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Conheça as diretrizes da OMS para uma cirurgia segura

Tempo de leitura: 8 minutos.

No intuito de garantir a segurança do paciente no ato cirúrgico, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou a primeira edição do manual “WHO Guidelines for Safe Surgery” (Diretrizes da OMS para Cirurgia Segura) em 2008. Em 2016, a organização lançou as Diretrizes Globais para a Prevenção da Infecção do Sitio Cirúrgico. “Os fatores de risco para a infecção cirúrgica são multifatoriais e a prevenção destas é complexa e requer a integração de uma série de medidas preventivas nos períodos antes, durante e após a cirurgia.

Leia mais: Qual a relação do CME com a cirurgia segura?

Confira a seguir as orientações da instituição para manter o paciente seguro no pré, peri e pós-operatório.

Banho pré-operatório

Recomendação 1: é uma boa prática clínica o paciente tomar banho antes da cirurgia. Um sabonete simples ou antimicrobiano pode ser usado para este fim (Condicional/Evidência moderada).

Descolonização de Staphylococcus aureus em portadores nasais

Recomendação 2: os pacientes que serão submetidos a cirurgia cardiotorácica ou ortopédica com colonização nasal por S. aureus devem receber aplicações perioperatórias intranasais de pomada de mupirocina a 2% com ou sem a combinação de lavagem corporal com clorexidina. (Forte/Evidência moderada);

Recomendação 3: considerar tratar da mesma forma pacientes que serão submetidos a outros tipos de cirurgias (Condicional/Evidência moderada).
Momento ideal para a profilaxia antimicrobiana cirúrgica pré-operatória

Recomendação 4: administração de profilaxia antimicrobiana antes da incisão cirúrgica quando indicado (dependendo do tipo de cirurgia) (Forte/Evidência baixa);

Recomendação 5: administração de profilaxia antimicrobiana em até 120 minutos antes da incisão, considerando a meia-vida do antibiótico. (Forte/Evidência moderada). Obs: análise comparando diferentes intervalos de tempo (120 min, 60 min ou 30 min antes da incisão) não demonstra diferença significativa, sendo importante apenas observar a meia-vida do antibiótico para escolher o melhor momento para administração.

Preparação mecânica do intestino e uso de antibióticos orais

Recomendação 6: antibióticos orais pré-operatórios combinados com a preparação mecânica do intestino devem ser usados para reduzir o risco de ISC em pacientes adultos submetidos à cirurgia colo retal eletiva (Condicional/ Evidência moderada);

Recomendação 7: a preparação mecânica do intestino sozinha (sem administração de antibióticos orais) não deve ser utilizada com a finalidade de reduzir ISC em pacientes adultos submetidos a cirurgia colo retal eletiva. (Forte/Evidência moderada).

Tricotomia

Recomendação 8: em pacientes submetidos a qualquer procedimento cirúrgico, cabelos/pelos não devem ser removidos ou, se absolutamente necessário, devem ser removidos apenas com máquinas de cortar. A depilação é fortemente desencorajada em qualquer momento, seja no pré-operatório ou na sala de cirurgia (Forte/Evidência moderada).

Preparação do sítio cirúrgico

Recomendação 9: soluções antissépticas alcoólicas à base de gluconato de clorexidina para a preparação da pele do sítio cirúrgico em pacientes que serão submetidos a cirurgias (Forte/Evidência baixa a moderada).

Selantes antimicrobianos para a pele

Recomendação 10: os selantes antimicrobianos não devem ser usados após a preparação da pele do sítio cirúrgico com a finalidade de reduzir ISC (Condicional/ Evidência muito baixa).

Preparação das mãos para a cirurgia

Recomendação 11: a preparação das mãos para a cirurgia deve ser realizada esfregando-as com sabonete antimicrobiano apropriado e água ou friccionar com preparação alcoólica antes de calçar luvas estéreis (Forte/Evidência moderada).

