Covid-19 e diabetes: pacientes em uso de metformina têm menor risco de mortalidade?

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O diabetes é uma das comorbidades mais importantes ligadas à gravidade da Covid-19, assim como de outras infecções conhecidas por coronavírus. Esses pacientes têm um risco aumentado de complicações graves, incluindo síndrome do desconforto respiratório do adulto e falência de múltiplos órgãos. Apesar disso, pouco ainda se sabe sobre as relações entre mortalidade da infecção pelo SARS-CoV-2 e as comorbidades dos pacientes.

Por isso, um estudo recente, em preprint, avaliou as características clínicas dos pacientes com Covid-19 que evoluíram a óbito. Nos resultados, aqueles com diabetes em uso de metformina, medicação de primeira linha para o tipo 2, apareceram numa relação de melhor prognóstico.

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Covid-19 e comorbidades

Os pesquisadores realizaram uma análise retrospectiva de dados disponíveis online de 25.326 pessoas testadas para Covid-19 no University of Alabama at Birmingham Hospital, nos Estados Unidos. Os pacientes incluídos foram testados entre os dias 25 de fevereiro e 22 de junho deste ano, e foram categorizados como positivo ou negativo com base em resultados de RT-PCR para SARS-CoV-2. Os grupos de idade foram divididos entre < 50, 50-70 e > 70 anos.

Dos 25.326 analisados, 24.722 indivíduos tiveram teste negativo para Covid-19 e 604, positivo.

O desfecho primário foi a mortalidade em Covid-19 positivos e a associação das características e comorbidades dos indivíduos. Essa associação foi analisada por meio de regressão logística linear simples (para odds ratio bruto) e múltipla (para odds ratio ajustado).

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Resultados

Disparidade racial:

  • O odds ratio de ter o teste positivo foi desproporcionalmente alto em negros (OR 2,6; IC 95% 2,19-3,10; p < 0,0001). Apesar de apenas 26% da população do Alabama ser afro-americana, entre os pacientes Covid-19 positivo, 52% eram negros.
  • Apenas 36% dos indivíduos com testes positivos eram brancos. Os brancos representaram 56% dos resultados negativos.

Comorbidades:

  • 70% de todos os indivíduos diagnosticados tinham hipertensão preexistente (OR 2,46; IC 95% 2,07-2,93; p < 0,0001);
  • 61% tinha obesidade (OR 1,93; IC 95% 1,64-2,28; p < 0,0001);
  • 40% tinha diagnóstico de diabetes (OR 2,11; IC 95% 1,78-2,48; p < 0,0001).

Mortalidade:

  • A mortalidade geral dos pacientes positivos foi de 11%;
  • 93% das mortes aconteceram em indivíduos com mais de 50 anos e sexo masculino;
  • Hipertensão foi associada a um risco significativamente elevado de evoluir para óbito, segundo a análise de regressão logística bivariada;
  • Diabetes foi associado a um aumento dramático na mortalidade (OR 3,62; IC 95% 2,11-6,2; p < 0,0001), representando 67% das mortes.

Idade, sexo e diabetes apareceram como os principais fatores significativamente associados ao Covid-19 e mortalidade, sugerindo que são fatores de risco independentes, mesmo após correção para idade, raça, sexo, obesidade e hipertensão.

Covid-19 e diabetes

Por diabetes aparecer como um fator de risco independente para evolução para óbito na Covid-19, os pesquisadores se aprofundaram neste subgrupo. Nos resultados do contexto de pacientes com diabetes, a idade > 50 e sexo masculino continuaram a estar associados ao aumento da mortalidade. Entre diabetes tipo 1 e tipo 2, não houve diferença significativa.

Ao analisar o tratamento do diabetes e seu efeito na Covid-19, o estudo focou na insulina e na metformina, por serem os mais comuns prescritos para pacientes com tipo 2. Foram considerados apenas os medicamentos usados antes do diagnóstico da infecção pelo coronavírus, para evitar efeitos de confusão que poderiam surgir no início da insulina por hiperglicemia de estresse e pela descontinuação da metformina em pacientes hospitalizados.

Metformina

Apesar de a insulina não afetar o risco de mortalidade, o uso da metformina reduziu significativamente as chances de morte nos pacientes positivos (OR 0,38; IC 95% 0,17-0,87; p = 0,0221). A mortalidade em pacientes em uso de metformina foi comparável à da população geral com Covid-19 (11%), enquanto naqueles com diabetes sem o medicamento foi de 23%.

O efeito permaneceu mesmo quando os indivíduos com doença renal crônica ou insuficiência cardíaca crônica foram excluídos da análise (OR 0,17; IC 95% 0,04-0,79; p = 0,0231).

Apesar de a metformina ser usada por suas propriedades redutoras de peso, que melhora o controle glicêmico, esses efeitos não foram relacionados diretamente ao resultado do estudo. Nem o índice de massa corporal (IMC) nem a hemoglobina A1C (HbA1C) foram menores em usuários de metformina que sobreviveram em comparação com aqueles que morreram.

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Conclusões

Segundo os resultados apresentados, o diabetes é um fator de risco independente associado ao aumento da mortalidade em indivíduos com Covid-19, mas o tratamento com metformina reduz drasticamente a mortalidade em indivíduos com DM2, mesmo após a correção para múltiplas covariáveis. Os mecanismos pelos quais a metformina poderia melhorar o prognóstico da infecção não são conhecidos, já que não esteve relacionado ao controle glicêmico nem à redução do IMC.

Entre as limitações do estudo, podemos citar o tamanho da amostra, principalmente de positivos, que não permitiu qualquer análise separada de subgrupos adicionais, como de pacientes com diabetes tipo 1 ou indivíduos em outros medicamentos antidiabéticos além da metformina.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referência bibliográfica:

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