Infectologia

Corticoide para Covid-19: dexametasona ou metilprednisolona?

Tempo de leitura: 3 min.

Ao longo da pandemia de Covid-19, diversos medicamentos apareceram como potenciais para o tratamento da doença. Até o momento, porém, nenhum deles se demonstrou eficaz no controle da infecção. O único fármaco que apresentou redução de mortalidade foi a dexametasona, um corticoide, mas apenas em casos que necessitassem de oxigênio.

Diante dessa evidência, diversas unidades passaram a usar a metilprednisolona, já que, em ensaios clínicos anteriores à pandemia, ela aparecia como melhor opção de corticosteroide para síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) em unidades de terapia intensiva (UTI). A hipótese desses estudos mais antigos é que esse fármaco tem maior penetração pulmonar.

Como ainda há pouca evidência sobre o melhor medicamento para tratamento da Covid-19, um estudo randomizado foi realizado, no Irã, para avaliar a eficácia de metilprednisolona versus dexametasona em pacientes hospitalizados.

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Dexametasona vs metilpredinisolona

O ensaio clínico randomizado controlado e triplo-cego incluiu pacientes com mais de 18 anos, internados de agosto a novembro de 2020 no principal hospital universitário da Shiraz University of Medical Sciences, que tinham PCR confirmado para Covid-19 e saturação de oxigênio inferior a 92 em ar ambiente na admissão.

Foram excluídos pacientes com diabetes e/ou hipertensão não controlados, mulheres grávidas, pessoas que já haviam sido tratadas com esteroides por algum motivo, pacientes com imunodeficiência e aqueles com contraindicação aos medicamentos.

Os participantes foram alocados aleatoriamente em uma proporção de 1:1 para receber, no grupo de intervenção, dez dias de metilprednisolona (2 mg/kg/dia IV, reduzindo para metade da dosagem a cada cinco dias), e no controle, dez dias de dexametasona (6 mg/dia IV). Ambos receberam tratamento padrão.

Leia também: Covid-19: Alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o uso de dexametasona

O tratamento com metilprednisolona foi interrompido em pacientes que tiveram elevações graves na pressão arterial (pressão arterial sistólica ≥ 180 mmHg e/ou pressão arterial diastólica ≥ 120 mmHg) ou em naqueles com diabetes tipo 2 que tiveram necessidade de insulina de ação prolongada superior a 0,5 U/kg para manter glicemia inferior a 180 mg/dL.

Os dados foram avaliados com base em uma escala ordinal da Organização Mundial da Saúde (escala ordinal de melhoria clínica – OSCI) de 9 pontos, sendo 0 aquele paciente sem evidência clínica ou virológica de infecção (não infectado) e 8 morte. Os desfechos primários foram mortalidade por todas as causas em 28 dias e estado clínico após cinco a dez dias, utilizando a escala OSCI.

Os desfechos secundários foram a necessidade de ventilação mecânica invasiva e admissão na UTI. Os desfechos exploratórios predeterminados foram a duração da internação hospitalar e, finalmente, a morte hospitalar durante os 28 dias após a inscrição. A proporção de pacientes com esses desfechos também foi avaliada nos dias cinco e dez.

Resultados

Participaram do estudo 86 pacientes, sendo 44 em cada grupo.

  • Não houve diferenças significativas entre os grupos de intervenção e de controle na admissão (dia zero – escore OSCI 4,79 vs. 4,69, p = 0,504).
  • Nos dias cinco e dez, o grupo de intervenção teve uma pontuação significativamente menor que o grupo controle (dia cinco – 4,02 vs. 5,21, p = 0,002; dia dez – 2,90 vs. 4,71, p = 0,001).
  • Houve uma diferença significativa na pontuação média geral entre o grupo de intervenção (3,909 com uma faixa de 3,458–4,360) e o grupo de controle (4,873 com uma faixa de 4,411–5,335) (p = 0,004).
  • Em relação à mortalidade, apesar de haver mais mortes no grupo que usou dexametasona, não houve relevância estatística na diferença (15 mortes no grupo controle vs. oito no de intervenção; p = 0,076).
  • A comparação da duração de internação hospitalar excluiu os pacientes que foram a óbito durante a internação. Com base no número restante de pacientes, o tempo médio de internação foi de 7,43 ± 3,64 dias no grupo da metilprednisolona e 10,52 ± 5,47 dias no controle (p = 0,015).
  • A necessidade de ventilador foi significativamente menor no grupo intervenção (18,2%) do que no grupo controle (38,1%) (p = 0,040).

Veja mais: Covid-19 e antibioticoterapia

Discussão e conclusões

O estudo sugere que a metilprednisolona tem melhores resultados no estado clínico e na dependência de ventilação mecânica que a dexametasona para pacientes hospitalizados com Covid-19. Porém, como as doses foram diferentes (administração de cerca de 0,5 mg/kg/dia de dexametasona em um paciente de cerca de 70 kg versus 2 mg/kg/dia de metilprednisolona) não é possível afirmar que essa diferença se deu pela ação de cada fármaco, podendo estar relacionada também à dosagem.

Quando falamos em mortalidade, apesar de a metilprednisolona ter se saído melhor, não houve relevância estatística na diferença. Tudo isso demonstra a necessidade de mais estudos com amostras maiores.

Além da quantidade de pessoas, outras limitações desse ensaio que podemos citar foram os dados limitados sobre as complicações, dados laboratoriais e recursos de tomografia computadorizada.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referência bibliográfica:

  • Ranjbar K, et al. Methylprednisolone or dexamethasone, which one is superior corticosteroid in the treatment of hospitalized COVID-19 patients: a triple-blinded randomized controlled trial. BMC Infectious Diseases. 21, Article number: 337 (2021) https://doi.org/10.1186/s12879-021-06045-3
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Publicado por
Clara Barreto

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