Melhoria do suporte nutricional

Recomendação 12: considerar a administração de fórmulas nutricionais orais ou entéricas reforçadas com múltiplos nutrientes com a finalidade de prevenir ISC em pacientes com baixo peso que passarão por grandes cirurgias (Condicional /Evidência muito baixa).

Suspensão peri-operatória de agentes imunossupressores

Recomendação 13: não interromper medicações imunossupressoras antes da cirurgia com a finalidade de prevenir ISC (Condicional /Evidência muito baixa).

Oxigenação peri-operatória

Recomendação 14: pacientes adultos submetidos à anestesia geral com intubação endotraqueal para procedimentos cirúrgicos devem receber uma fração de 80% de oxigênio inspirado (FiO2) no intra-operatório e, se possível, no pós-operatório imediato por 2-6 horas para reduzir o risco de ISC (Forte/Evidência moderada).

Manter a temperatura corporal normal (normotermia)

Recomendação 15: uso de dispositivos de aquecimento na sala de cirurgia e durante o procedimento cirúrgico para o aquecimento do corpo do paciente com a finalidade de reduzir ISC. (Condicional/Evidência moderada).

Uso de protocolos para controle intensivo de glicemia no peri-operatório

Recomendação 16: utilização de protocolos para o controle peri-operatório intensivo da glicemia tanto para pacientes adultos diabéticos quanto não diabéticos submetidos a procedimentos cirúrgicos para reduzir o risco de ISC (Condicional/Evidência baixa).

Manutenção do controle adequado do volume circulante/normovolemia

Recomendação 17: utilização de terapia com fluidos guiada por objetivos no intra-operatório para reduzir o risco de ISC (Condicional/Evidência baixa).

Campos e aventais cirúrgicos

Recomendação 18: tanto campos estéreis de tecido reutilizáveis quanto campos estéreis descartáveis que não sejam de tecido, assim como aventais cirúrgicos, podem ser utilizados durante cirurgias com o objetivo de prevenir ISC (Condicional/Evidência muito baixa).

Recomendação 19: não utilizar campos adesivos de plástico com ou sem propriedades antimicrobianas com a finalidade de prevenir ISC (Condicional/Evidência baixa a muito baixa)

Dispositivos de proteção de feridas

Recomendação 20: considerar o uso de dispositivos de proteção de feridas em cirurgias abdominais potencialmente contaminadas, contaminadas e infectadas com a finalidade de reduzir a taxa de ISC (Condicional/Evidência muito baixa).

Irrigação da ferida incisional

Recomendação 21: não há evidência suficiente para recomendar a favor ou contra a irrigação da ferida incisional com solução salina antes do fechamento com a finalidade de prevenir ISC. Recomenda-se o uso da irrigação da ferida incisional com uma solução aquosa de PVP-I antes do fechamento com a finalidade de prevenir ISC, particularmente em feridas limpas e potencialmente contaminadas. A irrigação de feridas incisionais com antibióticos antes do fechamento não deve ser feita com a finalidade de prevenir ISC (Condicionais/Evidência baixa).

Terapia profilática com pressão negativa

Recomendação 22: uso de terapia profilática com pressão negativa em pacientes adultos com fechamento primário de incisão cirúrgica, desde que sejam feridas de alto risco, com a finalidade de prevenção de ISC, levando em consideração os recursos disponíveis (Condicional/Evidência baixa).

Suturas revestidas com antimicrobianos

Recomendação 23: utilização de suturas revestidas com triclosan com a finalidade de reduzir o risco de ISC, independentemente do tipo de cirurgia (Condicional/Evidência moderada).

Sistemas de ventilação com fluxo laminar de ar na sala cirúrgica

Recomendação 24: sistemas de ventilação com fluxo laminar de ar não devem ser usados para reduzir o risco de ISC para pacientes submetidos a cirurgia de artroplastia total (Condicional/Evidência baixa a muito baixa).

Utilização de luvas cirúrgicas

Recomendação 25: O painel decidiu não formular uma recomendação devido à falta de evidências para avaliar se a luva dupla ou a troca de luvas durante cirurgias, ou ainda o uso de tipos específicos de luvas, é mais eficaz na redução do risco de ISC.

