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Consultas médicas online podem aumentar a prescrição de antibióticos

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As consultas online, assim como as telecirurgias e os telediagnósticos, entre outras formas de atendimento médico à distância, foram regulamentadas no Brasil em fevereiro deste ano.

É o que estabelece a Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 2.227/18. O texto estabelece a telemedicina como exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde, podendo ser realizada em tempo real ou off-line.

Para assegurar o sigilo médico, o texto estabelece que todos os atendimentos devem ser gravados e guardados, com envio de um relatório ao paciente. Outro ponto destacado é a concordância e autorização expressa do paciente ou representante legal, por meio de consentimento informado, livre e esclarecido, por escrito e assinado, sobre a transmissão ou gravação de imagens e dados.

telemedicina e consultas online

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Teleconsulta

A teleconsulta é definida pela norma como consulta médica remota, mediada por tecnologias, com médico e paciente localizados em lugares diferentes. A primeira consulta deve ser presencial, mas, no caso de comunidades muito distantes, como aldeias indígenas, pode ser virtual, desde que o paciente seja acompanhado por um profissional de saúde.

Nos atendimentos por longo tempo ou de doenças crônicas é recomendada a realização de consulta presencial em intervalos não superiores a 120 dias. No caso de prescrição médica à distância, a resolução determina que o documento deverá conter a identificação do médico, incluindo nome, número do registro e endereço, identificação e dados do paciente, além de data, hora e assinatura digital do médico.

Telediagnóstico

A emissão de laudo médico, por meio de gráficos, imagens ou dados enviados pela internet, é definida pela resolução como telediagnóstico. O procedimento deve ser realizado por um médico com registro de qualificação de especialista na área relacionada ao procedimento.

Fechamento de diagnóstico por telemedicina

Mas, será que o fechamento de um diagnóstico obtido através de uma consulta online pode contribuir para elevar a taxa de prescrição de antibióticos, por exemplo?
Um estudo publicado, em janeiro deste ano, na Academia Americana de Pediatria, constatou que a prescrição de antibióticos para crianças com infecções respiratórias agudas é maior quando atendimento é realizado por telemedicina.

O objetivo do trabalho apresentado foi comparar a qualidade da prescrição de antibióticos para infecções respiratórias agudas entre crianças em três cenários: telemedicina comercial direta ao consumidor (DTC), no atendimento de urgência (CDT) e no médico de família (PCP).

Métodos utilizados

Em um estudo de coorte retrospectivo usando dados de solicitados entre os anos de 2015 e 2016, de um grande plano nacional de saúde comercial dos Estados Unidos, foram identificadas todas as visitas pediátricas com quadros com suspeita de infecções respiratórias agudas, excluindo as visitas com comorbidades que poderiam afetar as decisões do uso dos antibióticos.

As visitas foram combinadas em idade, sexo, complexidade médica crônica, estado, tipo de plano de saúde e categoria de diagnóstico de infecções respiratórias agudas.

Dentro da amostra combinada, os pesquisadores compararam a porcentagem de visitas de casos de infecções respiratórias agudas com qualquer prescrição de antibiótico, e a porcentagem de visitas de infecções respiratórias agudas com manejo de antibiótico concordante de diretrizes.

Resultados

A prescrição de antibióticos foi maior nas consultas de telemedicina do que em outros contextos (52% das consultas de telemedicina DTC versus 42% de atendimento de urgência e 31% de visitas de PCP; P <0,001 para ambas as comparações).

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O manejo de antibióticos concordantes foi menor nas consultas de telemedicina do que em outros locais (59% das visitas de telemedicina do CDT versus 67% de atendimento de urgência e 78% de visitas de PCP; P <0,001 para ambas as comparações).

Segundo a pediatra Roberta Esteves Vieira de Castro, os antibióticos nem sempre são a melhor opção. Quando prescritos incorretamente, os pacientes são desnecessariamente expostos a diversos riscos, tais como:

  • Pacientes que recebem antibióticos para infecções simples, como infecções do trato respiratório superior, são mais suscetíveis a cepas agressivas de Clostridium difficile, uma bactéria anaeróbica Gram positiva formadora de esporos fastidiosa, responsável por diarreia infecciosa e colite pseudomembranosa com morbidade e mortalidade significativas;
  • A microbiota intestinal influencia as funções humanas essenciais, incluindo a digestão, o metabolismo energético e a inflamação através da modulação de múltiplas vias endócrinas, neurais e imunológicas do hospedeiro. Sua composição e complexidade variam acentuadamente entre indivíduos e em diferentes locais do intestino, mas fornecem um certo nível de resiliência contra perturbações externas. O tratamento com antibióticos de curta duração é capaz de mudar a microbiota intestinal para estados disbióticos alternativos em longo prazo, o que pode promover o desenvolvimento e agravamento da doença. As características comuns da disbiose pós-antibiótica incluem a perda da diversidade taxonômica e funcional combinada com a redução da resistência à colonização contra patógenos invasores. Além disso, existem estudos que sugerem que a exposição a antibióticos durante períodos iniciais de desenvolvimento de lactentes pode influenciar o ganho de peso e o desenvolvimento da obesidade. Pesquisas complementares em humanos e roedores indicam que a microbiota intestinal desempenha um papel fundamental nesse processo;
  • O uso incontrolado de antibióticos leva à resistência bacteriana. Estudos recentes indicam que a resistência a antibióticos é capaz de aumentar a aptidão bacteriana in vivo com um aumento concomitante da virulência durante as infecções;
  • A seleção e a disseminação de organismos resistentes a antibióticos não só comprometem o tratamento de doenças infecciosas, mas também a implementação de diferentes procedimentos terapêuticos como transplante de órgãos, cirurgia avançada ou quimioterapia, todos os quais requerem métodos proficientes para evitar infecções;
  • Existe um considerável custo social da resistência aos antibióticos atribuível a cada prescrição ambulatorial, aumentando substancialmente os custos sociais totais dos pagadores ou pacientes. Por fim, a resistência a antibióticos também é responsável por aumentar a utilização de recursos e, consequentemente, os gastos hospitalares.

Conclusões

As crianças atendidas por telemedicina têm mais chances de receber a indicação de antibióticos e dessa prescrição não estar de acordo com as recomendações oficiais médicas. Em resumo: mais chances de uso inadequado do antibiótico.

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Autor:

Referências:

  • https://pediatrics.aappublications.org/content/early/2019/04/04/peds.2018-2491
  • http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=28061
    Azad MB, Moossavi S, Owora A, Sepehri S.Early-Life Antibiotic Exposure, Gut Microbiota Development, and Predisposition to Obesity.Nestle Nutr Inst Workshop Ser. 2017;88:67-79.
  • Burke KE, Lamont JT. Clostridium difficile infection: a worldwide disease. Gut Liver. 2014;8(1):1–6.
  • Friedman ND, Temkin E, Carmeli Y. The negative impact of antibiotic resistance. Clin Microbiol Infect. 2016 May;22(5):416-22.
  • Guillard T, Pons S, Roux D, Pier GB, Skurnik D. Antibiotic resistance and virulence: Understanding the link and its consequences for prophylaxis and therapy. Bioessays. 2016 Jul;38(7):682-93.
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