Coronavírus

Complicações neurológicas da Covid-19

Tempo de leitura: 3 min.

Atualmente, já existem bastante evidências científicas que a infecção pelo vírus da SARS-CoV-19 pode levar a alterações e sequelas neurológicas tanto agudas como crônicas. As alterações neurológicas causadas pela Covid-19 estão relacionadas tanto a invasão direta do vírus no sistema nervoso como com alterações indiretas como processos vasculares inflamatórios e autoimunes. A identificação e diagnóstico dessas sequelas é bastante desafiadora uma vez que os sinais e sintomas podem estar relacionados a síndrome longa da Covid-19 com diagnósticos tardios e pelo fato que muitos pacientes graves durante a internação pela Covid-19 podem ter apresentado complicações como hipóxia, cascata inflamatória generalizada, distúrbios metabólicos e toxicidade medicamentosa. A doença neurológica causada pela Covid-19 denomina-se neurocovid e sua fisiopatologia está sendo minuciosamente
estudada e identificada entre os cientista e intensivistas.

A neurocovid

Dos potenciais mecanismos e complicações da neurocovid podemos citar: a infecção direta e a disseminação via replicação viral pelas sinapses periféricas e dos nervos cranianos; a quebra da barreira hematoencefálica levando a quadros de encefalite e meningite e em casos de trombose cerebral existe uma relação com alterações do endotélio e/ou estados de hipercoagulabilidade.

Estudo

Em um estudo com pacientes de Wuhan identificou-se que mais de 45% dos casos de pacientes com diagnóstico de Covid-19 tiveram sintomas neurológicos que envolviam tanto o SNC com quadros de anosmia, alterações do status mental, AVC e convulsões assim como o SNP com a presença de doenças musculares e nervosas. Estudos multicêntricos mais recentes estimaram que encefalopatia (31-42%) e acidente vascular cerebral (36-62%) eram as complicações neurológicas mais encontradas nos pacientes com Covid-19, em comparação com as síndromes inflamatórias como encefalite (5-13%) e Guillain-Barré (5-9%). Sendo que as complicações trombóticas estavam mais relacionadas a pacientes jovens e atingiam vasos de grande calibre causando maiores sequelas e mortalidade.

Atualmente, temos uma incidência de 50% de casos de delírio e 80% de casos de coma em pacientes com Covid-19 admitidos em unidades de terapia intensiva. Sendo que a exposição prolongada a sedativos, principalmente benzodiazepínicos, contribui de forma significativa para o surgimento de episódios de delírio nesses pacientes. Além disso vale ressaltar que os pacientes com quadro de insuficiência respiratória quando são desmamados da ventilação mecânica permanecem por um longo período de tempo ainda inconscientes até a sua total recuperação.

As alterações neurológicas de imagens mais comumente encontradas nesses pacientes são leucoencefalopatia, isquemia ou infarto cerebral com padrão de oclusão de grandes vasos, aumento da leptomeninge, encefalite e hemorragias e alterações de perfusão em regiões atípicas cerebrais. Microhemorragias também estão sendo encontradas principalmente em região de corpo caloso e região justacortical, porém essas alterações também são encontradas em pacientes graves submetidos a ventilação mecânica, sem diagnóstico de Covid-19, o que não se permite ainda determinar se as micro hemorragias são também particularidades do vírus.

Considerações

Atualmente, é importante salientar a necessidade real do uso de medidas neuroprotetoras e de cuidados neurointensivos em pacientes críticos com diagnóstico de Covid-19 assim como a adaptação de protocolos anteriores em relação a emergências neurológicas como estratégias neuroprotetivas, profilaxia de tromboembolismo e controle de estado epilético e delírio. O uso de avaliação diagnóstica multimodal com a realização de ressonância magnética, análise de líquor cefaloraquidiano e eletroencefalograma é fundamnetal em casos de pacientes com Covid-19 e encelopatias persistentes, podendo-se evidenciar casos raros de encefalites de origem imunológica e realizar tratamento adequado com corticoideterapia em altas doses e administração de imunoglobulinas ou plasmaferese.

Outra consideração bastante relevante é o desenvolvimento de síndrome de estresse pós traumático que já é encontrada em pacientes sobreviventes a estadias em terapia intensiva, e que vem ocorrendo em maior frequência e gravidade em pacientes com Covid-19 em um cenário atual de muita insegurança quanto ao resulatdo da terapia além do isolamento completo do paciente com seus familiares durante a internação. Existe uma necessidade real e especial na performance da recuperação pós internação desses pacientes com equipe de saúde multidisciplinar para a reabilitação emocional e psiquiátrica tanto do paciente quanto de seus familiares.

Leia também: O lado bom das reações adversas na vacinação anti-Covid-19

Os pacientes com diagnóstico de Covid-19 devem ser monitorados tanto na sua fase aguda como também mais tardiamente após a sua recuperação quanto aos sinais e sintomas neurológicos que possam a vir desenvolver. Estudos modernos e globais estão ajudando a identificar quais os pacientes com maior risco e ajudando a desenvolver estratégias de neuromonitorização e controle clínico em um cenário de limitação de recursos.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Newcomb VFJ,et al.Neurological complications of COVID-19.Intensive Care Medicine volume 47,
    pages1021–1023 (2021).
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Publicado por
Gabriela Queiroz

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