Pediatria

Conversas sobre prognóstico entre os intensivistas e a família do paciente pediátrico crítico

Tempo de leitura: 3 min.

As famílias dos pacientes pediátricos críticos valorizam muito a comunicação clara com os intensivistas pediátricos sobre prognóstico. A fim de avaliar essa comunicação de prognóstico entre os médicos intensivistas pediátricos e os responsáveis legais de pacientes com menos de 18 anos com síndrome de disfunção de múltiplos órgãos (SDMO) com 24 horas da admissão, foi feito um estudo de setembro de 2019 e agosto de 2020 com entrevista e questionário em uma Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) universitária com 40 leitos na cidade de Chicago nos Estados Unidos por Rissman e colaboradores publicado em 2021 na revista Pediatric Critical Care. Os dados foram colhidos do 5º ao 10º dia de internação. Nesse artigo, destacaremos as principais contribuições deste estudo.

A hipótese inicial do trabalho seria que a maioria dos responsáveis não relatariam a ocorrência de conversas sobre prognóstico. Adicionalmente, quando os familiares relatavam que houve essas conversas, foram explorados os tópicos discutidos nas conversas sobre o prognóstico (ex. tempo de internação, mortalidade, mortalidade, morbidades após a UTI físicas, cognitivas e psicológicas para os pacientes, e psicológicas para os familiares). Foram excluídas as famílias que não falavam Inglês ou que a equipe da UTIP considerasse inapropriada a abordagem. 

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Resultados

Das 137 famílias que preenchiam os critérios de inclusão do estudo, 101 famílias concordaram em participar da pesquisa e responderam a pesquisa, e 20 médicos intensivistas pediátricos que acompanhavam os pacientes responderam a pesquisa. Foram comparados os relatos dos responsáveis com os dos médicos sobre o que foi conversado sobre os pacientes. Houve 22% de concordância em relatos no geral, 4% sobre tempo de internação, 25% sobre mortalidade, 21% sobre morbidades físicas do paciente, 25% sobre morbidades cognitivas do paciente, 17% sobre morbidades psicológicas do paciente e 14% sobre morbidades psicológicas da família.

Sobre a necessidade de suporte invasivo, os familiares relataram discussões sobre ventilação mecânica (n=11), suporte nutricional (n=17) e diálise (n=7). Sobre mudanças nas atividades de vida diária, os responsáveis lembraram de discussões obre nutrição (n=13), fraqueza (n=10), deambulação (n=5), visão (n=5) e audição (n=1).

Saiba mais: Síndrome de abstinência e delirium em UTIP

Sobre os profissionais que conversaram sobre prognóstico, os familiares disseram que as enfermeiras conversaram mais sobre tempo de internação e morbidade física do paciente. Já as discussões sobre morbidades psicológicas da família ocorriam mais com capelães, assistentes sociais e enfermeiras. Por vezes, os familiares não lembravam quem tinha conversado sobre qual parte do prognóstico com eles. Os responsáveis que não lembravam ter conversas sobre prognóstico desejavam mais informações sobre esse tema.

Discussão e Conclusão

A concordância entre os relatos dos médicos e dos familiares ter sido de apenas 22% pode decorrer da falta de clareza da linguagem usada pelos médicos, talvez um excesso de termos técnicos, e os familiares ativarem um mecanismo de defesa próprio de não lembrarem das conversas conscientemente ou inconscientemente. Uma das limitações desse estudo foi que foi baseado apenas nas recordações dos médicos e familiares, não houve registro das conversas. Esse estudo destaca a importância dos médicos melhorarem sua comunicação com os familiares. É primordial que tentemos adequar nossa linguagem à compreensão dos familiares, checar o que os familiares entenderam sobre o que falamos e que o trabalho em equipe multidisciplinar seja fortalecido.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Rissman L, Derrington S, Rychlik K, Michelson KN. Parent and Physician Report of Discussions About Prognosis for Critically Ill Children. Pediatr Crit Care Med. 2021 May 11.  doi: 10.1097/PCC.0000000000002764. Online ahead of print.
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Publicado por
Renata Carneiro da Cruz

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