Covid-19: pela primeira vez, SARS-CoV-2 foi encontrado em tecido cardíaco de paciente

Tempo de leitura: 3 min.

Pela primeira vez, o SARS-CoV-2 foi encontrado no tecido cardíaco de uma criança com síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) relacionada à Covid-19. O caso foi de uma criança brasileira, de 11 anos, apresentando SIM-P associada à Covid-19, que desenvolveu insuficiência cardíaca e morreu no dia seguinte à internação.

O relato foi publicado na última semana no The Lancet.

Relato de caso de Covid-19

A paciente, do sexo feminino, foi admitida em uma unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP) com choque cardiovascular e febre persistente. Foi referido que ela estava com febre há sete dias, odinofagia, mialgia e dor abdominal.

À admissão, ela apresentou desconforto respiratório com taquipneia (FR de 70 respirações por minuto) e hipóxia, além de sinais de insuficiência cardíaca congestiva: distensão da veia jugular, estertores na base dos pulmões, fígado deslocado, hipotensão (PA de 80/36 mm Hg), taquicardia (134 bpm) e extremidades frias com pulsos filiformes. Ao exame físico, foram identificados conjuntivite não exsudativa e lábios gretados.

A criança foi intubada e foi iniciado um tratamento antibiótico com ceftriaxona e azitromicina. A adrenalina periférica tinha sido iniciada na sala de emergência, antes da transferência para UTI P.

Exames complementares

Foi realizado um ecocardiograma que apresentou hipocinesia ventricular esquerda difusa sem anormalidades de movimento segmentar da parede. Disfunção miocárdica substancial foi observada, com diminuição da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (31%) e sem colapsibilidade respiratória da veia cava inferior. Foi prescrito furosemida e o cateter central e o monitoramento invasivo foram estabelecidos.

A radiografia inicial mostrou área cardíaca aumentada e opacidades pulmonares bilaterais. Na tomografia computadorizada (TC) de tórax mostrou múltiplas opacidades pulmonares em vidro fosco associadas a espessamento dos septos interlobulares e esparsos focos de consolidação bilateral, predominantemente nas áreas periférica e posterior dos lobos inferiores.

Leia também: Covid-19: alterações imunológicas em crianças com síndrome inflamatória multissistêmica

Laboratório

Os resultados dos exames laboratoriais apontaram lesão miocárdica e altas concentrações de proteína C reativa, interleucina-6, ferritina, triglicerídeos, dímero D, troponina e banda miocárdica de creatina quinase. Foram observados também contagem de leucócitos desviada para esquerda e linfopenia substancial.

Evolução

A gasometria arterial mostrou hipóxia e acidose. Foi iniciada ventilação mecânica (VM) na primeira hora de internação e os parâmetros ventilatórios atingiram pressão expiratória final positiva máxima de 8 cm H2O e pressão inspiratória máxima de 25 cm H2O, com fração inicial de oxigênio inspirado de 60%.

Após início da VM e uso de diuréticos, os parâmetros ventilatórios tiveram melhora e foi observada menos opacificação na radiografia do tórax. Porém, durante toda a internação a paciente apresentava taquicardia sinusal (FR > 200 bpm).

Por fim, a criança evoluiu com choque vasoplégico hiperdinâmico refratário à ressuscitação volêmica e agentes vasoativos. Depois de 28 horas, ela teve fibrilação ventricular e evoluiu para óbito.

Veja mais: Síndrome inflamatória multissistêmica associada à Covid-19: veja como identificar para notificar

Autópsia e exames post-mortem

Foi realizada uma autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom, com amostra de tecidos do coração, pulmão, fígado, baço, rins, cérebro, linfonodo inguinal, músculo quadríceps e pele. Antes da coleta dos tecidos, foi feita também uma angiografia pós-morte por TC, que não mostrou sinais de alterações nas artérias coronárias.

A ultrassonografia do coração mostrou um endocárdio hiperecogênico e difusamente espessado (espessura média de 10 mm), um miocárdio espessado (18 mm de espessura no VE) e um pequeno derrame pericárdico. O exame histopatológico mostrou miocardite, pericardite e endocardite caracterizada por infiltrado de células inflamatórias.

A análise do tecido cardíaco por microscopia eletrônica identificou partículas virais esféricas de 70-100 nm de diâmetro, consistentes em tamanho e forma com a família Coronaviridae, no compartimento extracelular e dentro de vários tipos de células – cardiomiócitos, células endoteliais capilares, células endoteliais do endocárdio, macrófagos, neutrófilos e fibroblastos.

Foi detectado RNA do SARS-CoV-2 em um swab nasofaríngeo, colhido após a morte, e em tecidos cardíacos e pulmonares por RT-PCR. Os valores de limiar do ciclo para amostras de pulmão e coração foram 35,6 e 36, respectivamente, sugerindo baixa carga viral nesses órgãos.

Nenhum patogênico, provavelmente patogênico ou variante de significado desconhecido foi encontrado associado a erros inatos de imunidade.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referência bibliográfica:

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Publicado por
Clara Barreto

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