Covid-19: onde estamos nas terapias medicamentosas?

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Aproximadamente, 80% dos infectados pela Covid-19 são leves e não irão necessitar de intervenção médica ou hospitalização. Então, o que fazer para a grande maioria dos casos?

Terapias medicamentosas e Covid-19

Inúmeras terapias estão sendo avaliados no seu tratamento, porém ainda nenhuma foi comprovadamente eficaz. Abaixo segue a discussão dos principais tratamentos hoje estabelecidos em algumas diretrizes e em estudos.

Veja também: Central Coronavírus: estudos com tocilizumabe, características da Covid-19 em crianças e mais! [vídeo]

Hidroxicloroquina/cloroquina

Ambas são responsáveis por aumentar o pH celular, impedindo a junção do novo coronavírus com a membrana celular do hospedeiro e são consideradas imunomoduladoras. Por outro lado, somente a cloroquina é capaz de inibir a glicosilação dos receptores celulares da ECA2 Apesar de ser necessário ensaios clínicos randomizados em larga escala, de acordo com “NIH COVID-19 Treatment Guidelines”, o uso dessas drogas não diminuiu o tempo de internação, a duração dos sintomas, o risco da necessidade de ventilação mecânica e de morte. E em outro estudo randomizado e controlado, não foi demonstrado melhora significativa em pacientes leves ou moderados.

Após revisão da segurança e pelos graves eventos adversos reportados como arritmia cardíaca, injúria renal e hepática, retinopatia, hipoglicemia severa, entre outros e interações medicamentosas, a FDA proibiu o uso emergencial dessas medicações, exceto em estudos clínicos controlados.

Azitromicina+Hidroxicloroquina

Não foi recomendado essa combinação fora de estudos clínicos, devido ausência de benefício demonstrada e pelo efeito potencial dessa associação de prolongar o intervalo QT.

Ivermectina

Droga aprovada pela FDA para ser utilizada em estudos clínicos, possui ação antiviral contra uma grande quantidade de viroses, incluindo HIV-1, Dengue, Zika e influenza. Foi sugerido, a partir de um estudo clínico, que, in vitro, ela pode reduzir o RNA viral de maneira significativa por 48 horas, ou seja, consegue efetivamente matar as partículas virais por 2 dias. Nenhuma mudança no RNA viral foi observada com 72 horas. Apesar do resultado promissor, são necessários estudos, principalmente in vivo, para validar o uso dessa droga para profilaxia ou tratamento da Covid-19.

Corticoesteroides

Devido seu potencial anti-inflamatório e por suprimir citocinas relacionadas com a injúria pulmonar na SARS-COV-2, os resultados preliminares de um estudo em larga escala, randomizado, sugeriram que a Dexametasona reduziu a mortalidade em pacientes hospitalizados e em uso de oxigênio. Para aqueles em tratamento ambulatorial ou sem necessidade de O2, não se foi demonstrado redução do risco de morte, internação, admissão em UTI e de necessidade de ventilação mecânica. Logo, não devem ser utilizados de rotina, exceto se houver algum motivo para o seu uso, como na exacerbação do DPOC ou asma. Para aqueles que já os utilizam continuamente (por via oral ou inalatória), os corticoides devem ser mantidos.

Antibióticos

Para pacientes leves, a OMS demonstrou-se contra o uso dessa classe, nem mesmo para profilaxia. Para os moderados, eles devem ser utilizados somente se houver suspeita de coinfecção ou infecção bacteriana. Os graves, deverão receber o tratamento empírico, baseado no julgamento clínico.

Saiba mais: Covid-19: Fiocruz produzirá vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford

AINES

Em meados de março, foi sugerido que AINES (como ibuprofeno) poderiam aumentar a expressão do ACE2 e inibir a produção de anticorpos. Porém, após estudos a FDA estabeleceu a ausência de provas que o uso dessas medicações agrava o quadro da Covid-19 e que os pacientes deveriam utilizá-las somente sobre orientação. Para aqueles que já faziam uso devido outras comorbidades, poderiam continuá-los.

Estatinas/IECA/BRA

As estatinas devem ser continuadas, por reduzirem a disfunção endotelial. Alguns estudos demonstram que podem reduzir o risco cardiovascular em pacientes com infecções respiratórias. Porém, não devem ser utilizadas como tratamento para Covid-19 fora de estudos clínicos. O mesmo raciocínio serve para os IECA/BRA que devem ser mantidas para os que já as utilizam. Porém, não se sabe ainda se ajudam, pioram ou não fazem diferença na patogenicidade do SARS-COV-2.

Assim, o tratamento racional para os pacientes suspeitos ou confirmados para a SARS-COV-2, principalmente, os que necessitarão somente de assistência ambulatorial, deve ser pautado em orientação qualificada dos sintomas e sinais de alarme, acompanhamento por telemonitoramento conforme o risco, consulta presencial se agravamento, sintomáticos e medicamentos específicos, mediante avaliação clínica individual.

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Publicado por
Marco Aurélio Muniz

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