Covid-19: alterações imunológicas em crianças com síndrome inflamatória multissistêmica

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Em recente artigo publicado no jornal Nature Medicine, pesquisadores do Evelina London Children’s Hospital e do King’s College London descreveram a ocorrência de alterações imunológicas na síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (multisystem inflammatory syndrome in children – MIS-C) relacionada à Covid-19.

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Características do estudo

Nesse estudo, foi realizada a fenotipagem periférica de leucócitos em 25 crianças com diagnóstico de MIS-C em três fases:

  • Fase aguda (n=23; pior fase doença em 72 horas de admissão);
  • Resolução (n=14; melhora clínica);
  • Convalescença (n=10; primeira consulta ambulatorial).

Uma amostra de sete controles saudáveis de mesma idade foi utilizada para comparações.

A mediana de idade foi de 12,5 anos [intervalo interquartil (IQR) 7,7–14,4 anos], dos quais 40% (n=10) eram meninas, 40% (n=10) eram de etnia branca, 72% (n=18) tinham sintomas gastrointestinais, 28% (n=7) tinham evidências radiológicas de pneumonia, 56% (n=14) fizeram uso de infusões vasoativas e 28% (n=7) tinham dilatação da artéria coronária ou aneurisma. Painéis de vírus respiratórios e triagens para infecção bacteriana foram negativos em todos os pacientes durante a hospitalização.

17 pacientes (68%) eram soropositivos para anticorpos específicos para o vírus SARS-CoV-2, incluindo um paciente que era positivo para SARS-CoV-2 por RT-PCR (reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa). Essas crianças tiveram doença mais grave. Entre as oito crianças soronegativas (32%), seis tinham uma história clara de sintomas anteriores sugestivos de infecção por SARS-CoV-2, contato domiciliar próximo com casos confirmados de infecção por SARS-CoV-2, presença em aglomerações ou pais profissionais de saúde. A soropositividade foi associada a uma maior prevalência de sintomas gastrointestinais, pior encurtamento da fração do ventrículo esquerdo e maior uso de tratamento imunomodulador. Aneurismas de artéria coronária foram observados apenas em crianças soropositivas.

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Achados

Níveis elevados de interleucina-1β (IL-1β), IL-6, IL-8, IL-10, IL-17, interferon-γ (IFN- γ) e linfopenia de subconjuntos de células T e B foram observados na fase aguda da MIS-C. A alta expressão de CD64 em neutrófilos e monócitos, e a alta expressão de HLA-DR em células T γδ e CD4 + CCR7 + na fase aguda, sugerem que essas populações de células imunes foram ativadas. As células apresentadoras de antígeno tinham baixa expressão de HLA-DR e CD86. Isso indica uma potencial apresentação de antígenos prejudicada, o que foi normalizado nas fases de resolução e de convalescença.

Os pesquisadores enfatizaram que, nesse estudo, a coorte MIS-C parece distinta da doença de Kawasaki (DK), pois não foi observada neutrofilia e contagem de monócitos aumentada (característicos da DK). Além disso, na DK, as contagens de CD4 e CD8 são maiores do que a contagem de células T observadas nessa coorte MIS-C, e as proporções de células CD4 T + HLA-DR-positivas são menores na DK, que também não possui relato de ativação de células CD4 T + CCR7 + e subconjuntos de células T γδ.

Por fim, a DK também é caracterizada pela ativação das vias da IL-1, enquanto as respostas alteradas de IFN bem descritas na Covid-19 podem ser mais relevantes na MIS-C. Imunologicamente, embora haja características da MIS-C semelhantes à Covid-19 em adultos, como excesso de citocinas e linfopenia, há diferenças, como a maior contagem de neutrófilos e o aumento de células CD4 T non-naive com evidência de exaustão de células T.

Conclusão

Portanto, segundo os pesquisadores, apesar de clinicamente as crianças com MIS-C responderem a tratamentos que acalmam o sistema imunológico, como corticosteroides e imunoglobulinas, e embora existam semelhanças com doenças existentes, como a DK, essas mudanças clínicas e imunológicas observadas no presente estudo implicam que a MIS-C é uma doença distinta associada a infecções por SARS-CoV-2. No entanto, a imunofenotipagem simultânea da DK e da Covid-19 em adultos é necessária para a confirmação.

Mais informações sobre Covid-19 na nova edição da Revista PEBMED

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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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