Covid-19: Qual a relação entre a solidão e os sintomas psiquiátricos na população idosa?

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Com a atual pandemia por Covid-19 observamos a recomendação de medidas de isolamento social. Estas impactam toda a população, mas podem ser ainda mais relevantes em alguns grupos, como já viemos discutindo em vários artigos aqui no portal da PEBmed. Este mês vamos avaliar o impacto do isolamento gerado pela Covid-19 sobre a população idosa, mas sob uma ótica diferente: a influência da idade subjetiva desses pacientes (a idade que se atribuem e que pode ser diferente da idade cronológica) sob os sintomas psiquiátricos no contexto de isolamento social. Este artigo foi publicado no final de maio no American Journal of Geriatric Psychiatry.

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Isolamento, solidão e impactos na população idosa

O isolamento social pela atual pandemia pode levar a um sentimento de solidão, por sua vez relacionado a quadros de ansiedade e depressão. Também pode impactar sobre a morbimortalidade da população. A ideia aqui é avaliar fatores relacionados à resiliência ou maior suscetibilidade entre aqueles expostos à solidão. Os pesquisadores optaram por avaliar qual o papel que a percepção subjetiva que os pacientes têm de sua idade pode influenciar nesse quadro. Segundo eles, idosos que se percebem como mais velhos podem internalizar certas visões de si mesmos (geralmente de caráter negativo, como a fraqueza). Nesse grupo os recursos para enfrentar situações de isolamento podem estar diminuídos. Esse grupo também pode ter piores condições de saúde, piorando sua solidão e isolamento.

Então formularam a seguinte hipótese: a solidão decorrente da atual pandemia está relacionada a um maior número de sintomas psiquiátricos, especialmente naqueles que têm uma percepção de que são mais velhos. Essa associação seria menor naqueles que subjetivamente percebem-se mais jovens.

Metodologia

Para testar tal hipótese realizaram um questionário na população de Israel, que foi distribuído em mídias sociais e em listas de contatos fornecidas por algumas organizações ligadas à população de idosos. A pesquisa ocorreu entre 16 de março e 14 de abril deste ano e foi aprovada pelo comitê de ética da universidade ligada ao estudo. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento para participação da pesquisa.

A amostra foi composta por 277 sujeitos, sendo a maioria composta por mulheres, pessoas casadas (ou que moravam junto com outra pessoa) e com nível superior. Dessas, apenas 42,9% relataram sofrerem com doenças crônicas que poderiam ser consideradas como fator de risco para um desfecho negativo pela infecção por coronavírus e 64,5% definiram sua saúde como boa ou muito boa.

Foram perguntados: o sexo; a idade; o estado civil; o grau de escolaridade; a presença de doenças crônicas que poderiam representar um fator de risco para um desfecho negativo da infecção por Covid-19; os eventos em que potencialmente poderiam se expor à infecção e as mudanças comportamentais diante das circunstâncias.

Para mais detalhes, confira o artigo original. A fonte está na bibliografia.

Escalas

  • Idade subjetiva: utilizada uma escala que avaliava os seguintes itens: aparência, comportamento, questões física e mental relacionadas à percepção da idade.
  • Sintomas ansiosos: GAD-7.
  • Sentimento de solidão: escala de 3 itens (UCLA Loneliness scale).
  • Sintomas depressivos: PHQ-9.
  • Sintomas relacionados ao trauma: PDI.

Limitações

Além das limitações inerentes a um estudo transversal, os autores ressaltam possíveis vieses relacionados à aplicação da pesquisa pela internet, o que exige não só acesso à rede, mas familiaridade com recursos online. A população com acesso a tais recursos já pode estar socialmente conectada através dos mesmos, influenciando a sensação de solidão estudada. Os autores também informam não haver dados relacionados à solidão e sofrimento avaliados antes da pandemia.

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Resultados

Na média os sujeitos da pesquisa se sentiam mais novos do que a sua idade cronológica. No geral, o sentimento de solidão e a presença de sintomas psiquiátricos foram baixos, apesar de ter sido observada uma grande variação nas respostas.

O sentimento de solidão foi positivamente relacionado às escalas PHQ-9, GAD-7 e PDI, assim como se sentir mais velho.

Apenas 16,6% dos sujeitos da pesquisa relataram estar em isolamento ou testarem positivo para Covid-19, mas 59,9% disseram conhecer alguém em uma dessas situações. Contudo, todos disseram ter tido pelo menos 1 mudança comportamental diante da situação da pandemia.

Foram feitas 3 análises de regressão, que seguiram uma hierarquia. Após o ajuste de variáveis envolvendo aspectos demográficos e ligados ao Covid-19, observou-se que aqueles que tinham uma idade subjetiva maior e relataram maior sentimento de solidão também apresentavam mais sintomas psiquiátricos. Ou seja, na população com maior idade subjetiva houve uma forte associação entre os sintomas psiquiátricos e a sensação de solidão. Contudo essa associação foi insignificante entre aqueles que subjetivamente se consideravam mais jovens.

Conclusão

A hipótese investigada foi validada, segundo este estudo: a associação entre sintomas psiquiátricos e solidão foi maior entre os pacientes que tinham uma percepção subjetiva de serem mais velhos. Já os sujeitos que se percebiam como mais novos não apresentaram a mesma correlação.

Desta forma é interessante considerar que o efeito da percepção subjetiva da própria idade possa ter relação com outros fatores. Os autores enfatizam que são necessários mais estudos nesta área, mas que este achado pode sugerir estratégias de avaliação e intervenção sobre grupos de idosos durante e após a pandemia por COVID-19, permitindo a identificação de um grupo sob maior risco. Para saber mais sobre alguns dos transtornos mentais citados aqui acesse o aplicativo do Whitebook ou o Whitebook Web.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Shrira A, Hoffman Y, Bodner E, Palgi Y. COVID-19-Related Loneliness and Psychiatric Symptoms Among Older Adults: The Buffering Role of Subjective Age. The American Journal of Geriatric Psychiatry. 2020 May 27th. doi: https://doi.org/10.1016/j.jagp.2020.05.018.
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