Medidas no pós-operatório

Recomendação 26: contra o prolongamento da administração de profilaxia antimicrobiana cirúrgica após a conclusão da cirurgia com o propósito de prevenir Infecção de sítio cirúrgico (Forte/Evidência moderada).

Curativos avançados

Recomendação 27: não usar qualquer tipo de curativo avançado em vez de um curativo padrão sobre feridas cirúrgicas com fechamento primário com a finalidade de prevenir ISC (Condicional/Evidência baixa). Obs: são considerados curativos avançados os hidrocoloides, os hidroativos, os que contêm prata ou polihexametileno-biguanida.

Profilaxia antimicrobiana na presença de um dreno e tempo para remoção do dreno da ferida operatória

Recomendação 28: a profilaxia antimicrobiana peri-operatória não deve ser continuada na presença de um dreno na ferida com a finalidade de prevenir ISC (Condicional/Evidência baixa);

Recomendação 29: remoção do dreno da ferida quando clinicamente indicado. Nenhuma evidência foi encontrada para recomendar um momento ótimo de remoção do dreno da ferida com a finalidade de prevenir ISC (Condicional/Evidência muito baixa).

No ambiente cirúrgico oral

Ressaltando a extrema importância de haver um guia mundial de recomendações baseado em evidências científicas para a prevenção de infecção de sítio cirúrgico, a Biomédica, Cirurgiã-Dentista, Microbiologista e especialista em Controle de Infecção e Epidemiologia, Lusiane Borges, esclarece que, especificamente em ambiente de cirurgia oral, o microrganismo Staphylococcus aureus é o eleito como de 1º ponto de preocupação. “Trata-se de uma bactéria do grupo dos cocos Gram-positivos, frequentemente encontrada na pele e nas fossas nasais de pessoas saudáveis.

Entretanto, pode provocar doenças, que vão desde uma simples infecção (acnes, furúnculos e celulites) até infecções graves (pneumonia, meningite, endocardite, síndrome do choque tóxico, sepse e outras)”.De acordo com a Biomédica, dentre todas as orientações do guia global de indicações para prevenção de infecções, podemos destacar para cirurgia bucal:

Preparação do local cirúrgico – bochecho prévio de 1 minuto com colutório a base de clorexidina 0,12 ou 0,2%;

Momento ideal para a profilaxia antibiótica cirúrgica pré-operatória – administração de antibiótico entre 3 e 1 hora antes da cirurgia;

Prolongamento da profilaxia antibiótica cirúrgica – utilização de antibioticoterapia profilática pós-cirúrgica somente para cirurgias ortognáticas;

Preparação cirúrgica da mão – emprego de um agente antisséptico apropriado para realizar esfregaço cirúrgico pré-operatório, esfregando as mãos e antebraços por 2-5 minutos para a maioria dos produtos alcoólicos. A formulação à base de álcool deve ser de acordo com a orientação da OMS

Infecção em cirurgia plástica é uma complicação devastadora. Todos os aspectos envolvidos na prevenção de infecção pós-cirúrgica devem ser observados. Embora sem comprovação científica o uso de antibióticos após a cirurgia é frequentemente adotado em todo o mundo. Em geral o uso de cefalosporinas de primeira geração por 7 dias após o ato cirúrgico é rotineiro especialmente em mamaplastias de aumento. Nesses casos a lavagem da loja cirúrgica com gentamicina, cefalosporina e betadine é rotina para a prevenção do biofilme e consequente contratura capsular.

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Autor:

André Mattos

Graduação em Medicina pela UFRJ (1987) ⦁ Residência em Cirurgia Geral na UFRJ (1988-1989) ⦁ Residência em Cirurgia Plástica no Instituto Ivo Pitanguy (1990-1992) ⦁ Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica ⦁ Membro da American Society of Aesthetic Plastic Surgery

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Um comentário

  1. Erinete Garcia

    Ótimo amei esse artigo bem atualizado

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