor (Oxford e Jansen).

As lactantes eram selecionadas a partir de plataformas de mídias sociais sem critérios de exclusão, apenas entrando na pesquisa aquelas que recebiam alguma das vacinas acima no período de lactação. Amostras de leite materno foram colhidas nos dias 3, 5, 7, 9, 11, 13 e 15 a 17 após primeira e segunda doses de vacina. Exceção para vacina da Jansen que é dose única (só feitas as primeiras coletas seguidas de coletas nos dias 56-84). Pacientes que receberam a vacina Oxford faziam última coleta de leite materno no dia 98. Quatro amostras de plasma eram coletadas para dosagem de IgG antes de cada dose e 15-17 dias após ambas as doses. Com essas dosagens construiu-se curvas de anticorpos que eram tratadas estatisticamente utilizando a área abaixo da curva para comparação de quantidade de anticorpos em vários momentos da pesquisa.

A mediana de tempo de lactação foi de 4,5 a 7,5 meses (maior para o grupo que recebeu a vacina Pfizer).  Foram cadastradas 134 mulheres lactantes das quais apenas 97 participaram de todas as etapas do estudo, produzindo 1887 amostras de leite materno e 412 amostras de plasma. Os grupos não apresentaram diferenças entre si em condições pré-existentes.

Achados

Os achados do estudo concluíram que a maior elevação na produção de anticorpos se deu com com as vacinas RNAm (Pfizer 38,3% e Moderna 43,2%) em relação às vacinas de Vetores (Oxford 18,8% e Jansen 20,9%) com p < 0,0001.

Encontraram comportamento de produção de IgG específica após 5 a 7 dias de vacinação  em todos os grupos com aumento gradativo nos próximos 15 dias. Entretanto o maior aumento relacionou-se ao grupo de recebeu vacina Moderna, com 1,5 – 2,3 e 2,6 vezes mais anticorpos que Pfizer, Oxford e Janssen respectivamente (p < 0,0001).

Saiba mais: Vacina mRNA contra a covid-19 em gestantes pode prevenir a hospitalização de bebês 

A resposta na produção de IgA específica apresentou comportamento bifásico de resposta, acelerado após a segunda dose. Após 70 dias apenas o grupo que recebeu a vacina Moderna permaneceu com níveis detectáveis de IgA.

Com isso finaliza sugerindo que a vacinação contra covid-19 pode ser indicada também na lactação com vacinas RNAm, levando a proteção de lactantes e lactentes, preferencialmente com uso de vacinas RNAm, sendo a Moderna (RNAm-1273) com melhores resultados.

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Publicado por
João Marcelo Martins Coluna

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