Coronavírus e neurologia: o que temos até agora?

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Surgirão sintomas neurológicos associados à recente epidemia de coronavírus (Covid-19)? É o que muitos se perguntam, lembrando de casos recentes, como a Zika, que esteve relacionada a quadros de Guillain-Barre, por exemplo. Dentre os sintomas mais frequentes, cefaleia, mialgia e fadiga já se estão descritos no quadro clínico típico do COVID-19, como descrito numa revisão do BMJ este mês. Agora, um grupo chinês acaba de publicar um primeiro artigo sobre este assunto, que resumimos abaixo.

coronavírus em imagem digital

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Manifestações neurológicas no coronavírus

Reunindo dados de 214 pacientes internados em três hospitais na região de Wuhan (onde foi o início da epidemia) e revisando os prontuários, um time de neurologistas identificou que 78 pacientes (36,4%) tiveram manifestações neurológicas. Estes sintomas foram agrupados em três tipos:

  • Sistema nervoso central (53 pacientes): dor de cabeça, tontura, sonolência/diminuição do nível de consciência, ataxia, AVC/isquemia cerebral e crise convulsiva;
  • Sintomas do sistema nervoso periférico (19 pacientes): hipogeusia (alteração do paladar), hiposmia (alteração do olfato) e neuralgias (diversas dores de origem neurológica);
  • Sintomas musculares esqueléticos (23 pacientes): mialgia / dor muscular.

Como eram estes pacientes?

Neste estudo, todos tiveram diagnóstico de COVID-19 confirmados por PCR. Os pacientes graves – independente de haver sintomas neurológicos – eram mais idosos e possuíam mais comorbidades (principalmente hipertensão arterial). Também possuíam CK, LDH mais elevados que os pacientes não graves.

Esses quadres mais severos tendiam a apresentar menos os sintomas típicos (como febre e tosse), mas era este grupo que apresentou mais sintomas neurológicos (45.5% vs 30.2%), como AVC (5.7% vs 1 0.8%), consciência rebaixada (14.8% vs 2.4%) e sintomas musculares (19.3% vs 4.8%). Estes pacientes possuíam contagem linfocitária mais baixa e d-dímero mais alto.

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Mecanismos de ação

Sobre o mecanismo de ação, pode haver meios diretos e indiretos, estando possivelmente relacionados à enzima conversora da angiotensina 2 (ACE-2), a qual está presente em diversos tecidos, incluindo o SNC. Pode haver penetração no SNC por via hematogênica ou por via neuronal retrógrada (por exemplo, via nervo olfatório, já que muitos pacientes possuem hiposmia).

A revisão atual lembrou ainda que foi confirmada lesão neurológica em infecções de outros tipos de coronavírus, como o SARS-CoV-1 e o MERS-CoV, sendo identificado seu DNA no líquor e na análise de tecido cerebral durante autópsias de pacientes dessas outras condições.

Discussão e recomendações finais

Dentre as limitações desta série de casos, destacamos o fato de haver relativamente poucos pacientes e todos serem provenientes de apenas uma determinada região. Por isso, precisa-se observar um número maior e de diferentes países. Outra observação é que pode haver mais pacientes que apresentem apenas sintomas neurológicos leves (como hipogeusia e hiposmia) e por isso não foram contabilizados neste estudo, já que não houve internação hospitalar nestes casos.

Além disso, necessita-se de mais dados sobre a evolução destes sintomas neurológicos, sobre informações avindas de exames complementares (como ressonância magnética de crânio) e a magnitude real da repercussão clínica.

Como conclusão, recomenda-se atentar para possíveis quadros neurológicos nos pacientes com suspeita de COVID-19, principalmente os quadros mais graves. Para casos duvidosos, pode ser interessante a avaliação de um neurologista para diagnósticos diferenciais. Afinal, como se sabe, numa epidemia pode haver o fenômeno do “overdiagnosis” e não podemos esquecer de outras causas que mais comumente podem gerar os quadros neurológicos mencionados acima.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Neurological Manifestations of Hospitalized Patients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective case series study. Ling Mao et al, 2020. https://doi.org/10.1101/2020.02.22.20026500.
  • https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.02.22.20026500v1
  • Clinical findings in a group of patients infected with the 2019 novel coronavirus (SARS-Cov-2) outside of Wuhan, China: retrospective case series Xiao-Wei Xu – BMJ 2020;368:m606
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Um comentário

  1. Olá!! Excelente artigo. Tive covid e meus primeiros sintomas apareceram Há 1 mês, porém após minha alta, continuo a sentir náusea, tonturas, fraqueza, cãibras, prurido na pele e dores de cabeça forte, esses sintomas tive durante o covid e mantém até hoje, será que é alguma sequela ? Não tive nenhum sintoma respiratório durante a infecção.

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